Feriados, sexta-feira 13, acidentes e experiências com pessoas no trânsito que possivelmente não lidam bem com susto.

Existe uma coisa muito engraçada com feriados. Passamos dias antes planejando, fazemos coisas muito diferentes do que imaginamos e terminamos com experiências outras da que achávamos que fôssemos ter antes de vivê-lo.

Bom, isso pelo menos comigo.

Dessa vez eu (e o destino/karma/acaso) me superei: fui atropelado no meio do meu feriado.

Estava com tudo planejado para passar o dia visitando o que eu chamo de corredor do rolezinho de domingo: iniciando no palacete das artes, passando pelo MAB, ICBA e terminando no ‘freestyle’ – que nesse caso seria assistir ‘Mãe’ no Glauber.

Sai da casa de Casales, meu melhor amigo, e dono da minha segunda casa, rumo a toda a função que seria o meu dia.

Tudo seguia a receita perfeita de um dia tranquilo, exceto pela ideia absurda de atravessar a Tancredo Neves sem utilizar a passarela.

Em outras palavras: é como se eu estivesse naquele jogo da galinha atravessando a rua, já avancei vários níveis e agora eu estivesse no último. No caso a galinha sou eu, as pistas eram 6 e eu não estou tão certo se é um jogo tão divertido assim.

De qualquer forma, naquele momento a ideia foi tentadora o suficiente para que quando eu ouvi o ‘vamos’, automaticamente lancei meu corpo para o terreno em que eu terminaria impactado – com permissão da piada ruim.

Não demorou muito para que os carros antes inexistentes se tornassem barulhos cada vez mais perto de mim.

Não tinha opção: ou corria, ou corria.

Assim o fiz. E em menos de um segundo tenho certeza que otimizei alguma reza mentalmente e fiz o equivalente a dez rosários para não ser atendido.

Infelizmente não foi o suficiente.

Uma moto pegou em cheio meu pé, eu cai de cara no chão e num reflexo me joguei pro canteiro.

Essa hora eu já sentia meu pé estranho, já via Edmundo com cara de espanto e Casales com a mão no peito.

Achei que era isso. Machuquei o pé, fiz burrada, vou buscar atendimento, enfim… Um atropelo, mas eu estava vivo e aparentemente com o pé torcido – dos males o menor.

Bom… Existe algo engraçado sobre sustos: as pessoas não sabem lidar com eles. Pelo menos é assim que estou querendo encarar a situação, e vou dizer o porquê.

Uns cinco minutos depois, já andando em direção ao trabalho de meu amigo, fomos surpreendidos com um grito atrás de nós:

“Ei rapaz, seu maluco, seu porra, sou eu o cara da moto… você é louco?! Você queria me matar?!

Eu busquei um pouco de energia para questionar a ele um belo “Hã?!” e obtive o seguinte discurso (mais ou menos):

Eu sou policial. Você sabia que eu posso te prender?! Você é louco?! Eu poderia ter morrido. Vou te dar voz de prisão se não olhar para mim.

Nesse momento eu já tinha me virado, sem dizer nada, afinal… O que eu diria, não é mesmo?

Talvez um “me desculpe”, mas não sei se conseguiria ou se seria ouvido. Ao mesmo tempo, não esbravejar, em uma mente sensata, nessas situações, é o suficiente para passar a mensagem de “me desculpe, atravessei no lugar errado”.

No entanto, o rapaz não se deu por satisfeito e continuou:

Só podia ser viado uma desgraça dessa. Se eu tivesse com uma arma aqui atirava na cabeça dos três, (sons difíceis de ouvir ou meu cérebro bloqueou).

Me lavei, me limpei, segui para uma UPA e quando estava bem minha pressão bateu 17.9.

Um recorde.

O que existe na cabeça de uma pessoa para falar isso?

Já transitei por várias conversas comigo mesmo e em todas eu me pego nervoso com as conclusões: se de fato ele fosse policial, ele acha seguro sair falando isso por aí? É essa a conduta ensinada na corporação? Qual o treinamento humano dado a esses profissionais? Ele realmente culpou a minha burrice de atravessar no lugar errado à minha sexualidade? Ele mataria a gente por ter atropelado alguém e nem sequer ter sofrido nada além do susto?Enfim… O que acontece com as pessoas quando elas levam susto? Porque a reação é de culpar o outro imediatamente e a todo custo? Qual o motivo para não ter empatia depois de passado os riscos?

Enfim… Muitos questionamentos, nenhuma conclusão, mas não tinha pretensão alguma disso enquanto ainda tinha como foco parar de sentir dor no pé.

Hoje eu queria tentar entender ele. Me colocar no lugar de uma pessoa que estava de moto e acabou acertando um jovem de cabelo queimado que atravessou no local errado por alguma insanidade.

A única ideia foi: será que a reação dele diga mais a respeito sobre não saber reagir a um susto? E será que o discurso dele não foi agravado pela expectativa de briga frustrada?

Não quero justificar nenhuma das besteiras ditas.

Mas, no momento, até como superação do trauma, é o que eu consigo levantar como possibilidade para me sentir mais seguro e menos assustado.

Ando bem cansado de sonhar dois dias seguidos com cenas diversas de impacto que meu cérebro, cansado de reviver a que eu vivi, resolveu recriar.

De qualquer forma cada um seguiu o seu caminho, no meu caso mancando.

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