Neo-Lombrosianos: Como Justiceiros Sociais prejudicam a esquerda e suas próprias pautas
Raphael Tsavkko Garcia
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Raphael, acompanho sempre, com interesse, o que você escreve e partilho de muitas das suas opiniões, mas me permita pontuar algumas discordâncias.
No seu texto, você diz que os justiceiros sociais são invariavelmente petistas. Acho que você está errado nisso. Se fosse esse o caso, juro que eu estaria muito mais tranquilo, mas entendo que esse identitarismo, de fundo multiculturalista, pós-moderno, tem ganhado a esquerda como um todo. O Psol, por exemplo, é um antro desse identitarismo. Até o PCB, uma esquerda mais clássica, cedeu a esse avanço identitarista. E para além das cores partidárias, uma ampla militância virtual, desvinculada de partidos, que reproduz esses discursos. Esses grupos, aliás, são intrinsecamente inorgânicos e autofágicos, de onde não surpreende esses rachas que você apontou.

Acho que essa “entificação da diferença” (o termo é do Safatle), de corte no limite individualista, redunda nessa esquerda dos guetos identitários, sectária e tendencialmente hiperfragmentária, onde o debate político é loteado e o argumento de autoridade é reentronizado na forma dos famigerados “lugares de fala”. É como se Marx e Engels não pudessem escrever sobre o operariado oitocentista, porque não eram operários; Florestan Fernandes não poderia ter escrito sobre os negros, porque não era negro; Darcy Ribeiro não poderia ter escrito sobre os índios, porque não era índio; o marxista peruano José Carlos Mariátegui não poderia ter escrito sobre feminismo. E assim vai…

Os SJW’s, que importamos dos EUA, são um fenômeno colonizante e nascem desse caldo de negação do universalismo, que esteve na base epistemológica da própria formação das esquerdas modernas. O Eric Hobwbawm dizia em um texto publicado na New Left Review sobre a política de identidades que somar minorias não é o mesmo que ganhar maiorias. E esse, a meu ver, é um dos impasses da esquerda contemporânea: como conciliar essa dispersão identitarista pós-68 com um projeto universal que tenha por horizonte da emancipação do “homem genérico”? Eu entendo que, teoricamente, aquilo que é particular não necessariamente nega o universal. A questão é pensar como trazer isso para a prática.

Um grande abraço. Se possível, gostaria de adicioná-lo no facebook.

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