Sheherazade, eu escolho você!

A “princesa da barbárie” já deu o que tinha que dar,mas continua servindo de trampolim para algumas mídias.


Recentemente, a página Pragmatismo Político criou uma matéria no mínimo curiosa. Aliás, diga-se de passagem, já se tornou corriqueiro o sensacionalismo nos títulos de alguns blogs e revistas eletrônicas. A novidade agora é uma publicação sobre a jornalista, bom, vocês sabem quem, afinal ela já é a musa inspiradora para construção de editoriais e artigos desses blogs mencionados. Logo no título da matéria, transbordava um: “Discurso de Rachel Sheherazade surte efeito. Casos de linchamentos e justiçamentos com as próprias mãos se espalham pelo Brasil.” O texto discorria um pouco do título, mas se absteve de detalhes. O que entra em mesmo em questão e que merece ênfase é: será que o que cresceu foi o número de linchamentos, ou o número de linchamentos noticiados?Se formos levar em conta, era uma unanimidade, casos de linchamento virarem notícia em sites como o que reproduziu essa matéria, praticamente, em quase todo o veículo midiático, linchamentos não tinham muito espaço. No máximo, tais casos paravam nas páginas da Deep Web, onde você pode ser “fascista” à la volonté. Porém, agora estampam quase diariamente, os mais variados veículos independentes(?). É tão grande desonestidade intelectual culpar uma jornalista pelo crescimento de algo que era/é totalmente corriqueiro no país(e até então, ignorado pela mídia).

Quando Ghiraldelli (que aliás, continua na sua esclerose moral, tietando a Rachel na sua rede social) disse que torcia pelo estupro da mesma, em 2013, por que pouca gente (pra não falar ninguém) se preocupou se tal incitação eclodiria num aumento “endêmico” do machismo; ainda mais tendo vindo de um professor de uma das maiores faculdades do Rio de Janeiro? Será que a “princesa da barbárie” deixa de ser uma vítima do machismo, do qual as feministas tanto lutam para erradicar, por ser uma conservadora? Falando em machismo, em um país com fascistas(palavra atualmente empregada pra ser sinônimo de qualquer coisa que respire)como Datenas, Rezendes e Peixotos(que até emite opinião acompanhado de marchinhas militares ao fundo) ambos homens, nascidos no Centro-Sul, ver um monte de gente caindo SOMENTE em cima da Sheherazade me faz supor que quem a julga são “moçxs” machistas, misóginos e bairristas(devem odiar a moçx só porque ela é nordestina).

Já que a Rachel tem um poder de elocução a ponto de fazer casos de linchamentos crescerem só com um "Até compreensível", vamos suborná-la para que ela recite tudo o que há de ser feito pela nação para acabar com os problemas do Brasil! Pronto, estamos salvos.Me abstendo de qualquer interrogatório, deixo logo claro que não estou tentando defendê-la, até porque, ela já disse asneiras muito maiores (vide o comentário sobre a legalização da maconha no Uruguai, ou o comentário da visão do Brasil, visto do exterior) que merecem mais atenção, já que são muito mais eficientes para determiná-la como uma “reacionária intolerante”, logo, não precisam ficar apertando o mesmo botão sempre. Aglutinando a questão do maniqueísmo cultural, do mundo bifásico, monocromático e bipolar que está sendo criado pela mídia, chegamos ao ápice da dissonância cognitiva. Afinal, o que é mídia imparcial? Ela ao menos pode existir? Ao menos, existe a imparcialidade? Alguns realmente acreditam, que jornalismo bom é o jornalismo feito em cima do muro?

Para muitos dos defensores de um jornalismo transparente, o principal problema de mídias como a Globo, é sua parcialidade velada e vendida como imparcial. Mas, quando aparece uma “Sheherazade da vida”, assumindo a parcialidade não só da mídia, como de grande parte da população ainda conservadora, também reclamam (não que seja algo proibido reclamar, mas seria mais honesto admitir os reais motivos do “furor”). Oras, não era a parcialidade enrustida que fazia do órgão de imprensa, um PIG? Não era o “viés com véu” que diferenciava a grande mídia das demais? No final das contas, percebemos que a imparcialidade não existe no jornalismo, e caso existisse, numa suposição bem utópica, seria uma aleivosia com a própria consciência. As pessoas não buscam o imparcial, elas querem ouvir/ler/ver o que gostam de ouvir/ler/ver, e isso é totalmente natural. Constatamos também que, o problema não é que Sheherazade emita comentários conservadores na TV (o que não quer dizer obviamente que seja permissível qualquer discurso que afete os direitos humanos) e sim que não hajam, na mídia televisiva, jornalistas que possuam divergência opinativa à dela. O entrave nunca foi causado pela falta de imparcialidade, mas, sim, de diversidade midiática. O Jornalismo, não é como as redações escolares, em que o que está em foco, é sua variabilidade argumentativa e portanto, ser equitativo é quase inevitável. O Jornalismo têm um público alvo, logo, são criados diferentes jornais para as diferentes classes e estratos. Com a horda de narcisistas intelectuais da contemporaneidade, fica claro que a devoção ideológica é uma questão de inanidade. Há alguns dias, recordo que a mesma revista que publicou a informação do início do texto, publicou outra matéria com o título "O reacionário está na moda". E adivinha quem estampava a matéria?Sim, isso mesmo. Bom, se ser reacionário está na moda eu não sei, mas a Rachel está, e acredite, a moda da “jornalista” é alimentada pelos próprios críticos.