Mãe

Quando você disse pra gente que queria um texto de presente de dia das mães a safena até deu uma falhada. Por vários motivos. Um deles é o clichê de orkut: “o que dizer dessa pessoa maravilhosa”.
Outro é que apenas um texto não é nem de longe suficiente para dizermos a você tudo o que você merece ouvir e que nossa frieza e ‘estabanamento’ na questão das demonstrações de carinho não nos ajuda a dizer no dia a dia.
Mas principalmente porque você é uma pessoa, mulher e mãe muito complexa e incrível para ser resumida em um ‘textão’. Por maior que ele seja.

Você, Mãe, tem direito a todos os méritos que você quiser receber por ser a mulher que é, mas mesmo assim sabemos que você não chegou tão longe sozinha. Vovó teve muito a ver com isso, com certeza. Não sabemos todos os detalhes da sua infância, dos atritos cotidianos, de todos os ditados famosos da Gracietinha que você já ouviu pra ajudar a formar seu caráter (sabemos de vários, mas com certeza os que ouvimos foi só uma pontinha do repertório dela). Mas sabemos que da mesma forma que ela foi um enorme exemplo de mulher, ela também era um pouquinho teimosa, dura e fria de vez em quando. Como ninguém é perfeito, ela cometeu alguns erros. E é aí que sua personalidade e jeito de encarar a vida começam a impressionar. Mesmo com todas as intempéries que a infância pode ter colocado na sua frente, você deu um jeito de transformar isso a seu favor.

Desde de o começo já se anunciava a célebre frase ‘nada foi fácil’, certo?
Mas você nunca se escondeu. Sempre foi e meteu a cara nas situações difíceis. Desde cedo foi trabalhar e receber as pedradas que a vida reservava longe da proteção do lar. Não estamos falando isso para querer contar pra você mesma seu próprio passado. Mas sim pra mostrar que sabemos e reconhecemos. Ainda melhor: tentamos ao máximo aprender com isso. Sim, vovó sempre nos lembrava que “a hora do patrão é sagrada”, mas a honestidade, o empenho, vestir a camisa, nos dedicar, sermos justos na nossa vida profissional, essa parte toda devemos a você. Não sei se já falamos, mas é comum em situações mais complicadas no trabalho nos lembrarmos dos seus conselhos e agirmos de acordo com o que você nos ensinou. Não temos carreiras de extremo sucesso, nem somos super ricos com cargos altos, mas sabemos que somos excelentes profissionais porque tentamos ser o mais parecidos com você o possível.

E aí pode surgir a dúvida: mas se são profissionais tão bons, porque não são ricos e gerentes e etc? A resposta é simples: somos profissionais de caráter. E caráter não traz dinheiro, e sim faz pessoas melhores. E somos pessoas maravilhosas porque somos suas pequenas cópias! A sua honestidade em tudo na vida, sua coragem, sua inteligência, sua justiça, nos inspira a cada dia a sermos melhores. Na verdade, não é só uma inspiração, mas uma espécie de compromisso, de dever. Temos diariamente diversas oportunidades na vida de agirmos errado, mas em cada uma dessas situações não só nos lembramos dos seus ensinamentos, mas também sentimos o peso de seguir pelo caminho errado e te decepcionar. É como se você continuasse nos educando a cada dia mesmo à distância! É praticamente uma Mãe com Wifi. =)

Isso nos possibilita encarar a vida com serenidade, clareza, justiça e inteligência. Mesmo nos momentos mais confusos ou difíceis. Quando o pequeno Raphael (pequeno de mentalidade porque o menino já era bem grandinho) rachou a cabeça no fundo da piscina do Palmeiras, a primeira coisa que o pequeno marmanjo fez quando levantou sangrando foi procurar a Mãe. Não o salva-vidas, não um amigo, não o segurança, mas a Mãe. Nenhum médico ou salva-vidas traria mais tranquilidade e força naquele momento do que você. E você não decepcionou. Pegou ele pelo braço depois de subir 3904239298729420982034 degraus em apenas 1 segundo com um pulo, achou uma enfermaria e um salva-vidas como se eles estivessem guardados no seu bolso de prontidão, e foi acalmando, orientando, guiando. Enfim foram os dois, o rapazote ensanguentado e a Mãe plácida porém preocupada, para o primeiro passeio de ambulância do cabeça-rachada. Um episódio que teria tudo para ser trágico, terrível, assustador, foi divertido, calmo, emocionante (positivamente), e transformou toda a situação em uma história engraçada para contar depois. Poucas pessoas no mundo tem essa sabedoria, habilidade e serenidade. Você é uma delas, Mãe. Uma das poucas, uma das raras.

E não foi só dessa vez. Como tem também uma filha que contraria toda essa suposta sabedoria e inteligência, a pequena gênia resolveu um belo dia que faria um furo no fundo de um pote de manteiga com uma faca com ponta………… enquanto segurava o pote na palma da mão.
O resultado foi o que qualquer ser humano com QI razoável conseguiria prever: o dedo mindinho quase separado do resto da mão e a cozinha banhada em sangue; (pausa para apreciar a descrição dramática e estilo novela mexicana da cena). O seu coração parecia que ia sair pela boca vendo a filha nessa situação, mas onde a maioria se apavoraria e não saberia o que fazer, você saiu recolhendo roupa, bolsa, chaves e em menos de nada estávamos no carro a caminho do hospital, dirigindo feito a ambulância que levou o cabeção-da-piscina alguns anos antes, para colocar a aspirante a Lula dentro do hospital para não perder o dedo mindinho. Tudo correu bem mais uma vez, pois você estava lá pra cuidar da gente, como sempre esteve!

Caso alguém além de nós 3 leia esse texto, pode pensar: “nossa que vida mais tranquila”. Não é bem assim. Raphael uma vez fez um favor de repetir um ano na escola. Mesmo ouvindo várias e várias vezes o mantra: “você pode fazer o quiser da vida, mas faça bem feito. Se quiser ser lixeiro, seja, mas você deve varrer a melhor rua que você puder!”. Mesmo assim, com escola paga, só isso pra fazer da vida, e ouvindo essa frase o tempo todo, reprovou. E aí uma hora teve que contar isso pra você. Com medo das chineladas, gritos e broncas, chegou a hora da ‘conversa’. E como o pequeno repetente era (e ainda é) muito inferior como pessoa do que você, esperou o pior. E o que aconteceu foi mais um exemplo das vezes que você Mãe nos surpreende mostrando mais uma face da grandiosidade de pessoa que você é. O papo foi tranquilo. Sério, mas tranquilo. Mas não apenas tranquilo, foi instrutivo, disciplinador, engrandecedor. Você disse o que era preciso ouvir para que seu filho “tomasse tenência” (outra expressão corriqueira que só nos faria pleno sentido nas nossas fases mais maduras da vida). Ele tomou a tal da tenência e se endireitou na escola. Na faculdade deu um show, na Pós (não terminada, é verdade) idem. Tudo por causa daquela conversa e do extremo desejo de não te decepcionar de novo.

A mesma decepção que a filha sentiu medo de te causar quando foi pega fumando. A situação de começar a fumar precocemente já era marcante o bastante na sua infância. E agora os papéis se invertiam, te dando a responsabilidade e chance de tomar uma atitude melhor do que fazer sua filha engolir uma bituca de cigarro depois de apagá-lo na própria língua. E você nos surpreendeu de novo. Novamente uma conversa forte, firme, sólida, mas inspiradora, esclarecedora e engrandecedora tomou lugar e novamente seus filhos eram colocados um degrau acima na escada de ‘uma pessoa melhor’. Uma conversa que nunca pretendeu impor uma verdade, um visão de mundo e muito menos qualquer tipo de obrigação. Foi uma conversa que mostrou os caminhos, contou experiências, mas acima de tudo deu escolha. Mostrou sua confiança em sua filha para que ela fizesse suas próprias escolhas e mostrou mais uma vez que você sempre estará do nosso lado nos protegendo nos caminhos que nós mesmos quisermos escolher, mesmo que seja o errado. Isso sem dúvida é a melhor coisa que uma mãe pode fazer por seus filhos. Sabemos que somos donos de nós mesmos, ‘capitães da nossa alma’, mas sabemos também com certeza absoluta que podemos ‘Andar pelo vale da sombra da morte’ que você estará sempre do nosso lado nos protegendo! (olha só, citamos até a bíblia)

Aliás… falando nisso, a Bíblia né. Você bem que tentou. Até catequese fizemos, sob seu incentivo. Mas nessa parte não conseguimos seguir o caminho que talvez você quisesse. Ok, essa frase foi feita errada. Em mais de uma situação você nos falou sobre deus, religião, e coisas sagradas. Respondeu nossas inúmeras perguntas com a paciência de Jó (viu, citamos a bíblia de novo). Mas sempre, sempre, deixou bem claro que a escolha seria nossa. Lembra, enquanto você e o Rapha atravessavam uma rua no bom retiro (que era cheio de judeus o que levantava várias perguntas na cabecinha imaginativa do seu filho), ele perguntou sobre religião e porque éramos católicos. Você respondeu: “porque vocês ainda não tem conhecimento suficiente para decidir que religião seguir, então por enquanto eu escolho para vocês. Mas quando tiverem idade suficiente vocês vão estudar várias religiões e escolherem a que vocês quiserem”. Mais uma vez, você nos ensinava responsabilidade, controle da nossa própria vida, fazer escolhas difíceis, mas sempre segurando nossa mão (figurativa e literalmente, afinal estávamos atravessando a rua e Raphael era criança então você segurava a mãe dele). Obs: as piadelas ruins não herdamos de você, seu humor não é tonto assim.

Você, Mãe, não soltou nossa mão nunca, mas nos deixou à mercê da vida, das decepções, das porradas. As escolhas mal feitas nos trouxeram dor, mas sempre seu colo esteve ali pra chorarmos nele e curar as feridas. O peso da responsabilidade nos manteve espertos e safos desde cedo, e o medo de te decepcionar nos manteve alertas e na linha, mesmo sem você precisar estar por perto. Você nos educou com liberdade, o que é incrível! Geralmente vemos crianças indo para um dos dois extremos, ou muito soltos e portanto irresponsáveis, ou muito grudados e portanto mimados. Nós não. Tivemos o melhor dos mundos. Apanhamos para amadurecer e enfrentar a vida de igual pra igual, mas tivemos sempre você para correr quando a barra ficava pesada demais.

E a barra pesou bastante algumas vezes, né. Pro Raphael começava a pesar antes mesmo de nascer. Imagina então pra você. A paixão repentina pelo negão estiloso foi se tornando em pouco tempo uma bela barra. Poucas aguentariam o que você teve que aguentar nessa fase também. Muitos bebês na mesma situação do Raphael foram abandonados em lixeiras. Sim, esse exemplo foi pesado. Mas a barra nessa época foi bem pesada também. Na época, nos arriscamos a dizer que foi a mais pesada da sua vida até aquele momento. Hoje já sabemos que tiveram outras tão ou mais pesadas, mas na época só podemos imaginar o quão difícil foi pra você. Não precisamos entrar muito nesse assunto para constatar o excelente trabalho que você fez com a gente. Mesmo nessa situação nos saímos pessoas boas, direitas, honestas, sem traumas, sem violências, sem ficarmos loucos (ou virarmos gays né Senhora dos Absurdos hahaha). Você conseguiu não só ser pai e mãe ao mesmo tempo, como conseguiu ser uma excelente mãe e um excelente pai enquanto era uma excelente profissional e seguia incrementando sua carreira e seu caráter profissional. Talvez a ciência devesse estudar a gente, né?

Você conversou com a Christina sobre assuntos de menina, conversou com o Raphael sobre assuntos de menino. Riu com o humor peculiar de cada gênero, guiou cada um para o caminho adequando para meninos e meninas. Discutiu inclusive orientações sexuais quando foi o momento, nos dando novamente a escolha de seguir para onde quiséssemos. Enfim, soube fazer os dois papéis, de pai e de mãe, enquanto separava as particularidades e necessidades de menino e menina. Meteu a chinelada quando foi necessário, foi buscar o Raphael no fliperama quando ele cabulava aula (tudo bem, prensou o menino errado no processo, mas o que vale é a intenção haha).

Em resumo, nos trouxe até aqui. Longe ou perto comparado com os outros não importa. O que importa é a dureza do caminho até chegarmos aqui e o quanto evoluímos. E chegamos. E evoluímos. E por várias vezes reconhecemos a nossa grandeza como mini-Augustas e nos deixamos levar pela vaidade e pela arrogância. E então cometemos o erro de nos achar mais que os outros. Podemos até ser mais que um ou outro, mas você sempre nos ensinou a não nos deixar levar pela arrogância e prepotência e pensar assim.
Então sentamos de vez em quando para conversar com você. Com toda nossa eventual arrogância e certeza de sermos fodas, sentamos para ter uma conversa, e tomamos a dura mas prazerosa lição de que ainda temos um longo caminho a percorrer e muita coisa para aprender com você para acharmos que estamos sequer ao seus pés. Nossa arrogância (Raphael e Christina) às vezes atrapalha tudo e nos prega peças e nos faz enxergar as coisas distorcidas. Mesmo a seu respeito. Por várias vezes pensamos que temos que te proteger de algo ou te ajudar a superar alguma barra. Fazemos isso porque não somos tão espertos quanto achamos, ou tão maduros quanto achamos, ou tão sensíveis quanto achamos. Então quando a vida bota mais uma barreira na sua vida, nós achamos que temos que te proteger de alguma forma ou até corremos o risco de achar que essa vai ser pesada demais e você não vá dar conta. E aí você vem, com sua serenidade, sabedoria e humildade, e nos dá mais uma bela lição bem na nossa cara. Jamais devemos cometer o erro de te subestimar, porque a cada dia que passa você prova a incrível e forte mulher que é. Nos surpreende a cada dia. E não nos surpreende porque não acreditamos que você possa ser tudo isso, mas porque ainda não somos evoluídos como você para enxergar até onde você pode ir. Por isso nos surpreendemos.

A barra mais recente está bem clara para todos nós, certo? Um exame de rotina na mama apontou algo errado, e assim como toda tragédia, tudo começou a capotar de uma vez e rápido demais. Estávamos do seu lado quando a médica deu a notícia. Imaginamos antes e por várias vezes como umas das possibilidades ser de fato o tal do câncer, e tentamos imaginar também como seria sua reação ao receber essa notícia. Não passamos nem perto. Na hora, você recebeu a notícia como se fosse um soco no estômago. Nós sentimos uma dor até física ao ver você daquele jeito. Temos que confessar que naquele momento pensamos: “essa agora foi demais. Ela não vai dar conta de aguentar essa barra”. E você precisou de alguns poucos minutos, duas respiradas fundas e um abraço rápido de cada um de nós para digerir o diagnóstico, e logo em seguida virar para médica fazendo perguntas focando já na resolução do problemas. Nós dois choramos nessa hora junto com você. Mas não pelo mesmo motivo. Você chorou por Deus colocar mais essa barra na sua frente, como se já não tivessem tido barras suficientes até agora. Nós choramos porque pela primeira vez em nossas vidas pudemos vislumbrar totalmente a incrível mulher que você é a força que tem. Força essa que, como dissémos, ainda não somos capazes de enxergar totalmente. A serenidade, maestria e força que você lidou com a situação, ali mesmo, ainda na frente da médica minutos depois de receber a notícia, nos deixou explodindo de orgulho e admiração. Choramos de alegria pela mãe que temos e por saber que você tiraria de letra mais essa barra, e que tudo ficaria bem. Você continua lidando com essa e com todas as outras barras da sua vida com uma força inspiradora, que nos dá a certeza de que nada poderá te derrubar ou diminuir a mulher e Mãe que você é.

Talvez com sua sabedoria e experiência você ache que consiga imaginar o quanto a gente te ama e te admira, e o quanto somos gratos a tudo que você faz por nós e nos ensina dia a dia. Mas saiba que dessa única vez você está errada. Não importa o quanto você imagine, você ainda vai estar longe de saber o quanto te amamos e admiramos. A culpa pode ser nossa, afinal somos péssimos em demonstrar o que sentimos, nossa gratidão, nosso carinho. Mas sabemos também que você consegue ver dentro da gente como se fôssemos de vidro, e nos lê como se fôssemos livros. Então releve as vezes que a gente não demonstra nosso amor como você gostaria ou precisa, mas tenha sempre certeza que a luz de vida que temos dentro da gente só existe por sua causa!

Te amamos além do que você pode imaginar.

Muito obrigado por tudo o que fez por nós até hoje, e por tudo que ainda fará!

Christina e Raphael

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