Chicão, do Cometa

Por Raphaella Salomão.

“O ônibus tá atrasado, né? O seu também é 8h40?”, perguntou um senhor alto e grisalho, de mala preta na mão, ao encostar-se à parede. O relógio da garagem do Cometa marcava 8h35 e o ônibus certamente encostaria antes do final da conversa, então dei risada e comentei que eles sempre chegam em cima da hora mesmo. “O ar dentro desses ônibus é muito ruim, você não acha? Eu não consigo ficar por muito tempo sem pensar que o ar vai acabar. E se acabar, o que acontece? Vai todo mundo morrer sufocado, aí eu quero ver!”, ele disse, muito assustado com a possibilidade, e puxou para cima e para baixo a gola do seu moletom largo e cinza, assoprando dentro da blusa. Depois apontou para as duas janelas superiores pequenas que são da saída de emergência e, indignado, disse que “esse povo não liga mesmo pra gente, você acha que uma janelinha daquelas vai dar conta de ventilar um veículo com quarenta pessoas, menina?”.

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Chicão, fui descobrir depois, é um velho e assíduo frequentador de
rodoviárias. Ele tem um costume antigo de viajar para Aparecida “do Norte”,
apesar da enorme desconfiança que tem com os ônibus: ele vai de Jundiaí até o Terminal Tietê e de lá compra mais uma passagem até o seu destino final. Sua parceira de viagem era a esposa, de quem se recorda ao falar com muito amor e respeito, mas depois que ela faleceu, há alguns anos, ele decidiu continuar a tradição sozinho. “Uma vez… Menina, faz muitos anos! Uma vez eu estava dentro do ônibus para Aparecida e um casal de idosos, bem na minha frente, abriu uma marmita com muito alho e cebola. Eu não sei o que mais tinha ali, mas certamente vinha com muito alho e cebola”, contou. Chicão me confessou ter passado mal a viagem toda e disse que certamente não aguentaria até o final, não fosse o sal de fruta que a esposa levava na bolsa, “ah… ela sim me conhecia muito bem”, completou.

Disse não saber ao certo qual era o seu problema com alho e cebola,
mas que sofria desde pequeno. “Uma vez, na firma em que eu trabalhava,
fizeram um patê e colocaram escondido alho bem, bem picadinho”, ele
continuou, demonstrando na palma da mão como supostamente foi o processo. Chicão adorou o petisco e quase acabou com as torradas que foram servidas, tamanha era a sua fome — e também a sua inocência. Ao final da
confraternização, quando ele já começava a se sentir desconfortável, um dos
colegas confessou a brincadeira, ao que Chicão riu e disse que podia ter sido
enganado, mas que o seu estômago jamais se confunde. “Eu arrotei o dia
inteiro e metade do seguinte, menina”, disse, e me olhou como quem acaba de
confessar um segredo a um cúmplice.

Chicão, que certamente tinha claustrofobia — ou algo bem próximo disso — , sentia muita falta da esposa. Puxava assunto e deixava um pouco da própria vida com a primeira pessoa que cruzasse o seu caminho num raio de aproximadamente cem metros. Dei sorte. Ao que subimos para o ônibus, fui para a poltrona 33 enquanto Chicão já engatava um novo assunto com o motorista.

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