Diga me sua estratégia e eu te direi quem tu pareces ser!
Não se engane, a homogenização é uma estratégia política e promove uma violência contra a diversidade! Começo este texto com esta afirmação para que seja simples entender do que estou falando aqui: utilizar a homogenização como estrategia para reivindicação de poder é questionar o status quo nas mesmas bases que ele se sustenta. Sem nenhum juízo de valor, quero dizer que a reivindicação de poder é uma pauta extremamente legitima, principalmente, quando falamos de grupos subordinados politicamente e socialmente. No entanto, é necessário chamar a atenção para esta estratégia politica que destrói o indivíduo e sua trajetória de vida para sustentar um argumento. O ser humano é um ser social, imerso em uma “bacia”de valores e relações que contribuirão para a sua formação. No entanto, ele não é a repetição destes valores e, muito menos, a oposição a eles. O que quero dizer com isto?
Bom, vou começar de trás pra frente: o indivíduo não pode ser a negação completa da cultura que o cerca, pois é impossível pensar sua existência fora desta cultura. Todas as condições e relações que tornaram possível que ele existisse como tal estão intrinsecamente relacionadas com o sistema político que o cerca, a filosofia política hegemônica e as relações de poder historicamente estabelecidas. Desta forma, é impossível não haver relação deste indivíduo com o seu entorno. É impossível pensar o indivíduo ocidental fora do capitalismo, fora da democracia como sistema político hegemônico, fora de valores como o machismo e a homofobia que permeiam a nossa sociedade.
No entanto, o individuo não é repetição destes valores porque sua singularidade é construída em cima de interpretações do que o atravessa e de suas próprias experiências. O individuo é fragmentado, móvel e, muitas vezes, contraditório. No individuo contemporâneo, as posições do sujeito não podem ser entendidas como fixadas e cristalizadas. Mais do que nunca, o que se vê são indivíduos jamais completamente definidos, com posições que são a todo momento tensionadas por outras relações e que o obrigam passear por espectros, muitas vezes contraditórios.
A tomada de consciência sobre esta perspectiva do indivíduo é fundamental para o estabelecimento de uma crítica dos valores hegemônicos que não seja calcada na busca pela reprodução dos mecanismos de controle estabelecidos pelas instituições. O mesmo mecanismo de controle que suprime a existência das periferias da sociedade nas “representações oficiais” da publicidade estatal, da população afrodescendente nas “representações” midiáticas da sociedade brasileira e da comunidade LGBT no material didático que é dado as nossas crianças. Não podemos lutar contra a repressão silenciando; não podemos lutar contra o preconceito segregando; e não podemos lutar contra o discurso de “toda mulher é…” com “vocês homens são…”.