A esperança traduzida

Haitianos que migraram para o Brasil e buscam apoio em centros religiosos para inserção no mercado de trabalho

Foto: Saulo César Tafarelo

Os dias são calmos no número 222 da Rua Monsenhor Venerando Nalini. Terça-feira, três e meia da tarde, e a sala está vazia. Gephte Obdeus, 33 anos, é o primeiro aluno a chegar. Sem levantar os olhos do chão, ele conta que veio do Haiti com mais dois irmãos depois de um terremoto destruir a casa onde moravam, e está no Brasil há mais de nove meses. “Apesar de ainda estar desempregado, a vida é melhor e mais segura aqui no Brasil, por isso eu pretendo ficar”, ele relata, com dificuldade para falar português.

Os outros alunos vão chegando aos poucos, tímidos. Alguns estão ali pela primeira vez, outros já frequentam as aulas de português há quase um ano. Islande Möise, migrante haitiana de 26 anos, chega com uma hora de antecedência. “Não vai ter foto minha, certo?”, ela pergunta, ainda insegura, ao se sentar. Com a bolsa apertada junto ao colo e sem tirar os olhos das mãos, ela conta que é casada e formada em enfermagem, mas desde que chegou ao Brasil, no dia 13 de janeiro deste ano, abdicou da sua paixão e passou a procurar por vagas de emprego em qualquer área.

Localizado no Bairro da Colônia — fundado por imigrantes italianos residentes de Jundiaí no final do século XIX -, o Centro Scalabriniano de Promoção do Imigrante recebe desde 2013 grupos de haitianos e oferece gratuitamente aulas de português, além de cursos de panificação, artesanato, corte e costura, informática, confeitaria e manicure, tanto para os estrangeiros quanto para jovens em situação de vulnerabilidade social. O centro também ajuda os migrantes a conseguir documentos, regularizar a situação no país e a escrever e enviar currículos.

“No Haiti é perigoso sair de casa depois das seis da tarde. É quase como um toque de recolher”, conta Islande. Ela também relata que lá o ânimo das pessoas era muito exaltado, o ambiente violento demais e que se sentiu acolhida assim que chegou em São Paulo. Ela migrou para o Brasil a fim de reencontrar o marido, que está no país há mais de um ano. “Foi muito doloroso para mim passar o nosso aniversário de casamento sozinha, e seguir a vida lá estava muito difícil”. Assim que ele conseguiu um emprego fixo na rede Casas Bahia, ela veio acompanhada de primos e primas que também buscam melhores oportunidades.

Foto: Saulo César Tafarelo

Antes de entrar todos se reúnem na cozinha para comer e tomar café. A conversa que antecede a aula é descontraída e em língua crioula haitiana, derivada do francês. Durante todo o tempo, irmãs scalabrinianas, voluntárias que mantêm o centro, passam pelos corredores dando apoio e conversando com os imigrantes. A professora Fátima chega pontualmente às quatro e meia. Chama os alunos para entrar, pede para que todos guardem os celulares e distribui lápis e papel.

Nas aulas, que duram em média uma hora, a professora e os alunos trabalham as palavras de cada letra do alfabeto e seus significados são discutidos em português, crioulo, francês e inglês. Ela conta que uma das maiores dificuldades é que as turmas são fluidas, “todos os dias aparece algum aluno novo e eu tenho que começar do zero. Os que já estão mais avançados acabam assistindo a mesma aula várias vezes e desistem do curso”, completa.