Cicatrizes que contam histórias

Histórias de mulheres que lutaram contra o câncer de mama e os desafios do processo de recuperação

Por Maurício Abbade e Raphaella Salomão.

“Minha autoestima sempre foi super baixa, e depois do câncer, embora eu tenha ficado sem peito, cheia de cicatriz e tendo engordado mais de 30 kg no período de tratamento e pós-tratamento, eu me sinto muito mais mulher do que eu era antes. Eu não sabia que eu era forte desse jeito”, conta Tati Fadel, professora de redação e youtuber, de 44 anos. Ela foi uma dentre as 1,7 milhões de mulheres diagnosticadas com câncer de mama no Brasil em 2012.

Apesar de ser um dos tipos de câncer mais incidentes nas mulheres, atingindo 25% do total, diagnósticos feitos no primeiro estágio da doença garantem em média 88,3% de sobrevida, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A advogada Regina Gregório, de 55 anos, descobriu um câncer em 2016, logo no início. “É um tratamento muito longo, cansativo e invasivo. Ficar sem cabelo, com o corpo inchado, não conseguir andar direito e ter dores no corpo é muito limitante. Tem dias em que você não quer nem olhar no espelho, você vê outra pessoa no reflexo. Muda tudo, é muito difícil. Mas depois da cirurgia eu passei a me sentir melhor. Tem cura”, conta. Exames regulares, observação constante e acompanhamento médico comprovadamente aumentam as chances de vida, afirma Gustavo Zucca, oncologista do Hospital do Câncer de Barretos. “Quanto mais precoce é feito o diagnóstico, menor a chance da lesão invadir vasos sanguíneos ou linfáticos e enviar células para outras partes do corpo, ou seja, metastizar”, completa.

O tratamento depende do estágio e do tipo da doença, podendo envolver quimioterapia, radioterapia e processos cirúrgicos. Esses procedimentos médicos têm diversos efeitos colaterais, como queda de cabelo, náuseas, dores, fadiga, e a perda da mama em si. E parece ser nessa etapa que cada paciente sente realmente possuir sua própria e única experiência. Protocolo universal (Lei 12.802), o Ministério da Saúde indica a reconstrução da mama logo após sua retirada por acreditar que as cicatrizes ou a ausência da mama gera um choque muito grande na mulher operada. Porém, a escolha de colocar uma prótese após a mastectomia, assim como realizar cirurgias plásticas reconstrutivas, cabe somente a mulher sob tratamento. Silvana Bighetto, de 50 anos, descobriu um câncer em 2010, fez a cirurgia de retirada e ficou por um ano com um expansor, suporte que fica embaixo da pele e é preenchido de quinze em quinze dias para dar o formato do seio. A sua pele, porém, rompeu e inflamou com a prótese, então Silvana escolheu retirá-la, “eu preferi ficar viva do que sofrer com isso”, conta.

“Eu posso contar essa história de duas maneiras: a primeira é que sou uma mulher mutilada. A segunda é que sou uma Amazona, e elas retiravam os seios para facilitar o manejo do arco e flecha. Eu prefiro ser uma Amazona.” Tati Fadel, 44 anos.

Fios de Cabelo

O maior impacto que as mulheres sofrem quando começam o tratamento é a queda dos cabelos. Margareth Saburi, 52 anos, atua como auxiliar de farmácia em Campinas e relata que “a única coisa que mexeu comigo e que me fez sentir que estava doente foi o cabelo. Não foi a perda do cabelo, foi a queda do cabelo. Você se olhar no espelho, sem cabelo, dá uma sensação de desespero”. Muitas mulheres escolhem utilizar a peruca, como conta Silvia Rojas, de 69 anos. “Eu tinha medo das pessoas perguntarem [se eu tinha câncer], por isso comprei uma peruca totalmente idêntica ao meu cabelo”. Ao mesmo tempo, o compartilhamento de relatos é muito importante para que outras mulheres possam seguir em frente, como conta Mari Lucia Cassanjes, funcionária pública de 64 anos. “Na mesma época em que eu tive câncer, a Ana Maria Braga também teve. E ela, antes de fazer a quimioterapia, tinha pedido várias perucas. E falou: ‘gente, eu mandei fazer um monte de peruca, mas não vou usar nenhuma. Enquanto eu fizer quimioterapia, vou aparecer desse jeito’. Aí eu pensei: ‘A mulher está na televisão, sem cabelo, com o Brasil inteiro assistindo. Por que eu, que sou uma simples Mari Lucia, vou precisar esconder isso? Eu não vou esconder”.

Cobrindo a cicatriz com arte

Um outro meio de recuperação de autoestima e apoio às mulheres que vem se tornando muito comum é a tatuagem de reconstrução de aréolas mamárias. O processo de cobrir a cicatriz com uma tatuagem é praticamente o mesmo de uma tatuagem comum, com algumas ressalvas, como a necessidade de um cuidado maior durante o processo, de agulhas e técnicas específicas e de que a velocidade do aparelho seja menor do que a de um aparelho no processo de uma tatuagem comum. Miquelangelo do Carmo, que realiza este trabalho de forma gratuita há dez anos, enaltece o surgimento da técnica de tatuagem em 3D que consiste na utilização de sombras e luminosidades diferentes para dar um efeito que Miquelangelo afirma ser muito semelhante a realidade, entretanto, não é a única forma de criar relevo já que no momento da cirurgia plástica para implementação da prótese de silicone, é comum que mulheres peçam para que o médico faça um pequeno “nó” para simular o bico.

Processo gratuito de reconstrução da aréola mamária através da micropuntura realizado pela tatuadora Bárbara Ink.

A economista e professora de alemão, Ana Tereza, de 67 anos, descobriu um câncer em 1996. Ela foi a quinta mulher de sua família a receber o diagnóstico e, após sessões de radioterapia e acompanhamento, se recuperou, até que, em 2013, durante uma mamografia, ela descobriu um novo nódulo na mesma mama. “Ter câncer de mama uma vez já é bastante traumático. Ter duas vezes, nem sei como explicar. Mas eu realmente queria ter a minha mama com um aspecto mais “normal”, dentro das possibilidades, claro”, conta. Passados seis meses da operação de retirada da mama, ela realizou uma cirurgia para refazer o mamilo, entretanto, Ana Tereza relata que o bico do seio ficou muito uniforme, sem cor e sem a aréola. Desde então ela começou a procurar por tatuadores que realizavam o processo de micropigmentação. “A tatuagem me devolveu a autoestima e não me arrependo em nenhum momento de ter tomado essa atitude. O resultado é muito realista e eu realmente fiquei feliz com ele. Para completar, eu resolvi fazer uma nova tatuagem cobrindo toda a cicatriz da mama, onde foi colocado o implante de pele. Ficou incrível!”

Além de todo o cuidado, é também necessário um laudo médico que explique qual era o tipo de câncer e por qual tipo de cirurgia essa mulher passou. Bárbara Ink, tatuadora curitibana que realiza este projeto voluntário já faz dois anos, diz que essas informações fazem toda a diferença. Ela conta que esse processo demora em torno de quatro a cinco horas e meia, relativamente mais do que o tempo de duração de uma tatuagem normal. Barbara reserva suas segundas-feiras para realizar este trabalho e entre as inúmeras reações que as mulheres têm quando passam por este processo, a mais recorrente é a de choro pois “é uma emoção de perceberem que elas sobreviveram e que estão na etapa final dessa história. É mistura de choque com surpresa, pois elas não imaginam que vai ficar tão real, e fica” afirma Bárbara.

“No dia em que eu fazia a quimioterapia, iam mais de 40 pessoas, a maioria mulheres com câncer de mama. Dava pra conversar. Você se identifica ao chegar e ver todo mundo carequinha. Eram muitas e tinha muito companheirismo, a gente sabia o que cada uma estava passando. E também teve outras com quem eu conversei que estavam saindo do tratamento, que já estavam sarando, se curando. Então você começa a ficar otimista.” Regina Gregório, 55 anos.

O intercâmbio de experiências entre mulheres com trajetórias em comum é agente fundamental no processo de superação, já que há empatia, como conta Tati Fadel, professora de redação e youtuber de 44 anos. “Uma parte muito importante para a resistência é escutar a história de outras mulheres que passaram pelo mesmo que você. É escutar estas histórias que te fortalece”. E também há aquelas que veem algo de positivo ao final do tratamento, “a vida é um corre-corre, e após o câncer eu descobri que eu não quero mais isso, não quero mais essa vida corrida.”, finaliza Margareth Saburi.