Tudo Errado | Cap 16: Atyrau, Cazaquistão

Acordamos no dia seguinte e ninguém parecia ter pressa de levantar acampamento. Partimos quase onze da manhã rumo a Atyrau. Nosso grande comboio saiu pelas toscas estradas cazaques e logo de cara: polícia, documentos, futebol, Ronaldinho, Neymar, esperar, esperar, seguir.

As estradas ruins e um comboio grande faziam com que tivéssemos que parar a todo tempo porque sempre havia um carro com problemas. Com o passar do tempo parávamos porque todos os carros tinham problemas. Depois de um tempo, você começa a conviver com os contratempos do carro sem ligar muito. A direção puxa para esquerda, metade da lataria arrasta no chão, o vidro traseiro some…

Nesse ritmo sincopado, finalmente, chegamos a Atyrau, uma cidade moderna e próspera no meio da imensidão desértica cazaque. Na entrada da cidade, quatro hotéis grandiosos, bancos luxuosos e um ou outro palácio com arquitetura parecida ao Kremlin russo. Aos poucos íamos entendendo que o Cazaquistão era um país que estava em plena expansão econômica promovida pelo dinheiro do petróleo e gás que aumenta a cada ano no país.

Fomos parar em um shopping center, uma situação bem curiosa. Tínhamos acabado de acampar no meio do deserto e agora estávamos no templo do consumo, como em qualquer grande cidade do mundo. Fomos direto ao supermercado comprar mantimentos. Seguiríamos para Aral, a uns quatrocentos quilômetros dali, rumo ao norte do país, quase na fronteira da Rússia. A questão é que, em estradas cazaques, quatrocentos quilômetros podiam levar dias. Enchemos o carro com cervejas em garrafas de big coke, as batatas Crack e um monte de macarrão instantâneo. Dali fomos atrás de um lugar para reparar os carros, precisávamos consertar um dos nossos pneus.

Achamos uma placa que parecia ser uma oficina. O carro de Bristol tomou a dianteira, pois eles tinham um inconveniente a mais: o cano que controla o câmbio debaixo do carro havia entortado. Mas havia apenas um funcionário na oficina e nós éramos oito carros. Ficaríamos o dia inteiro ali se fôssemos esperar o pobre homem consertar tudo.

Separamos as equipes e partimos em busca de outros mecânicos. Logo encontramos uma borracharia que ficava dentro de uma casa. O homem, que não parecia estar de muito bom humor, logo sacou o que precisávamos. Arrancou nosso pneu furado do teto do carro e foi consertar sem dar nem uma palavra. Simplesmente pegou a roda, virou as costas e entrou na casa. Em vinte minutos, o sujeito voltou com o pneu consertado, um celular na mão e a mesma cara de mal-humorado. Ele nos entregou o telefone. Do outro lado, uma voz de mulher disse em inglês ruim: 20 dólares, 20 dólares. O mal-humorado era bem esperto. Entregamos o dinheiro e saímos para encontrar o resto do comboio.

Partimos de Atyrau rumo ao norte, mas por volta das oito da noite tínhamos conseguido completar apenas uns 150 quilômetros naquelas estradas terríveis. Então, repetimos o procedimento do dia anterior. Saímos da estrada e, em quinze minutos, o acampamento estava armado. Sol vermelho se pondo, barracas montadas, churrasqueira de balde, a turma da latinha que faz fogo e o traficante dinossauro.

Tudo ia muito bem até que um carrinho Lada começou a se aproximar bem devagar. Ele encostou junto ao nosso acampamento e dele desceu um policial com um quepe imponente, daqueles arredondados com o topo achatado. Só que o Lada, definitivamente, não era um carro de polícia. Ele tinha os bancos forrados com pele de onça, penduricalhos no espelho retrovisor e adesivos engraçados do lado de fora. Para nós aquilo tinha um significado, o oficial não estava em horário de serviço e devia querer fazer uma grana extra. Ia dar merda. As mímicas começaram. No início, pensamos que o problema era que não poderíamos fazer churrasco porque o policial apontou para a churrasqueira-balde algumas vezes. Mas, depois de novas mímicas, ficou claro que ele queria que saíssemos dali. Ficamos fazendo o mesmo jogo de sempre, bancar o bobo até que ele se cansasse e nos deixasse ir, ou nesse caso, nos deixasse ficar. Depois de alguns minutos lidando com a autoridade chegaram outros dois carros com três homens em cada um. Agora sim ia dar merda. Eles estacionaram a uma certa distância, saíram dos carros, cumprimentaram o primeiro policial e ficaram lá, encarando a gente de longe. Parecia que não queriam se envolver, estavam ali só de olho.

A essa altura, estávamos debruçados sobre um mapa no capô do carro, tentando descobrir para onde poderíamos ir. Nossa conclusão era que aqueles eram prováveis capangas de algum dono daquelas terras e não estavam atrás de suvenires, mas de tirar os vagabundos invasores de terra.

Ruppert, o economista “chinês”, se revelou um ótimo mímico. Ele era tão preciso nos gestos e sintetizava tudo de maneira tão simples que muitas vezes eu temia que o policial pensasse que ele estava curtindo com a cara dele. De qualquer maneira, os movimentos eram bastante eficientes e ele virou o “mímico oficial” do comboio.

O panorama era tenso, não tínhamos para onde ir, a cidade mais próxima ficava a 150 quilômetros, começava a escurecer, não sabíamos o que aqueles capangas queriam com a gente — se iriam nos executar sumariamente ou apenas roubar nossos carros e pertences. Eu ficava lembrando do que o Seid tinha dito para gente, que o Cazaquistão era um lugar perigoso, de pessoas perigosas. Eu estava tenso demais para pensar em alguma coisa quando o Tuma teve uma grande ideia.

– Seid, vamos ligar para o Seid e ele pode traduzir para a gente.

Eu tinha o telefone dele e tínhamos comparado chips do Cazaquistão na Rússia para nos comunicarmos com os ingleses. Ligamos para ele. Charlie, o inglês que logo ia servir o exército, discou e passou o telefone para o policial. Eles passaram um bom tempo falando. Eu olhava para os capangas e media o poder deles com o nosso. Estávamos em número maior, mas eu não sabia o tipo de arma que eles teriam no carro. O policial seguia conversando com Seid. Em geral, policiais cazaques adoram ficar no telefone quando estão dando uma dura em alguém. Ele ia falando com o Seid e se distanciando da gente. Devia estar a uns vinte metros do grupo quando baixou o telefone e veio em nossa direção, se aproximou de Charlie e entregou o telefone. Dessa vez foi Charlie quem ficou horas no telefone ouvindo o Seid.

Finalmente Charlie desligou o telefone e veio nos contar as notícias. No final das contas, o policial estava tentando nos proteger. Disse ao Seid que ali era muito perigoso para a gente acampar e, por isso, teríamos que ir para uma cidade a 150 quilômetros dali, pelo menos umas quatro horas de viagem. Ok, o policial poderia estar preocupado com a gente, mas e aqueles capangas? O que eles estavam fazendo ali? Não tínhamos muita opção. Levantamos acampamento e pé na tábua.

Durante toda a viagem aprendíamos sobre confiar e desconfiar das pessoas, mas no Cazaquistão isso aflorava com muita força. A gente tinha desconfiado do Seid no dia anterior, e ele acabava de salvar nossa pele. Deveríamos agora confiar no policial e fazer o que ele estava mandando? Podíamos seguir o sujeito de uma corporação ultra corrupta que tinha tentando nos extorquir inúmeras vezes? Ele estaria nos enviando para uma emboscada? O que os capangas estavam fazendo ali? Paranoico? Não sei, mas dessa vez não havia qualquer alternativa. Estava escuro quando pegamos uma estrada difícil e perigosa em busca de uma cidade chamada Shaiev, a duas horas dali. Eu estava morrendo de medo.

Depois de quase meia hora, cruzamos com outro carro de polícia parado na direção oposta a nossa. Nosso carro era o último do comboio e, pelo retrovisor, apesar da pouca luz, eu consegui ver o policial que estava fora do carro entrar na viatura assim que passamos. Alguns quilômetros mais tarde, vi pelo espelho uma sirene bem distante, mas que parecia seguir em nossa direção. Já eram por volta das onze da noite e estar em uma estrada vazia, no meio do Cazaquistão, não parecia ser o lugar mais seguro para um bando de gringos malucos. Dessa vez não ia ter carro de polícia que me fizesse parar. Sem falar nada com os outros membros do time, que estavam dormindo ou quase, comecei a acelerar e piscar o farol alto fazendo com que todo o comboio acelerasse junto comigo naquela estrada tosca.

Meus pés suavam, meu estômago começava a doer. Aos poucos, o pessoal no carro foi acordando e eu expliquei que uma sirene nos seguia de longe e eu estava tentando fazer o comboio acelerar. Quando viram a luz piscando, o clima de pânico se instalou. A Ceci começou a gritar para que eu corresse mais. Ultrapassei o penúltimo carro do comboio para tentar fazer os outros fossem ainda mais depressa. A sirene não se aproximava, mas também não desistia, como se estivesse nos monitorando. Em algum momento outros dois faróis se juntaram à sirene formando um comboio como o nosso — o medo virou terror. Ficava imaginando que fossem os dois carros dos capangas. Já não eram apenas os meus pés que suavam, meu corpo inteiro estava derretendo. Aquela situação durou pouco mais de meia hora — mas pareceram longas horas. O comboio da sirene não chegava mais perto e nem nos largava. Todos ficaram mudos. Nossa ideia era parar em qualquer lugar que houvesse gente porque seria melhor ser abordado pela polícia na presença de outras pessoas do que no meio do deserto.

Logo apareceu uma placa grande indicando alguma coisa que não sabíamos o que era. Uzbeksa. Pelo tamanho da placa, parecia que uma cidade minimamente habitada estava por vir. Ao primeiro sinal de civilização pararíamos, mas foi só cruzar com a tal placa que o comboio da sirene começou a sumir no retrovisor. Acho que ultrapassamos a jurisdição deles. Assim que paramos de ver a sirene comemoramos como gol da seleção em final das eliminatórias da Copa. Não tínhamos mais as companhias indesejáveis. Depois pensei que eles poderiam estar apenas nos acompanhando, como batedores, até os limites da cidade. Em vez de ameaça, poderiam ser uma proteção. O dilema da confiança/ desconfiança era mesmo terrível ali. Por via das dúvidas, preferia não acreditar em ninguém naqueles confins do globo.

Chegamos em Shaiev à uma da manhã. A entrada da cidade estava bem movimentada para uma terça-feira. As cidades de beira de estrada do Cazaquistão são parecidas. Primeiro vemos um posto de gasolina caindo aos pedaços com aparência de abandonado. Ao lado, há uma via de entrada lateral mal asfaltada com uma série de casinhas de madeira. São pequenos comércios, vendas, como quiosques. Notamos no país uma forte cultura de prostituição e, naquele momento, parecíamos estar no meio do baixo Augusta paulistano da década de 1950. Homens atrás de putas, putas atrás de homens, alguns travestis (pelo menos aparentemente), muitas garrafas de álcool jogadas pela rua. O diabo dava as boas-vindas: era lá que teríamos que passar a noite.

Fomos pedir informações aos locais, que não entenderam nada daquela carreata de veículos engraçados, cheios de adesivos e coisas penduradas no teto, com um monte de gringos dentro. Ruppert, o homem-mímica, entrou em uma das pequenas vendas e voltou com a informação de que não adiantava tentar entrar na cidade porque não íamos encontrar hotéis nem nada parecido. Voltamos então para a entrada da cidade onde havia dois postos de gasolina mequetrefes e uma espécie de restaurante com uma placa de 24h — muito promissor. Ao lado, uma casa com um pequeno movimento na porta parecia ser um hotel. Paramos os carros no posto fechado. Quase não havia luz. Na beira da estrada, uns caras andavam em círculos. Alguns caminhões estacionados, umas motos davam voltas por ali, e putas, muitas putas iam e vinham pela beira da estrada. Nem chegavam perto da gente — acho que não enxergaram potencial naquele bando de gringos com cara de idiota.

Pouco tempo depois nosso mímico voltou dizendo que sim, aquilo era um hotel, e que os três últimos quartos estavam livres. Era ali que as prostitutas faziam seus negócios e a noite estava quente, tínhamos que nos apressar. Os quartos acomodariam nove pessoas, mas éramos doze e começou uma assembleia para decidir se ficaríamos ou tentaríamos outro lugar — que, no caso, não existia. O clima era muito tenso, volta e meia ouvíamos garrafas quebrando, gente gritando, e eu não estava a fim de ficar ali esperando aquele bando de ingleses decidir o que fazer da vida. O som dos motores das motos era o que deixava a situação mais estranha. Parecia que aquele barulho era para a gente, para nos avisar de algo. As pessoas nos olhavam com cara de desconfiança e com toda razão: éramos aliens ali.

Colamos no Ruppert e dissemos para ele para fechar o negócio, afinal, nosso time era o único que tinha uma menina e precisávamos daqueles quartos de qualquer forma. Ruppert foi e logo voltou com uma cara desanimadora — já não havia mais quartos, ou o hotel não estava querendo alugar os cubículos para os estrangeiros que iriam acabar com a rotatividade do lugar. Nos fodemos.

Decidimos negociar com um cara que dizia cuidar do estacionamento em frente ao restaurante 24 horas, que naquele momento estava fechando. A ideia era passar a noite nos carros mesmo, parados ali. Alguns tenges o tornaram bem simpático e fizemos o trato. Doze pessoas espremidas em quatro carros num estacionamento no baixo meretrício em uma cidade-bordel no interior do Cazaquistão. Agora sim tínhamos uma aventura.

Minha maior preocupação era com os equipamentos no carro e com o material que tínhamos filmado até ali. Eu ficava com todos os cartões gravados em uma bolsinha dentro da cueca, mas, se alguma coisa acontecesse com nosso equipamento, teríamos que voltar para casa. Bom, do jeito que as coisas iam, se continuássemos vivos já seria lucro. Eu tinha um misto de medo aterrador, abafado por aquela pontinha de coragem que me dizia que eu estava no meio de uma grande aventura — ou era mesmo falta de opção.

Resolvemos dormir em turnos. Abrimos umas garrafas de vinho e ficamos ali curtindo a vida louca da estrada. Víamos as putas e os caminhoneiros discutindo, depois se acariciando. Uns fechando encontros, outros com jeito de que já se conheciam há muito tempo — no final das contas, havia um ar romântico naquelas cenas. Os primeiros goles me deixaram mais relaxado e tudo começou a parecer mais interessante e menos amedrontador. A noite de pânico terminou com todos bêbados, o traficante mais uma vez vestido de dinossauro contando suas histórias lisérgicas. Daniel falava suas besteiras de sempre e, em algum momento, desistimos dos turnos. Fomos para os carros e, depois de tudo que tínhamos passado, dormir sentado num banco de trás do Ford Mondeo foi um luxo.

Quando acordei, o pessoal estava animado de novo, jogando bola, fazendo comida, tomando uns banhos improvisados e lavando roupa. O estacionamento sinistro e mal iluminado da noite anterior tinha virado a nossa casa. Deixamos nosso parque de diversões e saímos em direção ao norte para uma cidade quase na fronteira com a Rússia chamada Aktobe. Mais uma vez fomos parados pela polícia, em um posto no meio da estrada. Estávamos escolados com a polícia do Cazaquistão, mas no posto o procedimento foi diferente. Os motoristas deveriam ir para dentro do escritório levando os documentos dos outros membros dos times. Aquilo ali parecia que ia demorar.

Apesar da formalidade, quando entrei no posto o clima era tranquilo. Bem-humorados, os policiais faziam piadas por estarmos cruzando o mundo rumo à Mongólia. Pelo menos era isso que entendíamos com eles rindo da nossa cara. O curioso é que os policiais sempre tinham um motivo diferente para nos parar. Da última vez, o oficial alegou que os carros estavam muito próximos um do outro. Agora, a autoridade nos acusou de estarmos com os faróis apagados, mesmo sendo meio-dia. Em Roma, faça como os romanos. Dali em diante os faróis ficariam acesos o tempo todo. Fomos liberados.

Saí do posto policial e o clima era de festa. Alguns ralliers jogavam bola. Uns jogavam futebol, de um jeito engraçado que os europeus têm de jogar altinha; outros, futebol americano. O clima era tão sossegado que dois policiais estavam na brincadeira e o Charlie vestia um daqueles quepes imponentes dos oficiais cazaques. Entrei na dança e comecei a filmar e fotografar a diversão. Ali todos falavam a mesma língua. Minha opinião sobre o Cazaquistão estava começando a mudar.

Depois desse novo encontro com a polícia, seguimos para Aktobe. Grande parte da estrada estava interditada por obras, então tivemos que passar para uma estrada secundária, de areia, totalmente off-road. Pouco a pouco, as equipes começaram a colocar os corpos para fora dos carros. O sol estava a pino e ninguém parecia se importar com quantas vezes tínhamos sido parados pela polícia. Naquela estrada paralela não importava a lei nem o bom senso. Começou ali nosso novo esporte favorito, o “surf de carro”: segurando nos bagageiros que todos os carros tinham no teto apoiávamos os pés nas janelas abertas e ficávamos com o corpo todo para fora. Inconsequente? Muito. Divertido? Mais ainda. Parecíamos crianças com brinquedos novos. Toneladas de poeira na cara e sorrisos nos rostos. Aquele off-road foi o melhor presente que as péssimas estradas cobertas de barbatanas poderiam nos dar.

Chegamos a Aktobe às onze da noite, depois de treze horas dirigindo sem parar. Era a maior cidade que tínhamos encontrado até então e não sabíamos para onde ir. Nossa equipe liderava o comboio e foi a minha vez de ser o mímico. Os primeiros seres humanos que avistei foram dois casais saindo de um restaurante. Eles deviam estar na faixa dos quarenta anos e ficaram muito animados com aquele bando de gente estranha, em carros esquisitos, e eu ali na frente fazendo malabarismos para me comunicar. Depois de uns três minutos de mímica veio o “gesto estilo Turquia”: um dos sujeitos sinalizou que seguíssemos o carro dele. Dessa vez, tomei cuidado para não seguir o carro errado, o que foi fácil, pois não havia qualquer outro na rua. Os sete carros ridículos — em algum momento um carro novo se juntou ao nosso comboio e eu nem percebi — circulavam pelo centro de Aktobe torcendo para que aquele casal nos levasse a algum lugar.

A cidade era diferente de tudo que tínhamos visto no país até aquele ponto. A paisagem era mais asiática, com muito neon, avenidas largas, outdoors, uma pequeníssima Tóquio no meio do Cazaquistão. O carro que seguia pelas ruas iluminadas nos levou a um hotel enorme, com vagas de sobra para todos, barato e bem central. Mesmo depois de dirigir o dia inteiro, chegamos pilhados para explorar aquele lugar engraçado.

O hotel ficava atrás de uma grande praça que devia ser a principal da cidade. Ao lado, uma construção que lembrava uma mesquita, mas estava coberta de neons coloridos, era o supermercado local. Havia também um tipo de biergarten com mesas compridas, bancos longos e enormes jarras de cerveja. Diferente da noite anterior em que todos nos olhavam com desconfiança, ali aconteceu o inverso. Os locais nos recepcionaram com shots de vodka e, em questão de segundos, o Tumati ficou íntimo daquele bando de gente que parecia ter sido encomendado para nos dar as boas-vindas. Da rua, ouvíamos cantadas de pneus, buzinaços, gritos desesperados — a cidade parecia superanimada para uma noite de quarta-feira.

Sem nos darmos conta, o bar foi esvaziando e logo ficamos apenas nós. Mas éramos muitos e estávamos animados demais para voltar para o hotel. Saímos pelas ruas de Aktobe em busca de mais aventuras. Reparamos que os carros passavam pela praça em alta velocidade e, eventualmente, gritavam alguma coisa ou arremessavam garrafas. Os bares por ali estavam fechados e não havia ninguém à pé pelas ruas. Foi aí que avistamos uns cinco caras engravatados vagando pela rua e fomos falar com eles. Alguns deles entendiam bem inglês e, adicionando um pouco de mímica, conseguimos nos comunicar:

– Ei, olá. Como vocês estão?

– O quê?

– Oi, nós estamos meio perdidos por aqui, procurando um lugar para beber e continuar a noite. Vocês sabem para onde podemos ir?

– Onde vocês podem ir? Não sabemos.

– Não, não onde nós podemos ir, queremos que vocês levem a gente para beber. Vocês não querem sair com a gente?

Os caras não entendiam direito o que a gente queria. Queríamos convencer aquele grupo de cazaques a seguir conosco.

– Quem são vocês, o que vocês estão fazendo aqui? — perguntou um deles.

Explicamos o de sempre: rali, Londres, Mongólia…. Aquilo sempre impressionava. Eles falavam entre si e riam como quem não acreditava. Achando graça e, obviamente, pensando que estávamos brincando com eles, os caras se animaram e se juntaram a nós. Com a companhia deles, nosso grupo tinha quase vinte pessoas dispostas a desbravar a noite de Aktobe. Chegamos a um bar fechado e nossos novos amigos disseram que iam lá dar um jeito. Ficaram na porta conversando com uns garçons que estavam prontos para ir para casa, rindo e batendo papo. Foi aí que um dos engravatados, um cara baixinho e gordinho com uma cara engraçada, nos puxou de canto e disse que os caras iriam reabrir o bar só para atender a gente. Genial!

Fomos escoltados direto para o segundo andar, uma grande sala com uma única mesa de madeira e muitas cadeiras. Ao fundo, estavam umas três garçonetes com uniforme verde. Do lado oposto, uma TV de plasma de umas cinquenta polegadas transmitia os jogos da Olimpíada de Londres. Enormes jarras de cerveja aterrissaram na mesa, seguidas de pequenos copos de shots e uma garrafa de vodka. A trilha sonora alternava música típica com pop do tipo Michel Teló. Um dos nossos novos amigos era um lutador de MMA louco pelo Brasil. Alto, magro e superforte com uma camiseta colada no corpo. De repente ele levantou e começou a cantar delícia, delícia, assim você me mata!, rebolando e fazendo uma coreografia melhor do que qualquer brasileiro. Dali passamos direto para as quedas de braço. Ao que parecia, eles eram aficionados pelo esporte e nós éramos os patos perfeitos. Fizemos uma fila na frente do gordinho e fomos perdendo um de cada vez. Primeiro Daniel, o fanfarrão; depois Pedro, o mal-humorado; eu, que perdi em menos de dois segundos, seguido por todos do comboio. Aquela grande sala revestida de madeira, iluminada por lâmpadas dicroicas, fazia tudo ficar ainda mais divertido. Torcíamos naquela competição súbita de queda de braço, como se estivéssemos no subúrbio da Filadélfia incentivando o Rocky Balboa em sua luta final.

Lá pelas tantas, nosso companheiro dinossauro traficante retornou do lado de fora do bar com cara de pânico. Uma das meninas vestidas de verde desligou a televisão, pediu silêncio e insistiu para que nenhum de nós saísse dali. Olhamos por uma pequena janela para a rua e a cena era de uma pequena guerra civil. Pessoas sangrando, garotas chorando, gente correndo e gritando de um lado para o outro.

Depois do primeiro susto, nossos amigos nos explicaram que aquilo era uma cena cotidiana da noite cazaque. Assim como na Rússia, parece que naquela parte do planeta as brigas de galera e espancamento acompanham a bebedeira — e eles levam isso a sério. O rei da queda de braço tinha descido para a rua e destruiu uns três adolescentes ao mesmo tempo, no estilo Stallone Cobra. A confusão do lado de fora diminuiu e voltamos a nos concentrar na cerveja, na vodka e em saber mais sobre os costumes malucos das nossas novas amizades. Quando a poeira baixou, os engravatados pagaram toda a conta e nos levaram até a porta do hotel. Naquele ambiente noturno de pancadaria não era nada mau ser escoltado por um grupo de locais, com um lutador de MMA e um campeão de queda de braço. Ao nos despedirmos, parecia que estávamos deixando velhos amigos. O abraço do campeão de MMA foi tão caloroso que quase quebrou metade das minhas costelas. Depois daquela noite, minha impressão do Cazaquistão mudou completamente. O país da corrupção, com policiais e capangas sacanas mal-encarados tinha dado lugar a um lugar de pessoas amigáveis, confiáveis e divertidas. E o melhor: eles ainda ofereciam grandes hotéis com camas confortáveis para passarmos a noite depois de treze horas de estrada.

Continua…

Este texto faz parte do livro “Tudo Errado”. A cada semana um capítulo será publicado. Será uma viagem em 25 publicações que você pode acompanhar por aqui ou adquirir no formato físico ou digital (kindle) em www.raphaerichsen.com.br.

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