Um debate político inesquecível

Hildebrando se candidatou pela enésima vez ao cargo de governador do estado. Desta vez se filiou ao novíssimo e minúsculo partido PQNO para tentar pela última vez uma improvável vitória. No alto dos seus 78 anos, sabia que o tempo estava se esgotando e que chegava o momento do crepúsculo de sua vida política. Nas pesquisas era apenas o oitavo colocado, não chegando a somar 1%. “Mas se for contar a margem de erro, tenho 2% de intenções de voto!” costumava dizer nos corredores do escritório de sua campanha.

Na juventude chegou a ser eleito vereador pela sua cidade natal, uma cidadezinha pequena no interior, mas pouco fez para que sua carreira política decolasse depois disso. Foi escolhido presidente do pequeno partido por ter uma conhecida língua afiada e por sua contundência em suas convicções. Não era um político exemplar mas sabia chamar atenção nas campanhas. Era quase folclórico.

Desta vez, por falta de opções melhores e visando apenas popularidade, o PQNO o convidou para liderar a chapa para ganhar fama nas eleições. Não havia o menor interesse e perspectiva de vencer, o objetivo era gerar curiosidade pelo partido e na próxima eleição vir mais forte para disputa de cargos menores, mas Hildebrando não queria saber de estratégias. Se era aquela sua última eleição, fecharia com chave de ouro. Fazia todos os esforços para chamar atenção e conseguia com êxito se popularizar, especialmente por seu temperamento caricato e sua maneira excêntrica.

Pois bem, na reta final decidiu ignorar os marqueteiros da campanha e fazer as coisas por si só. Não tinha nada a perder e apostou todas as fichas no último debate ao vivo na televisão para todo o estado.

Em um determinado momento foi sorteado para responder ao atual governador sobre educação e deu-se o seguinte diálogo:

– Candidato Hildebrando, em meu governo criamos 30 unidades novas de ensino fundamental, implantamos um plano de aprendizado modelo e temos melhorado o nível de avaliação do Ministério da Educação. Se o Sr. for eleito, quais são seus planos para manter em alto nível a educação da população? — disse o já popular governador.

– Candidato Hildebrando, 30 segundos para resposta — anunciou o mediador.

– Bom, em primeiro lugar — começou com sua voz rouca e envelhecida pelo cigarro há tantos anos — eu gostaria de dizer que o senhor é um mentiroso de marca maior. Um canalha de primeira e que sua esposa é uma salafrária sustentada pelo cidadão do estado. Em segundo lugar, essas escolas são uma mentira e não passam de belas porcarias. Os alunos batem nos professores, passam a maior parte do tempo pulando o muro para fugirem das aulas e consumirem drogas próximos das escolas e o ensino é nocivo ao intelecto de um ser humano.

– Candidato Hildebrando, o senhor precisa moderar seus comentários — interveio o mediador. — Diante do pedido do atual governador, ele merece direito de resposta… 30 segundos, governador…

– Sr. Hildebrando, pelo respeito que possuo por um homem da sua idade não irei me rebaixar ao nível, mas peço que o senhor me respeite e modere o linguajar.

– O governador não merece pedir respeito a ninguém, é um cafajeste, um energúmeno que só foi eleito por comprar votos! — interrompeu o velho candidato ignorando completamente as regras do debate.

– Olha aqui meu senhor, o senhor irá arcar com as consequências de falsas declarações! — rebateu um irritado governador

– Candidatos, vamos voltar ao debate, atenção às regras, por favor… — tentou recompor o mediador.

– O senhor é um ladrão! — bradou Hildebrando.

– O senhor é um velho gagá! — retrucou o governador.

– Candidatos… — tentou novamente o mediador.

– CANDIDATO É O CARALHO! — perdeu o controle Hildebrando — PRO DIABO SEU CANAL DE TELEVISÃO E ESTE MEQUETREFE, LADRÃO E CORRUPTO. O PAÍS ESTÁ ESSA DESGRAÇA POR CULPA DESTE TIPO DE HOMEM.

– Eu não lhe meto a mão na cara, pois sou contra vexames, senhor! — ameaçou o governador.

– O SENHOR NÃO METE A MÃO NEM EM SUA ADORÁVEL ESPOSA, É UM FROUXO, BUNDA MOLE E CORNO! — sentenciou o idoso oponente.

– Vamos para os comerciais!!! — se desesperou o Mediador.

Ao subir a vinheta do canal, um clima desesperador tomou conta do estúdio. Seguranças entraram para apartar os membros dos dois partidos.

Hildebrando não voltou para o debate aquela noite. Mas voltaria um pouco mais brando no segundo turno. Seu descontrole rendeu uma surpreendente votação no domingo após essas cenas lamentáveis ao vivo e o povo, surpreendentemente, ficou ao lado dele. No entanto, fora derrotado por um processo judicial de injuria e difamação e uma proibição de se candidatar pelos próximos 20 anos, proferidas pelo tribunal eleitoral. Entrou para a história como um dos mais memoráveis debates e o vídeo completo tem mais de 8 milhões de visualizações na internet até o momento.

Publicado originalmente aqui.

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