Recarregando Baterias.

Um trecho do diário de bordo de um workaholic.

Photo by Jeff cadestin on Unsplash

Meu nome é Raphael. Vou falar um cadinho sobre a minha vida nessa artigo que é um conjunto de ideias bem pessoais minhas, não tem nada escrito em pedra.

Estou envolvido com programação desde os 16 anos de idade. Na época ia para escola levando um caderno adicional para escrever algoritmos no papel, tinha um feeling RPG (role-playing-games), parecia que estava desenvolvendo alguma skill adicional.

Na época eu tinha criado uma rede social e um jogo para Xbox com o que tinha aprendido por conta própria. Eu ficava muito motivado para pegar outros tipos de desafio. Me dei conta então que eu amava aquele sentimento de estar aprendendo algo novo.

Decidi então que queria ser programador (pensando comigo; quem seria o trouxa de me pagar pra fazer algo que eu gosto), entrei na faculdade, peguei meu primeiro estágio e depois fui pra outro estágio, depois outro. Em cada lugar eu aprendia algo novo, estava viciado naquele sentimento.

Eu morava em Itaboraí, estudava no centro do Rio e trabalhava em Botafogo. Saia de casa 6 da manhã e chegava em casa 11 da noite, mesmo assim sempre disposto a jantar rapidinho e estudar ou revisar o que aprendi no dia. Simplesmente eu não conseguia desligar aquele feeling. Ninguém me pedia para fazer hora extra, eu fazia. Ninguém me pedia para levar trabalho pra casa, eu levava. Não conseguia parar.

As coisas mudaram quando comecei a me envolver com Open Source. Eu lia código no ônibus, no metro. Queria entender como os frameworks populares da época eram construídos, entender o código das pessoas que eram referencia pra mim. Em paralelo a isso, escrevia muitos projetos abertos com o intuito de aprender. Pelo menos uma vez por dia escrevia alguma coisa aberta e até cheguei a palestrar sobre isso no BrazilJS de 2015, sobre 500 dias escrevendo código aberto. Hoje em dia eu não concordo tanto com o Raphael daquela época, mas se você está aprendendo ou começando é uma boa palestra para motivar você.

De 2015 pra 2016 foi quando as coisas desandaram. Para você entender melhor o contexto; Eram 3 anos sem tirar férias e extremamente dedicado a só uma coisa: programar.

Decidi então que ia tirar férias em algum lugar, mas foram apenas 12 dias para compensar 3 anos. Sinceramente eu achei que seria o suficiente e voltei para mesma rotina. Mas me enganei. Dias depois de voltar de viagem, me encontrei com uma enorme fadiga mental. Não conseguia criar nada e não queria mais saber de programar. Minha mente estava cansada.

Procurei então uma forma de aliviar esse stress. Decidi que ia fazer outras coisas além de programar; Aprendi a andar de longboard (coisa que morria de medo), voltei a jogar futebol, saia para encontrar meus amigos que já não encontrava a mais de 3 anos. Então depois de dois meses eu estava de volta. De quebra me mudei pro Rio e as coisas melhoraram um pouco mais.

Comecei a trabalhar na globo.com na época e foi uma mega escola para mim. Aprendi muito mesmo, trabalhei com pessoas incríveis. Mas depois de 1 ano de casa já estava cansado mentalmente. Nesse meio tempo criei o ReactTV (um packager e renderer para aplicações em React para TVs) e o projeto ganhou um booom. Veio gente da Sony, Netflix e outras empresas querendo começar e trocar ideia. O que era pra ser uma parada maneira, tornou-se um compromisso que eu queria fugir. Não queria mais saber dos meus projetos abertos, só pensava em dar deprecate/no longer maintained no GitHub.

Tinha dias que simplesmente sentava em frente do computador, sabendo o que tinha para ser feito mas não conseguia. Não queria, minha mente queria fazer qualquer outra coisa.

As pessoas sempre me falaram da importância do descanso, coisa que sempre descartei. Comecei então a entender o valor dessa palavra.

Foi ai que falei: vou para o Japão realizar meu sonho.

Fiquei um mês inteiro viajando entre Tokyo, Nagoya, Yokohama, Osaka, Nara, Odawara, Hakone, Kobe e Chiba. Sequer respondi issue, sequer respondi emails. Fiz várias amizades no Japão, pessoas que trocaram contato, gente que eu falo até hoje. Posso dizer que foi a melhor coisa que eu fiz em muito tempo. Quando voltei para o Brasil meu corpo estava exausto, mas a minha mente renovada.

Parecia que toda a pilha de coisas que eu acumulei durante esses anos, consegui desempilhar boa parte. Respondi todos os emails, peguei projetos antigos e atualizei. Peguei o ReactTV e vi que precisava de outro projeto, trabalhei nisso e surgiu o React-Ape. As coisas voltaram a fluir.

Foram exatamente 5 anos (2013–2018) para entender o valor da palavra descanso. Hoje em dia na maioria das vezes eu dou preferência para descansar do que começar algo. Medo de voltar a aquela fadiga mental que eu tive por quase dois anos.

Muitas vezes não conseguimos descansar pois nossa cabeça não se desconecta dos problemas que estamos passando no momento. Algumas vezes estamos bem longe de casa, em férias num local paradisíaco mas ainda assim a cabeça não descansa. Imagina programar pensando em outra coisa. Os reflexos nervosos, a sensibilidade e a capacidade de agir com precisão se tornam prejudicadas. Cada um de nós possui um ritmo próprio.

Eu abri mão de muita coisa para poder só estudar. Nos últimos anos pensei que descansar era perda de tempo e que poderia fazer atividades mais úteis. Este pensamento vem mudando e estou aprendendo a descansar.

Sua prioridade é encontrar na agenda um tempo para você.

Era isso que eu queria compartilhar! Se quiser trocar uma ideia melhor e conversar, meu twitter é @raphamorims.