O que o surf ensina sobre os nossos fracassos

Eu ainda não sei surfar. Nem sei se um dia vou aprender. Meu equilíbrio parece não concordar com a minha vontade. Mas depois de me interessar pelo esporte, percebi que ele pode ensinar muita coisa sobre a vida. É só encaramos as quedas da vida do jeito que os surfistas encaram as quedas das ondas.

Eu sei, parece papo de surfista maconheiro, mas não é. Pensa comigo. Imagina que as ondas são uma das várias coisas que podem acontecer com a gente. Coisas que, como as ondas, vão passando e a gente se prepara pra conseguir subir nelas.

E a gente quer pegar todas as ondas. A gente quer ser foda. Ter o melhor trabalho do mundo, o melhor salário. O melhor relacionamento, os melhores amigos, as melhores noites na balada. Tudo tem que ser foda. Mal há espaço para fracassos, decepções e dias ruins.

Só que é impossível pegar todas as ondas e mais impossível ainda — se é que existe o “mais impossível” — acertar todas que pegamos. Coisas ruins vão acontecer e você vai cair da onda. A onda parece tão boa e de repente, no meio dela, a gente cai. E é aqui que vem, na minha opinião, o que surf me ensinou em relações aos fracassos e as quedas. Quando algo dava errado e eu caia da “onda” — fim de namoro, trabalho ruim, briga com amigos, enfim, coisas da vida — eu ficava preso dentro dela, girando, girando. Eu reclamava de tudo, dizia pra quem queria ouvir que a vida é injusta, que nada dá certo e blá, blá, blá.

Mas o que os surfistas dizem quando você cai de uma onda é que você deve esperar. Não adianta lutar contra ela. O desespero só faz você gastar energia e continuar preso lá dentro. Ou seja, gastar energia com as coisas erradas — pessimismo, reclamação, etc — só dá o resultado, quem diria, errado.

O segredo, eles dizem, é esperar que a onda passe. E depois que ela passa, você pode subir pra superfície e respirar de novo. Na vida, é o mesmo. A gente deveria abraçar os problemas mas sem deixar eles nos consumirem e nos afogarem. Sim, é totalmente justo e aceitável ficar triste, chorar e até ficar em casa por um tempo. A gente pode cair, só não pode ficar embaixo do mar.

É a versão surfista daquele velho ditado tem muito peixe no mar. Mas aqui é tem muita onda no mar.

É normal as coisas darem errado. Faz parte. Quando temos sorte, as ondas boas duram mais que as ruins. Às vezes, são as ondas ruins que duram mais. Mas uma coisa elas têm em comum: ambas passam. E tem centenas, milhares de outras ondas vindo na nossa direção. Novo emprego, novo namoro, novos amigos. Uma viagem, uma casa nova. Um reencontro. A gente não tem controle sobre alguns do problemas da nossa vida. Mas temos sim controle sobre como encaramos esses problemas quando eles acontecem.

Por isso, a gente tem que aproveitar quando estamos em cima da onda, porque ela vai passar. Do mesmo jeito, vale a gente não se desesperar quando estamos preso dentro dos nossos próprios problemas porque eles também passam. E quando eles passam, a gente pode nadar pra superfície, respirar de novo, ver o sol e se preparar para próxima onda.

Porque ela tá vindo.
E vai ser foda.

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