Tudo Errado | Cap. 6: Klenova, República Checa

Acordamos com a missão de dirigir trezentos quilômetros para chegar a Klenova, um castelo medieval perto de Klatovy, uma cidadezinha histórica que não chega a ter vinte mil habitantes, na República Tcheca. Lá seria dada a segunda largada. A primeira largada, em Goodwood, era destinada aos times que saíam da Inglaterra. Na República Tcheca é feita uma segunda, onde se reúnem todos os times vindos dos outros pontos da Europa. Mais importante que isso, é lá que acontece a grande festa do Rali, a Czechout Party. Uma festa à fantasia num castelo medieval com bandas, DJs, performances e muito álcool.

Mas trezentos quilômetros numa Autobahn são praticamente nada e antes do meio-dia já estávamos nos aproximando do lugar. O clima de estrada grande com grandes postos de conveniência já tinha sido substituído por uma paisagem totalmente rural. Klatovy é como um túnel do tempo. Fundada no século XI, a cidade é repleta de pequenos castelos e ruas estreitas. Tudo leva a crer que eles respeitam muito a Idade Média. As construções, mesmo as mais simples, devem estar ali do mesmo jeito há mil anos.

De acordo com o GPS, o castelo ficava a uns vinte quilômetros de Klatovy. O problema é que a estrada que o GPS nos mandava seguir estava interditada. Tentamos dar uma volta para o aparelho recalcular a rota, mas ele acabou nos levando para o mesmo ponto de novo. Fizemos isso umas três vezes até que não teve jeito, tivemos de perguntar. E aí veio a grande questão que ainda não tínhamos enfrentado: a barreira linguística. Ninguém daquele país tinha a menor noção de inglês. Nós também não tínhamos um mapa local, o que não ajudava, pois não podíamos nem apontar para onde estávamos querendo ir. Foram umas quatro tentativas gesticulando, escrevendo, parecia que ninguém nunca tinha ouvido falar de Klenova, até que um motorista de caminhão com pinta de esperto e uns vinte e poucos anos nos apontou a direção. Ele fez uns gestos do tipo meio para direita, meio para esquerda rumo ao sudoeste. Era toda a informação que tínhamos para chegar à festa. Quando vimos, estávamos mais uma vez perdidos, em uma trilha no meio de umas plantações de algodão. O caminho era incrível e parecia que podia nos levar ao paraíso, guiados por nuvens branquinhas, mas a estrada não nos importava. Queríamos chegar logo, pegar a festa no início e, para isso, precisávamos acertar o trajeto.

O tempo ia passando e estávamos ficando sem gasolina depois de rodar por quase uma hora e meia. Desanimados, vimos ao longe dois carros com umas tralhas no teto — poderiam ser carros do Rali. Aceleramos em direção a eles. Estavam parados e eram exatamente iguais. Carros gêmeos, com os mesmos adesivos de um monte de patrocínios. A gente nem sabia que isso era permitido. Diferente dos carros do Rali, eles eram superpreparados — carros esportivos, com o cano de descarga ampliado que ia até o teto para a travessia de rios. Parecia que eles estavam na competição errada, mas, para a gente, foi ótimo. Eles eram um time da República Tcheca, ou seja, estavam em casa e falavam entre si por rádio — o que no meio daquela paisagem rural me parecia muita modernidade. De longe deviam ser os mais preparados do Rali.

Eles não se entusiasmaram muito com a nossa chegada e, além do mais, ninguém falava inglês. A gente despejava sorrisos e apontava para o convite da festa. Perguntávamos se eles estavam indo para o castelo. Eles continuavam falando pelos rádios, não sei o que e não sei com quem. Eram todos meio feios e deviam ter em média uns cinquenta anos. Um dos integrantes tinha metade do rosto torto como de quem teve um derrame, uma espécie de versão tcheca do Slot, do Goonies. Eles seguiram falando em tcheco e ignorando a nossa presença até que, do nada, sinalizaram para gente que, ok, estavam prontos e deveríamos segui-los. Nossa limusine passou a ser escoltada por carros idênticos. Depois de alguns quilômetros, pensei que aquilo talvez fosse uma cilada: eles podiam estar levando a gente para alguma roubada. Eu já me imaginava num cemitério tcheco, com velas e música gótica, quanto eles faziam algum ritual macabro para tirar nossos ossos do corpo. Mas não havia nada que eu pudesse fazer a não ser seguir os caras. Era uma coisa que eu ia ter que aprender nessa viagem: dali em diante teria que confiar em estranhos.

Andamos uns quinze minutos por uma trilha asfaltada até que, em certo momento, começamos a subir uma serra com estrada de terra. Parecia estranho, mas, se os caras estavam em casa, Slot e sua turma deviam saber o que estavam fazendo. Eu não estava dirigindo e ficava de olho em tudo, num misto de apreensão e euforia porque parecia que podíamos chegar a algum lugar. Pouco a pouco, comecei a ver outros carros do Rali surgindo atrás da gente. Primeiro um, depois outro e, a cada curva, o número de carros aumentava. Botei todo o meu corpo para fora do carro e vi o que deviam ser uns vinte automóveis nos seguindo. Épico! Todos com os corpos para fora da janela, buzinando, berrando. Nós comemorávamos como se tivéssemos ganhado a Copa do Mundo. Ao longe enxergamos o acampamento. Estávamos chegando!

No topo da montanha, um grande letreiro sobre um portal dizia: “Bem-vindo ao festival da lentidão!” A gente tinha finalmente chegado à Czechout Party, mas, para mim, era o Jardim do Éden. Até que não éramos tão mau ralliers assim. Tive uma sensação de conquista, de missão cumprida. E parecia que eu estava feliz, uma emoção que não sentia há tempos.

O comboio se desfez naturalmente. Cada carro foi atrás de um lugar para estacionar e montar suas barracas. Diferente do acampamento de Goodwood, não estava chovendo, ainda era bem cedo e poderíamos fazer as coisas com calma. A paisagem era cinematográfica. Uma planície no meio de um enorme vale cercado de montanhas. Deviam ter algumas centenas de barracas, muitas bandeiras, carros de bombeiros, ambulâncias, carros ultradecorados, carros com brinquedos no teto, com cabeças de cavalo, automóveis de pelúcia. No alto da montanha mais próxima dava para ver a muralha e as pontas de um castelo medieval. Sinceramente, não dava para ser mais perfeito.

Deixei meu time com a função de montar a barraca. Depois da experiência em Goodwood, decidi que dormiria no carro. Não estava preparado para dividir uma barraca com mais três pessoas em meio a uma sinfonia de roncos, incluindo os meus. Além disso eu estava muito ansioso para esperar para montar uma barraca antes de sair para filmar. Eu tentava repetir meu mantra, que tinha que aprender a respeitar o tempo das pessoas, mas estava difícil. Sempre fui muito acelerado e não tenho a menor paciência para esperar as coisas ficarem prontas. O Tumati e o Pezinho faziam tudo com calma e muitas vezes aquilo me deixava tremendamente angustiado. Então peguei a câmera e o tripé e fui filmar o que estava acontecendo por ali.

De um alto-falante vinha uma voz engraçada, fui ver o que era e cheguei a um palco improvisado com o Buddy, host do Rali, vestido com seu terno branco e falando para umas duzentas pessoas sobre os insights que nos aguardavam nessa jornada. O Buddy é um personagem carismático, sempre de branco, com óculos fundo de garrafa à Buddy Holly, cabelo desgrenhado e uns dentes típicos ingleses — tortos e esquisitos. Ele usa a estranheza para falar apaixonadamente sobre essa aventura.

Depois que ele apresentou a performance de um grupo de música folclórica mongol, pedi gentilmente que ele falasse com a nossa equipe. O Buddy já tinha feito uma série de TV sobre o Rali Mongol, mas em vez de ir de carro, foi pedindo carona — o que é muito pior. Ele falou sobre como era acordar sempre sem saber como o dia ia acabar, contou sobre não ter o controle sobre a vida, não ter rotina. Insistiu que essa era uma das grandes coisas do Rali. Eu estava passando por isso há alguns dias e, realmente, essa situação, que no princípio causa um desconforto e até irritação, começa a parecer divertida e surpreendente depois de um tempo.

O Buddy é uma fábrica de epifanias e sempre me deixa boquiaberto. Contei que estávamos fazendo uma série sobre o Rali para o Brasil e que, no país, ninguém tinha ouvido falar do evento, éramos a primeira equipe brasileira. Ele me olhou como se quisesse adotar a nossa equipe — pelo menos foi a minha impressão. Então começou a falar sobre a experiência com outros povos e como ele sempre foi tão bem recebido, seja na Rússia, no Turcomenistão, na Turquia, no Irã. Ouvir isso foi um alívio. Eu não tinha nenhuma ou quase nenhuma informação sobre esses países e, no fundo, ainda achava que voltar da Turquia era um bom negócio. O Buddy poderia falar por horas e eu poderia ficar ali escutando todas as suas histórias, mas era hora de entrevistar os outros competidores e entender o que eles estavam fazendo ali.

Minha pergunta inicial era sempre a mesma: por que o Rali Mongol? E não era apenas uma obrigação profissional, eu realmente queria saber o que havia motivado aquelas pessoas. Achava que ouviria uma resposta parecida da maioria dos participantes — do tipo, para deixar a vida menos chata, como promove a organização. Mas uma boa parte disse que era pela caridade, o que me surpreendeu. Alguns grupos conseguem arrecadar quantias inacreditáveis, não apenas para o carro, mas também para doação direta para a Lotus Charity — a organização encoraja os participantes a usarem a visibilidade do evento para arrecadar fundos. Nós fizemos camisas da nossa equipe para vender — apesar de a camiseta ter sido um sucesso, conseguimos arrecadar menos de 1.000 libras para a doação. Só um grupo de Taiwan conseguiu mais de 20 mil libras! Foi incrível perceber como isso era importante de fato e não só retórica para fazer o Rali Mongol parecer cool.

No meio do acampamento conhecemos um americano chamado Carlos que viajava sozinho em um Smart, aquele carro em que só cabem duas pessoas. Ele usava uma roupa de aviador antigo e fumava um charuto enquanto ouvia Frank Sinatra sentado em uma poltrona. O cara não só tinha vindo de Nova Iorque de barco com seu carro, como pretendia dar a volta ao mundo e voltar a Nova Iorque — sozinho, num Smart! Em pouco tempo de conversa ele resumiu bem a ideia do Rali: “Eu gosto de fazer coisas estúpidas e gosto de fazer coisas do bem, então quando é possível fazer os dois ao mesmo tempo estou dentro”. Como gostava de viajar, Carlos nos deu alguns conselhos e um deles foi fundamental na parte russa da viagem: se você der dinheiro para um oficial em uma fronteira, terá que dar para todos os outros que vierem a seguir.

Encontramos grupos de meninas australianas sozinhas que queriam apenas dar uma voltinha e conhecer gente. Irmãos finlandeses que se encontraram depois de vinte anos e queriam se reaproximar. Um casal que queria uma lua de mel diferente. Tinha até um time formado por três cadeirantes que, com um carro adaptado, queriam fazer o que muitos achavam impossível. Tudo parecia muito encorajador e eu começava a tentar reorganizar minhas ideias. Se todos esses malucos estão nessa, talvez exista uma chance para a gente. Enfrentar desertos, montanhas e penhascos ainda me soava bem amedrontador, mas talvez, em boa companhia, ou com alguma companhia, isso fosse possível.

Uma coisa que perguntávamos a todos era sobre qual rota fariam e em quanto tempo pretendiam completar o Rali. Apesar de o Rali não ter uma rota específica, existem três linhas básicas: Norte, Central e Sul. A rota do Norte é a mais rápida, seguindo pela Ucrânia e cruzando quase toda a Rússia horizontalmente até chegar à Mongólia. Essa é com certeza a mais entediante também. Quem opta por ela pode completar o percurso em até dez dias, ou seja, aproveitando muito pouco a jornada. A rota Sul é a amedrontadora. Aquela que faz você franzir a testa para quem te diz que a escolheu. Ela consiste em seguir pela Turquia e de lá passar pelo Iraque, Irã, Turcomenistão, Tajiquistão e China até a Mongólia. Eu achava uma lenda, não acreditava de jeito nenhum que alguém encarasse essa. A rota Central, pela Turquia, Cazaquistão e outros “istãos” até a Rússia parecia a mais razoável, e era a que pretendíamos fazer. Em geral, as pessoas diziam que iriam por esse caminho — e mesmo com essa opção existem muitas variáveis.

O problema era quando perguntávamos quanto tempo levariam. Em geral a resposta era entre um e dois meses. Nós respondíamos que queríamos fazer tudo em três semanas. Estávamos apenas no terceiro dia depois da largada e a essa altura a Celina já estava neurótica. Preocupada com seu emprego e com a data de volta. O Pezinho também estava certo disso. Em três semanas, onde quer que estivéssemos, voltaríamos para casa. Eu não achava má ideia — por mim passaria as três semanas seguintes visitando a Turquia e voltaria para casa feliz da vida. As pessoas costumavam rir quando falávamos nosso plano e nos desejavam boa sorte. Aquilo não me dava uma boa impressão. A pressa poderia fazer com que o time todo dirigisse mais rápido e estaríamos certamente fadados a algum acidente grave. Talvez três semanas visitando a Turquia não fosse mesmo muito prudente. Melhor seria ficarmos esse tempo todo em Istambul, em algum albergue, a salvo de qualquer contratempo — estaríamos em território europeu e longe da desconhecida Eurásia.

Fomos perguntar para o segundo maior especialista no assunto. Tom Morgan é o sujeito que, junto com o Jools, tentou a façanha pela primeira vez saindo da República Tcheca rumo a Mongólia há dez anos.

– Três semanas para um time que nunca fez o Rali antes? Eu não apostaria nisso — disse Tom com um sorriso de canto de boca.

Celina olhava para ele perplexa vendo seus planos irem para a cucuia.

– Mas o Rali realmente não tem muito mistério, é uma coisa fácil. Estamos agora tentando construir um foguete. Nós já estudamos e sabemos que botar um foguete em órbita não é difícil. O principal é ter propulsores realmente fortes para podermos fazer com que o foguete nos obedeça depois de entrar na órbita lunar e assim consigamos chegar na Lua ou em Marte — concluiu Tom.

Celina suspirou como se a segunda informação de Tom desautorizasse a primeira sobre nosso tempo de viagem. Aquilo mostrava que era só um maluco falando e que não deveríamos levar a sério aquilo tudo.

Tom seguia tagarelando sobre como não deveria ser tão difícil criar um Rali até a Lua ou Marte, além de nos encorajar dizendo que a intenção do Rali é nos tirar da nossa zona de conforto. Não ter sucrilhos no prato. Não saber onde se vai dormir nessa noite, nem na próxima, e nem quem vai salvar a sua vida amanhã. Aquelas palavras faziam com que eu me sentisse um herói. Como a Ceci podia estar preocupada em voltar para o emprego em uma sala com ar condicionado quando tínhamos o mundo inteiro para desbravar? Não que eu tivesse coragem, mas que o mundo estava ali conspirando para isso, estava.

Deixamos o Tom divagando e saímos para fazer imagens de um imenso carro de bombeiros dos anos 1950. Havia um baita elefante vermelho que parecia pesar umas trinta toneladas e não tinha muita pinta de que chegaria até a Mongólia. Logo chegaram seus donos, um grupo de finlandeses bêbados que nos ofereceram cerveja e uma carona. Eles diziam que estavam tentando beber o máximo possível para competir com o seu veículo que bebia incríveis um litro a cada quatro quilômetros. Todos da equipe estavam vestidos a caráter, com botas e capacetes de bombeiros. Dentro de todo o aspecto filantrópico do Rali se criou a tradição de viajar com ambulâncias e caminhões de bombeiros, pois eles são de muita utilidade na Mongólia. Em nosso plano inicial, nós também queríamos comprar um veículo assim, mas desistimos quando descobrimos o quanto isso pode dificultar e limitar a viagem, já que com esses automóveis é preciso fazer percursos mais fáceis. Nossos amigos finlandeses teriam que pegar a rota Norte, indo pela Rússia a meio quilômetro por hora só para conseguir que o caminhão chegasse inteiro no destino. Isso sim me parecia boa vontade.

Topamos a carona, subimos no teto do caminhão e nos seguramos na escada Magirus. O finlandês soou um apito forte como um trem de carga, ligou a sirene e lá estávamos nós dando a volta por todo o acampamento em cima do caminhão. Dançamos agarrados à Magirus enquanto o caminhão desfilava lentamente entre centenas de carros loucos e barracas de camping com os maiores idiotas de todo canto do mundo, no melhor dos sentidos, celebrando a estupidez da forma mais genuína. Eu festeja o fato de não estar vivendo minha vida chata e normal com um bando de gente que também não estava acordando para um cotidiano regrado. Era um universo paralelo, o mais incerto, desafiador e maluco de todo o cosmo.

O passeio terminou e eu pensei: pronto, não dá para ser melhor que isso. Já tenho uma história para contar e é suficiente.

Finalmente chegamos a nossa barraca para vestir nossas armaduras. Na verdade, eram umas máscaras que, junto com nossos macacões, faziam com que nos sentíssemos super-heróis. Estávamos fechando a barraca quando um casal fantasiado de lagosta da cabeça aos pés veio falar com a gente. Eu não sei como eles conseguiam enxergar e respirar dentro daquela roupa de lycra vermelha. De fato, não enxergavam bem porque andavam cambaleando e se esbarrando com um boneco de um camarão inflável e uma bandeja de bolo de chocolate nas mãos. Fizemos as perguntas padrão — de onde eram, qual rota fariam etc. — e eles responderam, com um forte sotaque americano, que não sabiam muito bem para onde estavam indo, que uma vez indo na direção leste, em algum momento teriam que chegar. Insistiam, enrolando a língua, que seu amigo camarão inflável iria guiá-los e que não tinham com o que se preocupar. E nos ofereceram um pouco de bolo. Estávamos sem comer há horas e avançamos na bandeja. Cada um de nós abocanhou dois pedaços. Agradecemos e viramos as costas para fechar a barraca e seguir para a festa. Depois de caminhar uns metros, o Pezinho perguntou:

– Será que era space cake?

Space cake? — retruquei.

– É, bolo de maconha, sabe?

– Claro que sei, mas acho que eles teriam nos avisado se fosse.

Não?

Pezinho deu meia-volta e foi atrás do casal de lagostas americanas. Correu uns cinquenta metros e voltou bufando.

– Eles disseram que vamos perceber logo se for space cake.

Eu acho que já tínhamos percebido. Aceitar bolo de um casal chapado daquele jeito… Agora era só esperar e torcer para que o bolo não nos mandasse realmente para o espaço e perdêssemos a festa do castelo.

A festa seria no alto da colina no tal castelo medieval de Klenova. Entardecia e o acampamento já estava vazio. Todos peregrinaram ladeira acima para o que prometia ser “a festa à fantasia mais incrível de todos os tempos”, como avisava o panfleto.

Seguimos eu, fantasiado de raposa; Tumati, de macaco; Pezinho, vestido de porco e a Celina, com roupa de fuinha. Vinte minutos depois estávamos diante da porta de um enorme castelo com dois seguranças usando armaduras de metal e empunhando bandeiras. Ao nosso redor havia vikings, piratas, aviadores, Indiana Jones, homens-cavalo, pinguins, esquiadores, além da já recorrente turma só de fio dental apesar do frio de quinze graus.

Fomos em direção à música e o clima era de churrasco na Bavária, com muita linguiça, salsicha, salada de batata e litros de cerveja que eram servidos no que pareciam ser baldes de plástico. Tudo por conta da casa. Agarrei um desses baldes e, apesar da fome, ignorei a culinária local. Queria desbravar o lugar enquanto ainda havia um vestígio da luz do dia. O bom de andar com câmeras grandes em um ambiente assim é que, por mais que todos estejam fantasiados e não faltem motivos para falar um com os outros, as câmeras se tornam um chamariz para uma boa conversa com novos amigos.

Nos acomodamos no alto de uma masmorra, de onde tínhamos uma vista estratégica para um pôr do sol alucinante. Podíamos ver o churrasco bávaro na frente do castelo, os shows de indie rock tcheco na parte de dentro e, sobretudo, conseguíamos ver o acampamento em um vale que realmente parecia ser encantado. Comecei achar aquilo tudo mágico e percebi que tudo tinha uma razão. Eu tinha encontrado o significado da vida. Era o meu Graal, o Santo Graal, o único capaz de trazer novamente a luz ao Reino Arthuriano. As epifanias se enfileiravam uma atrás da outra. Parecia que as coisas antes desconexas começavam a se organizar para fazer sentido. Eu estava entendendo o porquê de eu estar naquele lugar, naquele momento. O fim do meu casamento. A doutora Miriam. O fato de estar filmando um documentário… Foi quando eu lembrei dos meus amigos lagostas. Putz! Era space cake.

Anoiteceu e corremos para a parte baixa do castelo para ver um show de fogos de artifício. Era um grupo de umas vinte pessoas, homens e mulheres seminus com lanças em chamas encenando um grande espetáculo, com faíscas para todos os lados. Uma mistura de Medieval Times, da Flórida, com hippies chilenos circenses do farol. Eles gritavam, duelavam, dançavam e aquilo tudo só me deu muito calor. Saí um pouco do meio da multidão e, fora do burburinho, encontrei um banco vazio. Subi e tive certeza de que aquela era a área VIP do castelo. Conseguia ver tudo de cima. O show de fogos, as pessoas fantasiadas, o tamanho da fila do banheiro. Olhei para baixo e uma menina com uma peruca rosa me estendia a mão. Das mil pessoas inscritas no Rali, 850 eram homens e 150 mulheres. Dessas 150, quatro estavam em lua de mel e pelo menos um quarto devia ser de lésbicas, o que deixa uma média de uns sete homens para cada mulher heterossexual. Ou seja, a probabilidade de uma gata com uma peruca rosa tentando se passar por Natalie Portman no filme Closer te estender a mão é bem remota. Logo entendi o que ela queria. Queria estar no camarote VIP comigo, lógico. Ela subiu e se espremeu ao meu lado. Era bem mais baixa do que eu, então continuava não vendo muito o espetáculo. Aproveitei o fato de que ela não podia acompanhar o que estava acontecendo para puxar um papo. Pensei na coisa mais criativa que eu podia falar para impressionar a moça e mandei:

– De onde você é?

– O quê?

– De onde você é?

– Nova Zelândia!

– Wow! Eu sou do Brasil, muito prazer!

Não deu muito resultado e comecei a pensar em algo ainda mais criativo para encantar a menina. Depois de descobrir que habitávamos extremos exatamente opostos no planeta, a próxima pergunta tinha que ser matadora e não hesitei:

– Qual é a sua rota?

– O quê?

– Qual é a sua rota?

– Rota? Que rota?

– A sua rota, você está indo para Mongólia não está?

– Claro, estou.

– E qual é o seu caminho? Por onde você vai?

– Ué, e por que eu deveria saber por onde eu vou, isso aqui não

é sobre descobrir as coisas no caminho? Não sei onde vou parar,

não sei nem se vou para a Mongólia.

Eu tinha passado o dia todo querendo saber das pessoas as suas rotas e não reparado que na verdade ninguém ali estava interessado em rota nenhuma. Não importava a rota. Não importava o meu documentário estúpido. Não importavam os empregos em escritórios com ar condicionado que poderiam ser perdidos. O que importava é que estávamos ali para viver aquela aventura e que cada um teria uma experiência diferente. Não importava de onde éramos e por que estávamos fazendo aquilo. Como disse o Jools, a pergunta era simplesmente “por que não?”.

Aquilo me deixou pensativo e sem ação por alguns instantes. Tinha que contra-atacar à altura e me mostrar minimamente interessante. Um fenômeno que acontece no Rali é que todo mundo que está ali parece ser interessante. Não importa a vida passada, o nerd mais nerd ou o playboy mais playboy viram pessoas legais, transformadoras, inconformadas com o tédio cotidiano. Nem parece que têm um emprego chato e que passaram anos juntando dinheiro para estar ali. Resolvi voltar ao básico:

– Qual seu nome?

– Pipi.

– E você é da Nova Zelândia, certo? A Nova Zelândia deve ser

muito chata mesmo para você querer ir para a Mongólia.

Pipi abriu um sorriso olhando fixamente nos meus olhos. Acertei uma!, pensei. Ela seguiu me encarando. Agora é minha hora, é só me aproximar e arriscar aquele beijo na pretensa cover de Natalie Portman. O sorriso dela foi se fechando, os olhos também. Não sabia se aquilo era um sinal ou se ela fazia o tipo romântica. Antes mesmo de eu descobrir o que aquilo significava, o corpo dela começou a ficar mole, rodando em microcírculos. Segurei os braços dela e senti que suava frio. Desci do banco VIP e a ajudei a descer também, mas a menina desmontou lentamente em direção ao chão. Logo chegaram alguns amigos neozelandeses e me acalmaram. “Não se preocupe, ela está chapada, deixa com a gente, já estávamos de olho, ela sempre faz isso”. Minha paquera de rali tinha ido por água abaixo… E, pelo visto, meus amigos lagosta tinham dado uma boa volta pelo acampamento e a distribuição de bolos espaciais tinha sido farta.

Fui procurar meus companheiros de time no bar mais próximo. Eles estavam sentados em longas mesas tipo Biergarten com uma infinidade de amigos novos. O mundo já estava todo fora de foco para mim. O dia tinha sido longo e cansativo. Mesmo assim, surgiu um grupo de coreanos com muita cerveja e fomos parar em uma área ainda desconhecida, o subsolo do castelo que, além da pinta de caverna ainda tinha uma placa na porta com a inscrição: “The Cave”.

Ali uma meia dúzia de pessoas dançava ao som de um DJ e de um saxofonista que tocava uma espécie de música eletrônica balcânica, seja lá o que isso queira dizer. De algum lugar saiu um esqui que funcionava como bandeja para pequenos shots de vodka. Era um presente para os recém-chegados e tínhamos que virar todos de uma vez — foi o que fizemos. Logo apareceu outro esqui. Rapidinho estávamos dançando entre os times com macacões de Fórmula 1 e japoneses de fraque fazendo passos de balé. Fumaça, vodka, space cake, Pipi e a última coisa que eu me lembro foi ver o Jools vestido de mico de circo com um sapato do tipo bico-fino-mata-barata-no-canto, colete com strass e um chapéu turco dançando “All my friends”, do LCD Sound System. Era lindo. E tudo aquilo ou não fazia sentido algum, ou fazia sentido demais.

Continua…

Este texto faz parte do livro “Tudo Errado”. A cada semana um capítulo será publicado. Será uma viagem em 25 publicações que você pode acompanhar por aqui ou adquirir no formato físico ou digital (kindle) em www.raphaerichsen.com.br.

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