O último encontro

Por Raphaella Salomão, Renan Porto, Samanta Nakamura e Saulo Cesar.

Eram nove horas da noite de um domingo e Bianca, na frente do espelho, se arrumava. Mas a maquiagem já não disfarçava seus olhos inchados e as cicatrizes do ofício. Ela não tinha tempo. Saiu de casa correndo. Os calafrios denunciavam o frio da noite, para o qual não estava preparada de mini-saia e tomara que caia. Levava em sua bolsa apenas o necessário: as chaves de casa e um batom vermelho.

Foram vinte minutos de caminhada, assobios e cantadas sobre seu salto de quinze centímetros pelas vielas escuras e acidentadas do centro. O atraso rendeu-lhe um murro e cinquenta reais a menos. Nada que doesse mais que a sua miséria. Quando a porta se fecha, a dor fica para trás. Empurrada para a cama, brutalmente despida, a mão áspera e pesada apalpando seu corpo. Ele enquanto bicho, ela enquanto coisa. Ele frenético, ela imóvel. Ele embriagado, ela letárgica. Deitada na cama, seus sonhos não existem mais. Enquanto se limpava já pensando no próximo cliente, seu pagamento foi jogado na mesa ao lado da porta da rua.

Entrando em casa, no ápice da madrugada, o gigolô a esperava impaciente, apoiado na janela, enquanto tragava seu último cigarro. A luz fraca do ambiente não permitia que Bianca visse sua feição, mas o clima pesado da sala já denunciava a tensão iminente. Ao entregar o dinheiro do último encontro, os cinquenta reais a menos lhe renderam outro murro.

Mal teve tempo de se levantar e o próximo cliente já batia na porta. Entrou quieto e observador, atento aos mínimos detalhes. Subiram a escada, enquanto ela falhava na tentativa de seduzi-lo. Sentou-se na cama, acendeu um cigarro. Correu os olhos pelos móveis e parou em Bianca, analisando-a friamente. Puxou sua mão e pediu para que sentasse ao seu lado, causando estranhamento ao perguntar o seu nome. Bianca. Rômulo. Mas, de tão cansada da exaustiva rotina e anestesiada pelos últimos acontecimentos, em poucos minutos entraram em uma longa conversa sem que ela se desse conta.

A porta abriu-se repentinamente, escancarada pelo gigolô, que gritava, anunciando o fim daquele programa e mais um atraso de Bianca. Sem que tivessem tido relações sexuais, o cliente entregou o pagamento nas mãos dela e deixou o quarto. O último encontro do dia chegava ao fim.

Terminando de contar o dinheiro arrecadado pelas meninas da casa, o gigolô saiu para comprar mais um maço de cigarro. Tudo corria como previsto: os quartos estavam ocupados e o dia já amanhecia. Ao voltar para o seu prostíbulo, deu de cara com Rômulo – que já deveria ter ido embora, revirando as tralhas que ocupavam a sala. Ao ser surpreendido, fez-se de bêbado e cambaleou até a porta, ignorando os xingamentos do cafetão.

Interrompida novamente, Bianca levantou-se assustada da cama. Vestiu a roupa que estava separada no canto do quarto, pegou sua bolsa e saiu para mais um compromisso. O sinal bateu enquanto cruzava os portões da escola.

QUADRILHA QUE ALICIAVA MENINAS MENORES DE IDADE PARA PROSTITUIÇÃO É PRESA EM SÃO PAULO

Na noite do último domingo (21/05) o jornalista Rômulo Bezerra reuniu as últimas evidências necessárias para comprovar o esquema organizado de prostituição de menores na região do centro de São Paulo. Fruto de uma investigação que levou mais de três meses, ele obteve acesso ao prostíbulo e conseguiu o depoimento de uma jovem de 14 anos, há mais de um ano já explorada. Nove meninas foram resgatadas e há informações de que outras três estavam fora de casa no momento da prisão. Segundo documentos encontrados até agora no local, o chefe do esquema já conseguiu mais de trezentos mil reais às custas da exploração das meninas. Ele foi preso e será julgado em breve.”