O curioso caso da Elite onipresente
Para prosseguir o esquema de intriga classista, seus autores principiam-se de um quesito básico: a abnegação
Desde a primeira partida da Copa do Mundo no mês de Junho, a velha mídia chapa-branca (que prefere ser chamada de “independente”) alocou-se da verborragia em torno dos protestos “Não vai ter Copa” para tramitar em outra questão: A “classe média branca paulista” dos estádios. Já não sendo suficiente a tentativa de comprovar que as vaias e insultos direcionados à presidente Dilma vieram das bocas frívolas dos degustadores de caviar (Em um estádio de abertura da copa, com berros e cornetas ensurdecedoras, quem constatou essa incrível afirmação realmente deve ter se divertido muito pagando um ingresso para ficar praticando voyeurismo crítico deliciando-se a observar minuto-a-minuto as reações da área VIP), no Jogo do Brasil contra o Chile, em um dos atos mais desrespeitosos do futebol brasileiro, neste ano, a vaia da torcida brasileira ao coro do hino chileno, a rota da culpa novamente é interceptada “naszelite”, que pela descrição mais parece uma metonímia do Panis Et Circenses romano.
E quando a arte da socialização da culpa depreende a classe média, o velho e previsível conceito determinista de quem costuma desvincular-se de apontar culpados e determinar que a culpa é de um todo, cai por terra. Os criadores das rixas de classe passam a detectar culpados para os viciosismos e deficiências éticas, incrustados na sociedade por décadas. E deduzem: A falta de respeito da torcida brasileira é uma realidade exclusiva da onipotente e onipresente elite branca paulistana, seja vaiando a Dilma, seja vaiando os chilenos.
Mas para creditar esse sofisma, é necessário muito mais do que lograr, é também necessária a frieza de abdicar-se da memória das vítimas da torcida animalizada brasileira. Deduzir que, a devoção bestial do torcedor brasileiro, que tanto o orgulha e tanto me amedronta, pode ser restrita à classe média, é omitir histórias como a de Kevin Douglas Espada, morto aos 14 anos após um disparo de um rojão em um jogo do Corinthians e San José, o incentivo de um programa de humor para que torcedores mandassem o Galvão Bueno calar a boca e tomar no ** (Sim, pasmem, antes do polêmico caso da Dilma já existia gente sendo mandada pra lá), ou as mais recorrentes e inescrupulosas brigas de torcida de todo o país, sejam com a polícia, sejam entre si, fazendo até mesmo a sociologia indagar-se a respeito do agregamento social constituinte dessa horda de canalhas que em teoria deveriam estar nos estádios em uma atividade em comum, como um público, mas esperneiam, matam e batem, como a mais nociva multidão de bárbaros. Nunca faltou às torcidas brasileiras (que acha bonita a filosofia do rugir, ruge no seu hino e mais ainda no do adversário, só para mostrar quem manda) o desrespeito ao próximo e o vocabulário indigesto. Mas, enquanto continuarem criando entre elas, culpados por um problema não social, e sim ético, mostrando ao povo, um “agente causador” ao invés da “profilaxia”, vamos estar pela eternidade, à mercê da nossa mais universal praga: La Mala Educación
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