O Trem Azul

Marcelo Pina & Raquel Anastasia

Seu Carlos sempre teve um trem diferente. Quando criança, ficava sentado no campinho perto de casa olhando as estrelas, noite após noite. Era uma cidade pequena, no interior de Minas, e não demorou muito pra que todos comentassem dessa mania, que o povo estranhava um pouco mas aceitava, pois não é de hoje que se acha bonito tudo o que criança faz. A mãe dizia que ele ia ser cientista de estrelas e, com o tempo, a mania passou a ser vista como uma peculiaridade que fazia Carlinhos especial de alguma maneira. Talvez tenha sido por isso que ele não foi internado quando passou a ir para a beirada da linha do trem, onde ficava sozinho, contemplando o infinito.

Começou em algum domingo de 1963. Como fazia toda semana, após o almoço despediu-se de Clara, sua esposa, e saiu em direção ao bar do Toninho. Naquele dia, entretanto, quando passava pela praça alguma coisa o fez descer a Ladeira da Esquerda ao invés de seguir direto na Rua da Igreja. Andou até a linha do trem e, quando chegou, deu uma boa olhada ao redor. Analisou bem até que escolheu o seu lugar: um barranco bem alto, de onde se avistava a linha serpenteando desde bem longe. Ficou até o cair da noite e voltou para casa.

Nas semanas seguintes repetiu o ritual, sempre aos domingos, seu dia de folga, sempre com a mesma camisa azul que trazia suas estrelas estampadas no peito. No início ninguém percebeu, mas com o tempo uma ou outra pessoa passava por ali e Seu Carlos foi virando o assunto da cidade. Será que ele enlouquecera? Manoel, amigo de longa data, o defendia: que nada, ele quer apenas ver o trem passar. Ora, retrucava Nelsinho, mas o trem não passa por aqui há mais de dois anos. E assim todos iam discutindo o estranho caso de Seu Carlos. A esposa não estava muito incomodada, preferia esse tipo de maluquice às cafajestadas dos outros maridos, que não ficavam esperando um trem que não ia passar mas frequentavam a casa da luz vermelha e se esbaldavam nas moças da Solange.

Quando questionado, Carlos sempre respondia que acreditava que o trem ia voltar a passar algum dia, tinha ouvido notícias da capital. Já sabia até o nome do maquinista: Dirceu, um jovem baixinho de Pedro Leopoldo que, diziam, guiava o trem com tanta classe que já recebera o apelido de Príncipe. A riqueza de detalhes com que Carlos discutia o assunto apenas reforçava a ideia de que ele era louco. De vez em quando algum amigo ou os filhos iam para a linha do trem, não porque acreditassem nele, mas apenas por compaixão e para ficar um pouco com Carlos e tentar convencê-lo a voltar à sua vida normal. O tempo foi passando e também passou a esperança de que ele deixasse de lado aquela mania. Perdeu aniversários, casamentos, sempre à espera do trem. Os amigos conseguiram levar um psiquiatra da capital para tentar convencê-lo, mas não adiantou, o homem permanecia convicto de que um domingo qualquer seria recompensado pela visão do trem surgindo das montanhas.

Foi no início de 1966 que, para espanto geral da cidade, o trem passou. Quem é o louco agora, gritava Carlos, exultante. Contava sobre como era lindo, como havia sido emocionante vê-lo passar e, apesar de muita gente achar uma grande bobagem a passagem de um trem, o fato é que nos domingos seguintes outras pessoas foram se juntando no barranco. Em dezembro, quando o trem apareceu no horizonte novamente, vindo de Santos, havia umas dez pessoas ali. Deu tempo de correr na praça, chamar mais gente e, naquele dia, meia cidade parou para acenar ao jovem maquinista Dirceu.

Dizem que esse trem percorreu todo o interior de Minas e em cada lugar aconteceu mais ou menos o mesmo. Gente que nunca havia prestado atenção nos trens começou a se reunir na beira da ferrovia, levando bandeiras e esperando a oportunidade de saudar Dirceu e seu ajudante Tostão.

Desde então quem quer que passe por qualquer cidade mineira num domingo vai encontrar meio mundo vestido de azul, à beira da linha do trem, com as mesmas estrelas que o Seu Carlos usava estampadas no peito. Algumas vezes ainda demora anos para o trem passar. Em outras, ele é parado a caminho de Minas por algum juiz sem coração que mandou o trem pras ferrovias do Rio ou de São Paulo, em nome da lei — ou até mesmo contra ela, por capricho ou maldade. Mesmo assim, as pessoas continuam se reunindo nos barrancos, largando compromissos e até faltando ao trabalho. Muitos levam os filhos e as esposas, amizades são construídas, ali são quase uma grande família; a verdade, entretanto, é que, assim como Seu Carlos, todos ainda carregam a sina de loucos quando vão para a linha do trem. Às interrogações, suas respostas são semelhantes à dele ao psiquiatra que foi mandado para lhe tratar:

- É difícil de explicar, doutor, e talvez o senhor não entenda, mas quando apertei bem os olhos pra ver o que acontecia dentro do trem só vi eu mesmo…