A DBF e o tapa na cara da República Burocrática Brasileira
Enquanto tentamos resolver na força do grito, quem é o culpado de todas nossas mazelas, a federação alemã opta por outro caminho: solucionar
Próximo à conclusão da Copa, foi de grande repercussão nesta semana, a notícia de que a Federação Alemã de Futebol (DFB) doou 10 mil euros para os índios Pataxós de Santa Cruz Cabrália, na Bahia. A notícia apesar de pouco destaque na mídia televisiva, foi compartilhada por diversos sites e blogs, ressaltando a humildade e solidariedade dos alemães, assim como há algumas semanas, parabenizaram os torcedores japoneses por retirarem o próprio lixo produzido nos estádios. Um gesto também, solidário e humilde. Mas, é assustador perceber que vivemos em uma sociedade onde o que era de obrigação ou advento da consciência moral, do exercício prático de cidadania, é considerado como solidariedade. Para ser mais exato, não é impressionante que o japonês retire o lixo que produziu das arquibancadas, na teoria, era esta a atitude a ser considerada natural, e não o contrário.
Mas, retornando a conversa aos alemães, digo que não foi apenas o cheque de 10 mil euros o maior feito da federação para com os índios Pataxós. Desde o início do mês da Copa, o primeiro encontro entre a seleção alemã e os índios, que sem nenhuma desinibição, “invadiram” o centro de treinamento, interagindo e ensinando-os a dança indígena, além de presentearem Klose, aniversariante do dia, com um instrumento musical e um arco e flecha, mostrou que a empatia entre os dois povos era mútua. Logo cedo, a Federação Alemã se propôs a ajudar a aldeia para o fornecimento de materiais e móveis para a escola de Santo André, no mesmo município. Cederam também o espaço do centro de treinamento, para quando forem embora, servir para a construção de novas escolas e prometeram construir um Campo de Futebol na região. Sim, em menos de 1 ano, a federação alemã de futebol fez mais pelos Pataxós de Santa Cruz Cabrália do que qualquer outro brasileiro em 11, 12, ou 30 anos.
O que me fez relembrar uma discussão que eu tive, há alguns meses após assistir uma denúncia do “Conexão Repórter”, programa apresentado pelo Roberto Cabrini, sobre a precariedade das escolas do sertão nordestino. E não estou falando de uma precariedade na didática. Se ao menos, houvesse a didática naquelas escolas, metade do problema estaria resolvido. Faltava transporte, cadeiras, livros, professores, e restavam crianças, das mais variadas idades e séries, estudando juntas, numa mesma classe e professores, heróis com uma perspectiva já rasa, que só ainda lá lecionavam pela paixão à profissão e afeto pelas suas crianças. A denúncia me deixou tão perplexo que, perplexo, me perguntei: “Mas por que diabos essa gente tá vivendo a Deus dará? A Dilma não vai fazer nada?” e logo fui interrompido por um sussurro súbito que me dizia: “Mas a culpa disso não é dela, isso você tem que reivindicar para os governantes, deputados e vereadores”. Confesso que na hora eu não estava me importando muito com os culpados, eu queria apenas a solução e pra mim não importava, se fulano era governador ou sicrano era presidente. Não estamos falando de colocar 50% do PIB na Educação, estamos falando de dar uma dúzia de cadeiras, livros didáticos e merenda para crianças que estudam numa condição subumana; o que é isso afinal, para quem tanto se orgulha de governar o país que é sétima economia no mundo?
Há alguns dias, novamente me pego nessa mesma discussão, agora sobre o viaduto de BH, que desabou. E o choro das carpideiras pelas vítimas, logo se tornou brado dos criadores de demônios. A discussão era: “De quem é a culpa?”. Quem falou que a Culpa era da Dilma, responsável pela liberação de verbas do viaduto que fazia parte do PAC, logo foi refutado por quem falava que a culpa mesmo era do PSDB de Minas, que por desvio de verba, sucateou a obra; ou foram ambos refutados por quem falou que a culpa era da construtora que fez um péssimo trabalho. E vice-versa. Quem está certo? Todos. Em quais graus de culpa estão presentes os culpados? No mesmo. E é esse o problema, a partir do momento que a megalomaníaca burocracia do governo resulta em obras sucateadas ou o trágico acidente de BH, os culpados não são exclusivamente os que estão no topo das etapas e divisões, ou quem as finaliza, quem constitui essa desgastante pirâmide de procedimentos é constituinte da culpa, nem mais pra um, nem menos pra outro. E pra que discutir culpados? Estamos no país da culpa. Cadeias hiperlotadas, mentes pesadas e almas deturpadas. Não precisamos de mais culpados, porque na socialização da culpa, culparão a todos. Precisamos de quem solucione. De pessoas que, para garantir que aquele mesmo aluno da escola de pau-a-pique e sapê do sertão nordestino, tenha uma cadeira pra sentar, não veja como justificativa para seu conformismo e mau-caratismo, a conivência ao sistema burocrático. Precisamos de mais humanidade, e menos política, pois as divisões para garantir a eficiência das manutenções e desenvolvimento, ao invés de atenderem ao que foram propostas, fazem o contrário. Precisamos nos espelhar na Federação Alemã e no princípio básico da humanidade: Quando os outros não fazem, vá lá e faça! A burocracia é a maior causa para a dependência e estagnação política, pois diante de tantas divisões e procedimentos, no meio do caminho perde-se de onde veio a verba, aonde a verba foi e se ela retornará ao seu curso natural. Não estamos aqui discutindo, se administrações privadas são mais eficientes que as estatais, afinal as estatais já são burocráticas antes de serem iniciadas. Estamos falando de compaixão, retribuição espontânea e humildade. O brasileiro precisa de compaixão pelo próprio povo. Por onde anda a nação receptiva e mais cordial do mundo? A tal nação em que o mundo todo quer morar? Que tem policiamento e cavalaria à cada esquina?Ela só é assim para os outros? E então, percebemos que o complexo de vira-lata transcendeu à um nível ômega. O nível da pobreza de espírito.
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