Diário da insônia (ou apenas notas de alguém que está deixando de dormir)

Sempre dormi bem. Fácil. Era dessas que batia na cama já dormindo, cochilava no ônibus a caminho da faculdade, dormia sempre nas caronas — o que, convenhamos, era um pouco constrangedor, mas enfim. Na verdade, a incessante máquina de rememoração que é minha mente me relembra que nem sempre foi assim. Eu fui uma criança insone. Aos sete, oito anos, era comum me encontrarem dormindo no sofá, no chão, nas poltronas da casa. Sem sono, vagava pelo apartamento adormecido até que o cansaço eventualmente me derrubasse em qualquer lugar.

Já adolescente, costumava deitar com o aparelho de som ao lado da cama e colocar os fones para ouvir música até conciliar o sono, o que poderia, muitas vezes, significar muitas horas. Talvez isso também explique o fato de até hoje eu lembrar de letras inteiras de álbuns que não escuto desde o fim da adolescência.

Desde que comecei a trabalhar, minha vida mudou e o sono vinha fácil. Confesso que, muitas vezes, durante o mestrado e o doutorado, um certo pânico me manteve desperta por alguns dias ou noites inteiras. Nada que o final de semana e uma cerveja com os amigos não curasse.

Há dez meses — quase isso, enfim, preciosismo cronológico não mede (in)felicidade, não é? — meu casamento acabou. Dentre as coisas que meu ex-marido levou quando saiu de casa — e olha que o que ele deixou muito para trás — acredito que ele tenha pego meu sono por engano e me deixado aqui, no apartamento vazio, desperta pela eternidade para refletir sobre os rumos que minha vida anda tomando desde que ele se foi.

Claro que, por mais que eu veja relação direta entre o fim do casamento e minha ausência de sono, confesso que estou melhor hoje. Por vezes me pergunto, quase como se minha mente, por um momento fugaz, me deixasse esquecer, por que mesmo eu casei. Claro, eu estava apaixonada. Na época, fazia sentido. A verdade — ou pelo menos como eu vejo as coisas agora — é provável que nunca tenha feito.

Chegar a essa conclusão não me deu sono. Pelo contrário, me deixou mais desperta. Vai ser um dia longo.

https://www.youtube.com/watch?v=KotlCEGNbh8