Manual de Sobrevivência do Hipster

Olhe para um lado. Agora olhe para o outro. Você pode ter acabo de avistar um deles. Sim, os hipsters estão entre nós. Em toda feirinha, todo restaurante com gourmet ou lab no final, toda restaurante conceito/loja de vinil. Todo food truck superfaturado, toda loja de design com coisas que não são úteis de verdade. Em festa de rua com a comida típica um país que eles nunca foram e nem vão mas acham legal homenagear, tipo Ucrânia ou Nepal. Você há de encontrá-los nessa vida, se é que já não os encontrou no habitat natural deles: agências, produtoras, galerias e floriculturas que entregam flores de bicicleta (mas só bicicletas de rodinhas)..

Já ouvi dizer que sou um deles. Não lembro onde foi. Talvez numa festa de despedida para um colega de um colega que iria pra Islândia ou na exposição de um diretor de arte que chama suas pinturas com canetas importadas de R$ 100,00 de hobby. Talvez não, provavelmente sim. Mas como existem sub culturas piores (skinheads e ciclistas noturnos, eu estou olhando para vocês), achei melhor fazer um guia de sobrevivência hipster. Desse jeito, quem quer ser um, sabe por onde começar. E quem já é, espero que encontre novos jeitos de sobreviver. Aqui vai:

. Esteja sempre de casaco. Sempre.

Piriguete não sente frio e hipster não sente calor. É mentira. Hipster sente calor para caralho mas eles ou são gordinhos ou extremamente magros. O que isso quer dizer? Quem é magro, tem pouca gordura e sente mais frio. Já os gordinhos? Bem, casaco dá mais estilo que aquela camisa apertada da Conto Figueira.

. Não volte pra casa sem um vinil.

Vinil para hipster é como flor para mulheres. Elas conhecem todas e já ganharam várias. Mas uma mulher adora receber flores. Um hipster adora receber um vinil. 
Então, sempre que der, volte pra casa com um vinil e agrade o seu hipster interior.

. Faça tudo com as próprias mão.

Tudo e eu digo tudo. Faça seus móveis e seus próprios tenis. Tenha uma horta com seus temperos e bata sua própria punheta. Só assim você se pode auto proclamar independente, um verdadeiro artesão do novo século.

. Compre uma fixa.

Bote na sala de casa e instagrame o quanto quiser.

Obs: Aprender a andar é opcional mas ajuda a chegar mais rápido no corujão de filmes do Jim Jarmusch no Belas Artes.

. Adote um animal. Mas não qualquer um.

Todo mundo tem cães, todo mundo tem gatos, todo mundo tem pássaros. E por alguma mania bizarra, várias pessoas já tem porcos. Você não. Prefira animais com nomes estranhos ou compostos, como:

Gazela-girafa, dugongo ou Rato-toupeira-pelado.

Mas caso você tenha um animal, digamos, normal, como cão ou gato, ele tem que ter uma mania bizarra, tipo um cachorro que abana o rabo quando toca Por isso eu corro demais do Roberto (mas não abana na versão da Adriana Calcanhotto) ou um gato que só dorme depois que você lê Murakami em voz alta com um sotaque carioca.

. Likes mostram força

Likes são o sistema monetários do hipster. Não importa quanto dinheiro você tem no banco (até porque, hispter não acredita em banco), importa quantos seguidores vocês tem. E ah, não é seguidores. É followers. Se pronuncia com o “fôloêrs”, como se você estive chupando as bolas do dono do perfil que você está se referindo.

. Não existe Deus, mas existe Wes Anderson. E Kanye West.

Louve Wes Anderson, Aquele que faz tudo ficar assimétrico. Fale bem dos filmes deles, inclusive dos primeiros. Tudo bem não gostar do Moonrise Kingdoom, mas falar mal do Hotel Budapeste é cavar a sua própria em algum cemitério escondido da Vila Madalena, dos mesmos donos do Pita Bar. Louve também Kanye West. Falem bem dos seus shows, das suas músicas, dos seus tweets, foda-se, faça uma cerveja artesanal e chame de Pale Westale ou IPA Ki-Yeezus mother-fucker.

. Você não diz quem você é. Sua roupa diz quem você é.

Essa é a parte mais importante. Você tem que ser diferente, mas não estranho. Seja descolado, mas não seja estranho. Use casaco no calor e regata no frio. Prefira camisas com frases em inglês com uma piadinha, mas não frases estranhas. Se for mulher, use brincos maiores que a orelha. Se for homem, a mesma coisa. Enfim, não seja estranho.

. Festival sem coroa de flores não é festival.

Não se atreva a aparecer num Lollapalooza sem sua coroa de flores. Mesmo que for para um show da Pitty. Se você se perder da matilha, eles tem algo pra te identificar.

Ganha mais pontos se cultivar as próprias flores em casa (vide faça tudo com as suas mãos).

. Tenha um projeto paralelo. Não importa qual.

Você faz miniaturas de jetsky famosos assinados pelo seu pai enquanto ele dorme? Excelente. Você grava os sons que suas tartarugas fazem ao andarem em cima do seu violão e chama de música? Maravilha.
Dane-se qual for o projeto, desde que você tenha um. Isso faz você parecer descolado, além do que, um eventual apocalipse é o único momento em que vai ser útil saber fazer móveis de madeira para casas de João de Barro.

. Nunca ande sozinho.

Você sozinho é só um estranho. Você ao lado de um grupo de hipters, é isso, um grupo de hipsters. E afinal, se fala hipsters ou hispsteres? Ou será que hipster falar hipsteres? Vou esperar do lado de fora de um restaurante de comida afrochinesa brasileira, com um chef que já foi publicitário para ver se tiro essa dúvida com os hispters. Ou hispteres.

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