Tinder e o Fim do Romance

Uma casal se encontra em um restaurante. Ele pede a paleta de cordeiro com purê de batata doce, ela, um salmão com ervas. Dividem um vinho mas a conta ele não deixa. Saem do restaurante pra casa dele, só para “continuar a conversa”. Chegando lá, eles transam e dormem de conchinha. Acordam de manhã, transam de novo. Ela vai embora e os dois nunca mais se vêem.

Encontros como esse vem acontecendo cada vez mais, graças a aplicativos como Tinder, Happen e Kickoff. Já o romance, como nossos pais conheciam, ah, esse está morrendo bem na nossa frente. Respira por aparelhos. As pessoas estão usando esses apps não para se apaixonarem mas apenas para não ficarem sozinhas.

As pessoas acreditam que ficar em casa vendo filme um filme no Netflix é sinal de estar na bad, de que elas não tem com quem sair, que ninguém gosta delas. Olha, se nem você se gosta o bastante para passar duas horas vendo um filme com você mesmo, porque os outros iriam passar tempo com você?

Somado à isso, existe o medo de se machucar. Ninguém quer quebrar o coração. Eu entendo, já quebrei o meu mais de uma vez com mais de uma pessoa e não foi legal. Agora, fechar o coração para não quebra-lo é evitar perceber que você tem um coração. Que bate, que ama, que sofre, que quebra e que vai fazer isso várias vezes ao longo da vida. Vai por mim, se apaixonar é legal. Já me apaixonei e por mais de uma pessoa e valeu a pena. As pessoas andam desistindo muito fácil da chance de ganhar pelo medo de perder.

Acontece que os encontros desses apps não são motivados pela vontade incontrolável de ver alguém. Aquela que faz você chegar meia hora antes do combinado e esperar 20 minutos no açaí da esquina e comprar um chiclete pra disfarçar. Não é isso. As prioridades se inverteram. As pessoas querem ir ao bar. Com alguém. Não querem ir, com alguém, ao bar.

Por isso, as conversas desses encontros nunca se aprofundam. São todas rasas. Pense na ultima pessoa do Tinder com quem você saiu. O que você sabe sobre ela? O que você sabe realmente sobre ela? Onde ela trabalha? Qual faculdade ela fez? Foi a primeira opção? Os pais são separados? Ela tem irmãos? Ela se dá melhor com o irmão ou com a irmã? O que os pais delas fazem da vida? Daft Punk ou Chemical Brothers? Ela já quebrou o dedo quando criança? Já morou em outra cidade? Qual o chocolate favorito dela? Ela, se quer, gosta de chocolate? Ela assiste Master Chef? Não há um interesse sincero na pessoa. O cara não leva a garota no restaurante favorito dela. Leva no restaurante que fica perto da casa de um dos dois, o que facilita o sexo pós primeiro encontro. Dão flores não para ela abrir o sorriso, e sim para abrir a calça.

O romance está morrendo e agarrado a ele, o gesto de carinho. Afinal, como mostrar carinho por uma pessoa com quem você só quer transar? E não confunda pequenos gestos como pagar a conta, abrir a porta e fingir interesse no trabalho da pessoa. Eles são como os captchas da internet. Testes pra ver se a pessoa é humana. Pra mostrar pra outra pessoa que ele não é um completo babaca e que por isso, é ok transar com ele. O romance virou uma vitrine onde você escolhe quem vai levar para cama hoje. Não, é pior que isso. É como comprar online, mas o produto vêm sempre no tamanho errado. Estamos nos apaixonando por fotos ao invés de nos apaixonarmos por pessoas, mesmo todo mundo sabendo que o Big Mac nunca é igual ao da foto.

Esses apps fazem parecer que existem milhares de opções e que é só ir trocando. Qualquer espiada no Tinder do amigo revela 10, 20 combinações. Planos A, B, C, D, E, o alfabeto inteiro. Você se acha descartável? Então por que julgar que o outro é? Apertar next ficou mais fácil do que apertar pause e tentar consertar. Aposto que hoje as pessoas atendem a mais divórcios do que casamentos, só não postam no Instagram com a #divorcioLueRo. Se tivessemos só uma opção, como No L’Entrecotê de Paris, seria fácil. Quando temos opções, ficamos confuso. Parece que sempre escolhemos errado e o prato do amiguinho parece melhor. Acabamos querendo provar outros pratos do cardápio. Inclusive o do amiguinho.

Não é a toa que mulheres se apaixonam por casais de filmes românticos e por Dereks e Merediths que fazem uma planta baixa da casa deles com velas. Romance virou apenas um gênero no Netflix. Se How I Met Your Mother fosse nos dias de hoje, teria um episódio de cinco minutos. “Bem, crianças, eu vi a foto da sua mãe, deu match. A gente foi no cinema, ela deu na primeira noite e vocês nasceram.”

Já meus avôs, casados por mais de 40 anos, se conheceram em uma festa junina. Voltando para casa, fogos de artificio explodira no ar. Sem perder tempo, meu avô, galanteador, já soltou um: “Esses fogos são para comemorar que a gente se encontrou”. Qual foi última cantada que te deixou sem ar? Cantada, não xaveco de Facebook. Consegue lembrar?

Você pode estar pensando o que eu tenho a ver com a morte do romance. E eu digo. Nada, absolutamente nada. Mas eu devo ser um romântico, porque eu não quero me apaixonar por uma foto. Escolher de um cardápio, ver casais jantando em silêncio. Eu quero ser surpreendido, E quero surpreender. Não quero que o romance morra. É só uma defesa, apaixonada — quem diria — de como eu acho que deveria ser.

Eu quero mais John Cusacks com um som enor e na frente da casa da mulher que ele gosta. Eu quero mais Harry e Sallys. Mais Christian & Satines, C.C. Baxter e Frans, Allie e Noah. Dannys Zuko e Sandys. Por que só filmes de tragédia podem ser baseados em fatos reais? Os de romance também podem. Devem.

Quero mais gente se conhecendo na fila do banco. Quero um casal que se tromba na rua e ele derruba o livro favorito dela, que também é o dele. Mais gente dando match na vida real. Eu queria mais acaso, mas espontaneidade. Direta e esquerda só na hora de decidir a flor que você vai levar de surpresa. E por carinho.

De verdade, acho que eu só queria ver mais gente podendo contar uma história bonita para os netos. Acho que é por isso que eu deletei meu Tinder e meu Kickoff faz algumas semanas. Eu cresci ouvindo a história dos meus avôs. Isso me faz querer mais Franciscos e Helenas. Me faz querer mais histórias como a deles, na hora do padrinho discursar.

Será que é pedir muito?

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