Como o Nazismo não pode ser de esquerda (e na verdade é bem de direita)

Em julho de 1932, a revista Liberty publicou uma entrevista feita por George Sylvester Viereck. O sujeito de sua matéria era ninguém menos que Adolf Hitler, líder do então Partido Nacional Socialista Alemão.

“Socialista”. Esse termo está gerando muita confusão atualmente quanto ao posicionamento do Nazismo no espectro político – será uma ideologia de esquerda ou de direita? Normalmente, seria consenso dizer que é uma corrente pertencente à extrema-direita, mas como estamos diante de uma situação onde isso está sendo questionado, vou provar novamente o posicionamento Nacional Socialista.

E como fazer isso? É mais simples do que parece. Olhemos simplesmente aos fatos da ascensão do Nazismo alemão e aos propósitos da ideologia, vindos diretamente da boca do próprio Führer.


Ao final da Primeira Guerra Mundial (1914–1918), a Alemanha encontrava-se num estado deplorável: milhares de civis e militares mortos, uma economia quebrada e um sentimento de vergonha que assombrou todos os cantos da nação. A recém-formada República de Weimar foi forçada a assinar o Tratado de Versalhes – uma série de medidas impostas pelos vencedores da Primeira Guerra à Alemanha, que foi taxada como a grande responsável pelo conflito. Essas medidas eram: proibir a Alemanha de desenvolver indústria bélica, proibir a Alemanha de ter um contingente de exército maior que de cem mil soldados, e obrigar a Alemanha a ceder suas colônias africanas à Inglaterra, França e Bélgica.

A República de Weimar foi marcada por sua enorme desorganização política e econômica: cidadãos passavam fome, as ruas eram palco para brigas e conflitos entre facções políticas rivais e a população alemã desenvolvera ideias de revanche, de ódio e frustração. Em meio a esse caos, um homem viu uma grande oportunidade.

Adolf Hitler organizou na região da Bavária o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei – o Partido Nazista. Hitler teorizou a ideologia do partido no seu livro Mein Kampf (Minha Luta) enquanto estava preso por tentar dar um golpe de Estado.

A ideologia nazista já foi chamada por muitos estudiosos como sui generis, tendo em vista que em seus discursos, Hitler atacava e criticava duramente tanto os ideais comunistas quanto os capitalistas. Uma matéria recente da BBC Brasil explicou o Nazismo como uma “terceira via” do espectro político (link: http://www.bbc.com/portuguese/salasocial-39809236).

Na teoria, Hitler e o Nazismo realmente não se identificam com a ideologia capitalista americana – especialmente porque a Quebra da Bolsa de Nova York em 1929 deixou a Alemanha numa depressão econômica gravíssima, onde o dinheiro era tão desvalorizado que servia mais pra substituir lenha na lareira do que pra comprar.

Na prática, porém, a ideologia nazista mostrou-se extremamente amiga do capitalismo e da propriedade privada.

Os grandes parceiros de Hitler durante o regime Nazista não foram Josef Goebbels, Herrmann Göring ou Heinrich Himmler, mas sim os donos das grandes indústrias e empresas alemãs e americanas.

Empresas como Volkswagen, Bayer, Siemens, Kodak, IBM, Ford, Hugo Boss e Coca-Cola tiveram um papel fundamental na organização e no funcionamento da Alemanha Nazista – desde a criação de automóveis e uniformes para o exército de Hitler até a construção de aparelhos e máquinas para a execução do Holocausto e a utilização de prisioneiros dos campos de concentração para trabalho escravo nas fábricas.

Além do mais, quando Hitler ganhou o título de Chanceler da Alemanha em 1933, uma das suas medidas iniciais foi extinguir os sindicatos, os contratos coletivos e o direito à greve. Foi criada a Deutsche Arbeitsfront, uma instituição que tinha como explícito objetivo “assegurar que todos os indivíduos pudessem realizar o máximo de trabalho possível”, com pouca ou nenhuma preocupação com o trabalhador e seus direitos. A DAF foi a única instituição trabalhista do regime, deixando os trabalhadores alemães presos no sistema nazista. Em 1934, uma Lei Reguladora do Trabalho deu plenos poderes aos donos de empresas e subordinação total dos trabalhadores a seus patrões. O segundo parágrafo da Lei diz: “o líder da empresa passa a tomar decisões pelos trabalhadores, em todas as questões relacionadas à empresa.”. (Fonte: http://spartacus-educational.com/GERlabour.htm)


Se o regime tomava medidas capitalistas, investia e dava poder ao setor privado da economia, por que o partido se chamava “Nacional Socialista”?

É aí que entra a entrevista de George Sylvester Viereck. Nela, o entrevistador pergunta a Hitler, “Por que você se entitula de Nacional Socialista, sendo que o programa do seu partido é exatamente o contrário daquilo que se normalmente relaciona ao socialismo?”

Hitler responde: “O Socialismo é a ciência de lidar com o vergão comum. Comunismo não é Socialismo. Marxismo não é Socialismo. Os marxistas roubaram esse termo e deturparam seu significado. Eu irei pegar o Socialismo e o tirarei das mãos dos Socialistas.”

“O Socialismo é uma antiga instituição Germânica e Ariana. Nossos ancestrais germânicos detinham o poder de certas terras em comum. Eles cultivavam a ideia do vergão comum. O marxismo não tem direito de se disfarçar de Socialismo. O Socialismo, diferente do Marxismo, não repudia a noção de propriedade privada. Diferente do Marxismo, não envolve nenhuma negação de personalidade, e diferente do Marxismo, o Socialismo é patriótico.”

“Podíamos ter nos chamado de Partido Liberal. Decidimos nos chamar de ‘os Nacional Socialistas’. Não somos internacionalistas. Nosso Socialismo é nacional. Demandamos que o Estado realize os pedidos das classes produtoras por uma solidariedade de raça. Para nós, Estado e raça são uma coisa só.”

(Fonte: https://amp.theguardian.com/theguardian/2007/sep/17/greatinterviews1)


Para ressaltar ainda mais a distância da ideologia Nazista do espectro esquerdo da política, é mais do que necessário lembrar que: o Partido Nazista fechou os partidos de esquerda da Alemanha, perseguia comunistas e socialistas, invadiu a União Soviética e tinha como objetivo livrar a Europa do “Bolchevismo Judaico”.

(Esse era o nome dado à crença de Hitler e dos Nazistas de que o comunismo, o bolchevismo e o marxismo são criações judaicas, e de que a Revolução Russa de 1917 foi um plano especificamente desenvolvido por judeus com objetivo de dominar o mundo.)

Em 1933, houve um incêndio no Reichstag, o Parlamento alemão, fato que foi prontamente apontado pelos Nazistas como uma tentativa de golpe de Estado armada pelos comunistas. Com essa premissa, Hitler ganhou poder dentro do governo do então primeiro-ministro Von Hindenburg, eventualmente tornando-se Chanceler, e o resto é história.

Abaixo vemos um gráfico de mortes no Holocausto divididos em grupos. Aproximadamente 38% das mortes foram de comunistas, Soviéticos, marxistas e socialistas. Também vemos imagens de propaganda anti-comunista divulgada pelo regime Nazista.

Muitos argumentam que o Nazismo era de esquerda por causa da alta interferência estatal na vida das pessoas. E, de certa forma, há verdade nisso – o Regime Nazista exercia controle estatal. Porém, esse controle era sobre o aspecto social, não no econômico. Ultra controle estatal sobre o aspecto social caracteriza o totalitarismo, não o comunismo, ou a ideologia política da esquerda.

Então, para que não haja mais dúvidas – o Nazismo não é de esquerda, muito menos comunista. E todas as suas correntes, seja ela a Supremacia Branca, os skinheads, NeoNazistas ou os alt-right, também não são de esquerda nem comunistas.

O Nazismo é a forma mais extrema da direita no espectro político, junto com o fascismo. Todos aqueles que negarem isso não estão emitindo opinião, mas sim negando a verdade e negando os fatos.