Eu te odeio*

Eu só queria te dizer que hoje foi o dia em que eu joguei tudo fora. Tudinho.
Sim, depois de você me jogar para fora da sua vida, o mais justo era eu jogar você pra fora da minha, certo?

Não adianta passar aqui semana que vem ou quando der. Não restou nada nada. Nenhuma das suas porcarias cobrem se quer um metro quadrado do meu apartamento. O mesmo apartamento que uma dia foi o nosso apartamento.

Você tá me ouvindo? Eu joguei tudo fora. Sem dó.

Joguei fora as roupas que você esqueceu, mal dobradas como sempre, na canto esquerdo do armário. O seu canto.

Joguei fora sua escova de dente, sim, aquela Curapox de 20 reais, cara pra caralho, como você vivia falando. E aquela maldita Colgate White, toda dobrada porque você tinha preguiça de ir na esquina comprar uma merda de pasta nova, foi junto.

Joguei fora as musicas da nossa playlist. Nada de Caetano, Gal, Gil ou Maria Bethânia. Nada de Novos Baianos ou Tim Maia. Agora e só agora, você tem razão. Eu não escuto você.

Agora posso entrar na Netflix sem dar de cara com seus filmes cults e diretores suecos. Que alívio voltar a ver filmes em cores.

Joguei fora seus queijos diferentes e seus produtos sem glúten. Joguei os livros pseudo intelectuais que te dei de presente e você nunca leu. Sua cerveja favorita também saiu de casa. Mais gelada do que você. Foram três, na verdade, que ocupavam minha geladeira desde aquele dia.

Joguei fora o barbeador elétrico- novinho, bem feito — e também aquele perfume da Tommy que sempre me fazia espirrar. Nossa, como eu odiava esse perfume.

Eu joguei tudo fora. Nossos dias juntos e nosso primeiro beijo na chuva.

Joguei fora seu sorriso meio torto, sua mania de fazer careta na foto, suas tatuagens e o hábito de acordar cedo aos sábados.

Joguei fora nossa dança no casamento do seu primo e nosso jantar à luz de vela naquela semana em que me mudei.

Joguei fora nossas brigas, nossos silêncios. Joguei fora a sua crise de ciúme e minha insegurança nas suas viagens de trabalho.

Joguei fora seu abraço apertado. No embalo, joguei fora seu perfume favorito e a segurança de poder chorar no seu colo. Não quero mais nada que lembre você.

Eu juro, foi tudo embora. Seus beijos, seus carinhos, suas fotos, suas mensagens, seu toque, seu olhos, seu cheiro.

E depois de jogar tudo fora, só sobrou uma coisa: o vazio de não ter mais nada seu por perto.

*título e texto inspirado pela música: Eu Te Odeio — Carne Doce

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