Perspectivas

Indo de um lado para outro

O porteiro diz bom dia para o morador mas o dia seria bom mesmo só se ele estivesse na Bahia comendo um acarajé.

O morador que responde o bom dia mas não sabe o nome do porteiro do prédio se joga para a vida do mesmo modo que joga seu jogo do celular. Atento. O bastante para recusar um panfleto.

O panfleteiro que tenta entregar uma propaganda dentária queria mesmo é entregar seu coração para aquela moça formosa há 20 anos atrás. Ele tenta outra vez e consegue entregar um.

A moça que aceita o panfleto , aproveita e faz um avião de papel para seu filho que a acompanha para que ele alcance vôos mais altos que o prédio que tampa o sol e ver o futuro que o espera. O menino quase tropeça numa coberta jogada no chão e é xingado.

O morador de rua balbucia alguns xingamentos e volta a falar palavras incompreensíveis sozinho que na verdade são tópicos da teoria da relatividade de Einstein misturada com a história do iluminismo francês. Será incompreensível porque ninguém presta atenção ou porque ele é sem noção? Ele xinga novamente quando um senhor passa com sua bengala em cima de sua coberta.

O senhor a passos vagarosos com sua perna adicional parece sem vigor, mas os seus olhos azuis o desmente, pois seu olhar ainda transmite a mesma vibração de 60 anos atrás mesmo que as pernas não o acompanham mais como deveria. Uma moça extrovertida que não para de falar o ajuda a atravessar a rua, contra a sua vontade.

A moça extrovertida que ajudou o velho senhor a atravessar a rua compra um sonho desejando comprar a felicidade para si. Mas esse sonho era de só chocolate. Ou será de doce de leite?

A atendente tímida da padoca da esquina que vendeu o sonho para sua cliente contabiliza os ganhos do dia mas queria mesmo é vender sua ideia inovadora para algum investidor e contabilizar seus lucros na sua mansão. Somando a tudo isso, ela não aguenta mais ouvir o locutor da loja da frente repetir sobre as promoções imperdíveis de torneiras, chuveiros e banheiras.

Promoções imperdíveis diz o locutor de loja que narra como se estivesse narrando uma final de copa do mundo. Mesmo que ele ainda esteja na banheira da vida esperando fazer o gol do sucesso. Ele tenta atrair a atenção de um homem de regata e boné mas falha na marcação da sua locução.

O homem de regata e boné vai agitando seu shake em direção a sua malhação diária mas o que queria mesmo era a voltar no tempo em que o agito das suas tardes era só a malhação da televisão. Ele passa por uma senhora bebendo no bar da esquina que reflete focada em algo.

A senhora que bebe no bar da esquina parece refletir sobre o monopólio do capitalismo perante a revolução do socialismo de outrora. Ou será que está pensando se deixou a janela aberta, vem chuva por aí disseram mais cedo. O homem de negócios que leva um guarda chuva passa quase despercebido das análises da senhora do bar da esquina.

O homem de negócios sempre precavido, tenta anteceder tudo que vai acontecer. Seja chuva, gerenciamento do negócio ou queda da bolsa. Só não conseguiu anteceder a queda da bolsa de sua mulher no assalto a mão armada há 5 atrás. Por isso olha atravessado para o PM que transparece um olhar tranquilo observando o movimento.

O PM que de tranquilo só tem o olhar, não deixa de pensar no trombadinha que quase lhe passou a perna um dia atrás mas que deixou ir embora. Será que foi o certo? Olha lá do outro lado da rua, será o trombadinha? Não, o PM imaginou-se vendo coisas.

Era o trombadinha. Na verdade, o menino pobre que fugiu de casa porque o pai batia nele tenta sobreviver nas ruas vendendo chiclete vencido e roubando frutas de feiras. Ele avista um homem de camiseta de banda estrangeira e oferece um chiclete.

O homem com camiseta de banda estrangeira e fone de ouvido finge que não ouviu e segue seu caminho carrancudo. Mesmo que na sua lista de reprodução estejam pagodes do molejo ou funks da Anitta. Antes de atravessar a avenida ele vê uma moça deixar cair um livro ao correr atrás do ônibus.

A moça atrapalhada que deixou cair o livro se esforça para chegar no busão ou será que corre para atingir seus objetivos? Trabalhar, estudar e cuidar de casa não é tarefa fácil mas ela é um livro aberto e se multiplica em 3, dando conta do recado. Agora no ônibus pode relaxar e ler um pouco. Mas cadê o livro?

O trombadinha que o PM pensou ter visto, deixa de lado a venda de chicletes e pega o livro do chão não porque queria roubar ou coisa assim. E sim olha triste ao pensar como seria feliz se entendesse essa história de letras que se juntam. Talvez o pastor da igreja ao lado leia para ele que nem da outra vez.

O pastor tira o livro da mão do pequeno fiel (ex-trombadinha)dizendo que esse livro de historinha só possui blasfêmias e o entrega um mais novo que considera mais adequado. O pequeno fiel (ex-trombadinha) agradece meio sem jeito pois queria ler o livro que havia encontrado. E na hora de voltar para a venda de chicletes, atravessa a avenida e é quase atropelado por um motorista furioso desavisado.

O motorista furioso para o carro na hora, lança um xingamento para o trombadinha (ex pequeno fiel) e acelera para mais uma hora no trânsito para chegar a lugar algum. Ele sente o cheiro de espetinhos na calçada próxima de um imigrante de nacionalidade não identificada, que o deixa mais raivoso pois lembra que está com fome.

O vendedor de espetinhos imigrante de nacionalidade não identificada projeta os espetinhos com a mesma maestria em que projetava aviões em sua antiga nação na sua antiga vida pré guerras e conflitos. Duas senhoras se aproximam do vendedor e refletem sobre as opções disponíveis.

As duas irmãs, dizem frango juntas e esticam as mãos juntas para capturar no mesmo tempo os espetinhos. Mesmo que uma companhia para a vida elas ainda não tenham capturado ainda possuem uma a outra para partilhar espetinhos e o tempo passar. Elas sentam para comer e o morador que não sabe o nome do porteiro aparece novamente com pressa na frente delas.

E ele passa todos os dias por todos estes personagens sem reparar nas histórias de quem passa ao seu lado. E chega ao fim de sua jornada. Seria ele alguém isolado? Despreocupado? Desesperado? Ou desumanizado?

Eu diria de tudo isso, um combinado.

De comida japonesa, o seu almoço de hoje.

Mas esquece esse almoço.

E as histórias deste relato?

Ahh, elas são deixadas

De lado.

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