Devia ter… Quem diria que pela cabeça do garoto no auge da “virgem idade” passasse tal ideia. Enfim chegamos à uma década e oito décimos de vida. Já passamos pela fase do limbo, do transe que foram os 17 anos, aquele muro que dita o quanto você é grande demais para fazer o que fazem as outras crianças, mas pequeno demais para fazer o que fazem os adultos. Não foi fácil ser rejeitado nas agências dos empregos, sabendo que mesmo estando meses próximos aos tão famigerados dezoito anos, eles não aceitariam por uma questão simplesmente numérica. E não estou falando de uma larga escala, estou falando de 6, 4, 3 meses. Foram enésimas candidaturas nos mais variados sites possíveis, currículos entregues por toda a zona sul, e entrevistas que só foram proveitosas para decorar as rotas de toda a Zona norte da cidade, pois quando lá cheguei, vestindo gravatas sufocantes e sapatos da terceira idade, era sempre a mesma conversa: “Você tem dezessete anos”, num ar puro de deboche. Talvez fosse muita ingenuidade minha acreditar que aceitariam um garoto-homem recém formado, sem nenhum curso técnico ou profissionalizante. Levei-me pela idealidade dos meus heróis, Carlos Drummond, Nelson Rodrigues e outros nomes renomados da literatura, da medicina e de outras áreas, que começaram a trabalhar ainda jovens. E não estou falando de ofício de engraxate, entregador de jornais ou outros desses cargos para “menores aprendizes”. Estou falando de editoras, departamentos e outras diretrizes de grande renome na mídia brasileira. Sonhar alto faz parte, nem sempre é necessário começar por baixo para subir.Mas eram outros tempos, de fato.Hoje em dia só tem relevância em seus textos quem tem em suas formações acadêmicas a faculdade de Jornalismo e Letras (mesmo que a maioria dos que as exercem nem cumpra a ética da profissão). E quem se mete a pensar alto sem usar do nepotismo no trabalho, é quebrado pela ideia de exploração. Esse espaço de tempo entre os 16 e os 18, parecem ter durado de fato, 17 anos. A perspectativa nula, o trajeto “cama-cozinha-tv-cama” rondaram e sondaram minha vida por quase três infinitos meses. Para alguns parece tão simples, que inveja. Lembro-me, dia desses, enquanto voltava do curso, de um carro que tocava os estrondantes versos “18 anos eu não queria nem saber, só curtir, farrear e beber”. Refleti por alguns minutos, o quanto aquela era uma realidade diferente da minha. Mas quer saber? Se eu tivesse oportunidade, seria essa a realidade que eu estaria vivendo. Se não rondasse pela minha cabeça todo o percurso da vida profissional e acadêmica, eu seria um boêmio violinista, que vai à retiros e festivais hippies em Itu aos finais de semana. Não, não estou falando que seria mais feliz na vida se tivesse menos responsabilidades, se ligasse menos, ou se me importasse menos. E sim que não só eu, como muitos de nós, regramos uma vida para nos tornarmos verdadeiros ratos na roda. O percurso de “trabalhar para ter o que comer e comer para ter como trabalhar”. Os 18 anos são poucos para quem já comete vida há 40, 50, ou 60 anos, mas para mim, já são suficientes para muitos desabafos e nostalgia. Devia ter, queria ter. Devia ter começado a estudar para os vestibulares lá pela, sei lá, terceira série do ensino fundamental. Devia ter dito menos “eu te amo”, e ter demonstrado mais. Devia ter dado atenção para aquela aula de fração do professor Adriano na quinta série, pra aula de Torricelli na oitava, me esforçado para o vestibulinho. Mas naquele tempo, meu maior temor era se o meu sanduba tava mais frio na hora do recreio. Saudade dos sábados, das vespertinas 6 horas em que eu, primeiro da casa que acordava, já estava lá na sala, assistindo Beyblade, Digimon e Super Duper Sumos, na Fox Kids. Saudades das notas azuis, do “Ele é um gênio” e “parece que tem um livro na cabeça”. De dormir no sofá e surpreendentemente acordar na cama. De achar graça em assistir desenhos ao invés de ver jornais. Perder horas lendo “Turma da Mônica”, que deixa qualquer Folha e Carta no chinelo. De não saber quem era meu presidente, de não saber o que era política, não sabia sequer apontar para a direita e esquerda direito. De ver duas torres caírem sob os olhos do mundo e minha única preocupação ser terem interrompido a TV Globinho.De ir à escola de mãos dadas com minha mãe, jogando mil conversas fora. Saudade de quando completar mais um ano de idade significava muito mais brigadeiro, paçoca e power rangers novos para a coleção. De vencer pessoas pelo choro, pelo mimo, pelo grito. De desenhar a professora com chifres e vassoura, e não correr riscos de ser processado, advertido ou suspenso. Da ilimitada capacidade criativa, de fazer os sofás virarem rochas e os chãos rios de lava vulcânica; de lutar com inimigos invisíveis e fazer acrobacias mortais, vulgo cambalhotas.
Não são os meus 18 anos, representantes de uma fase ruim ou monótona para a minha vida, é que a vida antes deles, era muito mais fácil. Criança sente mais, cheira mais, olha mais, percebe mais, e pura, fala a verdade doa a quem doer, quem é bonito, quem é feio, quem é chato ou quem é legal, não por ser maldosa, meritocrática ou puxa-saco, e sim por ser sincera. Hoje, completo 18 anos, e assim como ontem, quando eu tinha 17, acordei no mesmo horário, comi a mesma refeição e fiz as mesmas coisas. Ainda tenho a mesma estatura, a mesma barba, o mesmo corpo. Ainda moro na mesma casa, ainda não sei dirigir. Quebrei o mito da minha infância, o da questão: “Quando eu for maior de idade, minha vida vai ser que nem a dos caras do ‘Velozes e Furiosos’?”Ainda não tenho o Shelby Cobra vermelho igual o do Scott Summers, nem o Ford Galaxie, O Cadillac. Se minha vida os terá algum dia, o destino e meu esforço haverão de julgar, mas a palavra esforço já mostra que diferente do que eu pensava antes, nada cai do céu. Antes dos 18, eu simplesmente, devia ter.
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