Boechat & Malafaia: Quando a falta de recato viraliza em tom crítico

A recente troca de farpas entre as duas personalidades, foi interceptada por um lapso emocional e raso, viralizado e adotado nas redes, sem a análise de se tratar de um discurso odiado pelos mesmos que o aplaudiram

Na última semana, a troca de farpas entre o pastor Silas Malafaia e o jornalista Ricardo Boechat, espalhada e compartilhada nas redes, principalmente pela forma como o jornalista iniciou sua réplica: uma abertura radical, audaciosa e um tanto quanto inesperada, vinda de um profissional midiático que, apesar de já ter mostrado um temperamento desapegado da seriedade nas redes sociais, é reconhecido pelo seu comprometimento com a integridade da profissão, ocupando a bancada do “Jornal da Band” há 9 anos. Diga-se de passagem, um requisito que deveria ser fundamental para todos os jornalistas do país. Boechat fez de sua fala, metonímia do que estava na ponta da língua de muitos brasileiros, exaustos das incitações e discursos conservadores e intolerantes do líder religioso, que ficaram cada vez mais constantes e ácidos, após a propaganda de ‘O Boticário’, inspirada no tema “Toda Forma de Amor”. O trabalho publicitário que traz como casais, um hétero e dois gays, foi a apoteose para uma saraivada verborrágica partida de Silas e sua ideia conspiracionista de “destruição familiar”.

Porém, após a eclosão da polêmica, e quase instantaneamente, a redução do discurso de Boechat, para a expressão, que foi a gênese da viralização nas redes, sendo também o emblema para seu apoio. Veio à tona mais uma das seleções de impacto da blogosfera e a mídia independente, que sempre parecem exigir o pensamento crítico, racional e justo de cada ato analisado. Tão emocionalmente sutis quanto Boechat, mostraram que a compactuação do método analítico abrupto pode ter exceções, se tratando de quem é o ‘alvo’. Aplaudiram o lapso, a tangente, e um discurso que, em outras situações, teria desígnios considerados deploráveis, e só foi bem recepcionado por ter como alvo alguém tão deplorável quanto.

Ter como consciência o equívoco emocional no discurso de Boechat não é adquirir erratas a partir dele, mas, ver o conteúdo da expressão principal, desprezando todas as informações que permitem dizer a quem foi direcionado, mostra o machismo, por determinar que o anseio de um indivíduo em arranjar discussões, pode ser curado por um pênis (pondo o orgão sexual masculino em um pedestal que indica, até mesmo em alguns argumentos machistas direcionados para mulheres, uma tática de aquietamento, desistência pelo embate, ou o saciamento sexual numa perspectiva do homem como “saciador padrão”) e até mesmo homofóbico, por, além de nas entrelinhas, supor a orientação sexual do Pr. Silas Malafaia, determinar a partir desse entendimento, que o que falta para curar sua ranzinzice é, além de procurar um pênis, sair da condição “enrustida” (muitas vezes assumida como “gayqueer” e adotada pelo ativismo GLBTQ).

Entretanto, para os receptores e para o próprio emissor do “Vá procurar uma r*la” a fala ficou totalmente descaracterizada e imperceptível como machista ou homofóbico, não só pela vontade de muitos saciada numa única “tacada”, como também por ser minimizada, diante do conteúdo do alvo, que apresenta ser muito mais misógino que o de sua “flecha”. Mostrando também, que a construção de falas ditas intolerantes, preconceituosas e também fascistas, precisa de bem mais do que um emissor e suas intenções. Trata-se de uma transmissão emissão-recepção, para que, por método inteligível, possa determiná-lo, baseado em suas ideias já pré-estabelecidas, como um intolerante ciente da sua má intenção, ou uma pessoa mal informada ou mal interpretada. Em outras palavras, nem todo preconceito é consequência de pessoas mal intencionadas; é também resultado do efeito do arcaico, do regresso e a estranheza ao novo ou ao diferente, do mimo, o prevalecer; o dar o braço a torcer e não se acostumar com a imagem de não ser constituinte de um grupo que mutuamente participa da mesma classe, constitui um mesmo credo, faz parte de uma mesma etnia e tem ideias análogas a tradição da família. Nesse último, os Pr Malafaia mostra ser um elemento fundamental para sua impregnação nas mentes pouco instruídas.

No mais, se a expressão dita por Boechat, seguida, aliás, por outros xingamentos um tanto quanto “infantis”(ao menos com a defesa de que, se tratando de Silas Malafaia, não se exige uma discussão muito madura) fosse direcionada para pastoras, também homofóbicas (Podendo citar entre elas, a Pra. Damares Alves, Pra. Marisa Lobo e a Pra. Yonara Santo), a reação dos que tratam Boechat como novo estandarte do movimento anti-fundamentalismo seria totalmente diferente (caso não fosse, seria mais hipócrita ainda). A fala do jornalista é cingida por paráfrases e paródias cotidianas, como “Vá lavar uma louça”, carregando uma carga de sexismo, vinda do enunciador e tantas vezes repetidas, nas redes, por muitos em menção aos atos, protestos e ideias expostas por feministas. Assim também ocorre na réplica ao Malafaia, carregada pela indução à pressupor sua condição sexual e, em consequência dela, identificar o “objeto” de satisfação, pressupondo novamente, que a insatisfação e inquietação do pastor pode ter como diagnóstico o ócio sexual.

O que também se tornou bastante recorrente nas redes sociais, em relação ao assunto, é o compartilhamento de uma pesquisa experimental apontando que homofóbicos tem grandes tendências a serem homossexuais, apesar do adendo do pesquisador e professor Richard Ryan, de que nem todos os representantes do movimento anti-gay tenham tal tendência, mas provavelmente grande parte deles esteja lutando contra si mesma. Novamente a figura de Silas Malafaia surge, agora com uma nova polêmica, abordada por várias outras páginas: Seria o líder religioso, homossexual? De fato, seria a justificativa mais concisa diante de tanta perseguição contra um grupo que não pretende destruir, estabelecer práticas e nunca teve como intuito revolucionar à força a concepção acerca do núcleo familiar na visão tradicional.

Os Menes criados após a discussão entre o jornalista e o pastor retornam a polêmica entorno de sua condição sexual. Mas, passam batidos todos os comportamentos por trás de quem realiza a brincadeira. A escolha em tratar como satírica, a suposta orientação de Malafaia, tanto ricocheteia na homofobia por ele propagada (afinal, não há adjetivo mais pejorativo para um homofóbico do que ser chamado de gay) quanto revela um gesto também homofóbico: o proveito da situação para também dialogar em tom satírico e mordaz a homossexualidade. Em uma analogia que possa parecer um tanto quanto, dinâmica, ou, ultrajante, “é como ver um membro do Klu Klux Klan ser pintado de negro e ser satirizado por isso”. Nessa atitude estão três situações, duas delas, praticamente de projeção. A primeira, a sanção ao membro da supremacia, que se sente mal por protagonizar neste episódio, o personagem social que ele oprime e é intolerante. A segunda situação, projeção, por parte de quem o satiriza, que busca na sua atual condição, formas de torná-lo pejorativo, para que ele receba outra sanção, de equivalência, e ter uma amostra do que sente quem é oprimido por ele. E a terceira situação, também de projeção e mútua, onde, para a construção das duas primeiras sanções, invertem-se papéis, para que quem oprime, não tolera e destila ódio, sinta seu próprio “veneno”, e quem repudia seus atos encontre formas de praticá-los, agora, de forma branda e vista como “justa”. No final das contas, muitos procuram uma personagem gay na personagem conflitante de Silas, para que possam satirizar e não se dão conta. É a tentativa de “castigo” da homofobia por método “antiofídico”.

Criam-se sanções para práticas que, podem ser muito mais do que práticas em repúdio de esferas sociais, de gênero ou raciais, sanções, mais especificamente para estes homofóbicos, que já depreendem o entendimento do Dr. Ryan como “pessoas lutando contra sua própria vontade”. As sanções podem ser tão opressoras quanto os atos deles, se formos levar em conta que ninguém luta contra si mesmo, seus instintos ou suas necessidades, se não imporem a ele alguma regra que o impeça de ser como é. Nesta perspectiva, os homofóbicos vistos com “grande tendência à homossexualidade”, mais do que criminosos, são frutos de uma frustração social. Se Silas Malafaia é homossexual ou não, cabe a ele compreender sua condição. Seu julgamento, deve ser baseado nas suas incitações de ódio, aos gays, aos ateus, umbandistas, outras religiões de matriz africana, e a todos os grupos que destoam(segundo ele mesmo) o seu evangelho, e não na análise da sua pessoalidade. A busca pela homossexualidade no pastor, como se fosse uma perícia a qual ele devesse temer e fosse de grande revelação, só mostra que há também, um resquício de homofobia em quem o julga além do campo populista e de influência de ideias. Não é o Silas Malafaia recém descoberto gay que tememos, e sim o Silas propagador do ódio. O pastor, na hipótese de ser “enrustido”, é somente uma personalidade frustrada, na sua pessoalidade. Não é sua frustração que tememos, e sim a consequência dela. Não é a pessoalidade, sua esfera íntima, que devemos desvendar ou temer. É o que ele faz na vida pública, as palavras que diz, para milhares de pessoas que devemos.

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