Sabe a An(orexi)a?

Minha mãe sempre me chamou de gorda.

Ok, talvez não sempre, sempre. Mas faz muitos anos que esse ciclo se repete. Ela usa a velha desculpa do “me preocupo com a sua saúde”, mas nunca estive tão saudável!

Ela não está nem aí para a minha saúde. Ela não deu a mínima nas duas vezes que recorri à anorexia e fiquei mal de saúde. A culpa era sempre de alguma outra coisa, mas não da forma como ela me machucava com as suas palavras.

Veja bem, eu fui uma criança normal. Tão normal quanto crianças esquisitas podem ser.

Porém, lá para os 7 anos, pum! Engordei. E não sei nem como. Em casa não entrava refrigerante. Minha mãe cortou todos os biscoitos doces. Só podia usar uma colher de nescau no leite. Nada de açúcar. E açúcar só o cristal.

Eu era uma criança saudável. Super ativa. Não estava nem aí. Eu não sabia que deveria me sentir mal por conta do meu corpo.

Hoje em dia eu sei. Hoje em dia entendo todas as restrições alimentícias que passei nessa época. Todos os doces que fui impedida de comer.

É claro que funcionou. Comecei a me ver como gorda. Como indesejável. Como feia.

E as pessoas do meu colégio, claro, não ajudaram. As meninas que os garotos gostavam eram todas magras, tinham pernas finas. Quem era eu se não a baleia orca de coxas grossas, que nunca seria magra?

Uma vez a mãe de uma amiga, apontou para um mulher obesa na rua, com um super culote e disse: “essa vai ser você quando for adulta”. Nunca esqueci. Ela estava “brincando”. Hoje em dia descobri que essa minha amiga não fala mais com a mãe.

Bem vinda à pré-adolescência. Na infância, eu ouvia o tempo inteiro que deveria ser modelo. Na pré-adolescência eu ouvia o tempo inteiro que deveria ser modelo de rosto. Foi quando eu descobri que meu corpo estava totalmente errado. Mal construído. Mal configurado. Não era tão bonito, nem tão perfeito. Quem iria querer aquele corpo? Com certeza eu não.

Eu me escondia atrás das roupas. Ouvia o tempo inteiro: você é tão bonita, mas… E a lista de “mas” era infinita: “poderia fazer a sobrancelha”, “poderia usar uns vestidos”, “poderia soltar esse cabelo”, “poderia usar um pouco de maquiagem”… E a criança que estava nem aí, foi lentamente encolhendo, se encasulando. Sumindo dentro de si mesma. Até tentar ser invisível.

Parar de comer foi a escolha óbvia. Eu só queria ser como todo mundo. Magra. Bonita. Ter menos pelo. Ser branca. Loira? Uns olhos claros cairiam bem. Nada disso eu poderia ter. Mas parar de comer? Parar de comer é fácil. É só você tomar consciência de quão horrorosa é. Quão feias são suas pernas. Quão gordo é o seu braço. Como nenhum cara da sua idade jamais vai te querer porque você tem esse quadril enorme. Esses peitos gigantes. Essas coxas horrorosas. Mas se você apenas fechar a porra dessa boca e não comer mais nada, quem sabe…

Funcionou. Não muito bem. Mas o suficiente. Ninguém nunca me chamou de magra, falou que eu tinha corpo de modelo, mas as pessoas pararam de falar do meu peso. Mas não estava bom. A comida sempre achava um jeito até a minha boca. Os doces então?! Dois dias sem comer para compensar esse escorregão. Minha mãe era só felicidade. Olha que filha linda eu tenho! E eu pensava: linda nada. Apenas uma porca gorda.

Minha auto-imagem nunca estava boa. Me criticaram tanto que eu acreditei. Nessa época, mesmo que me elogiassem, eu achava que estavam todos loucos. E esse quadril que não ia embora de jeito nenhum? O que eu precisava fazer para ele me deixar de vez?

Fiquei doente. Claro. Nada relacionado ao fato de eu só comer dia sim, dia não e uns punhadinhos minúsculos de comida. Ou se a minha mãe fazia a ligação, nada tinha a ver com o fato de me chamar de gorda a vida inteira. De me falar que qualquer, qualquer coisa que eu ousava por perto da minha boca engordava. Até suco engordava. Qualquer mini-prazer que eu pudesse ter com comida engordava. E aí eu iria perder meu maravilhoso corpo. Que nessa época eu nem achava tão maravilhoso assim. Achava que era um grande lixão de gordura ambulante.

Mas aí fiquei doente e me fizeram comer. Nunca tinha tido antes uma crise de bronquite alérgica. Nada relacionado a anorexia, correto? Ninguém nem se deu conta.

Voltei a comer. Chegou o vestibular, comia de nervoso. Taquei pra dentro todos os biscoitos doces que minha mesada poderia pagar. Minha sogra também me chamava de gorda. Tudo o que eu comia com prazer engordava. “Você tem o rosto tão bonito, só precisa parar de comer tanto doce assim”. Meu namorado falou “eu acho que o seu corpo está no limiar do ok”.

Fiquei um mês sem comer. Só nas migalhas. Valeu a pena(?)

Você está muito melhor! Linda! Está maravilhosa, emagreceu? Agora tem que manter o corpo, né?

Fiquei doente novamente. Doente pra caralho.

Desisti.

Foda-se.

Mas não foda-se, foooda-se. Vou só comer bem pouco. Beeem pouquinho de tudo. E assim fui seguindo. E assim fui me aceitando. Fui ficando melhor. As vezes ainda tinha uma crise ou outra de bronquite, mas tava tudo bem. Não tava?

Aí eu comecei a apreciar comer. Acho que foi culpa do meu novo namorado. Ele gosta muito de comer. Me levou junto nesse rolê. Nunca comi tão saudável, tão bem. Fiquei gorda. Mais gorda do que jamais estive. Ele gosta. Adora por a mão numa gordurinha.

Dia desses me chamaram de: vocês, mulheres gordas.

Doeu.

Eu sei, me aceito hoje em dia. Quer dizer. Eu tento. Aí me chamaram de gorda. Me ofendeu. Quis chorar. Quis parar de comer. Foi por um triz.

É sempre por um triz.

Semana passada eu parei de comer. Ninguém percebeu. Minha mãe veio aqui em casa e falou em tom de comemoração: você emagreceu?!

Provavelmente.

Mas aí veio a TPM e eu quis um chocolate. Lembrei da minha mãe, no almoço em família aqui em casa, comentando: você está muito gorda. Minha sogra concordou. Falaram que estou ficando feia. Me calei.

No outro dia, minha mãe repetiu. E aí eu enfrentei ela. Bati de frente. Falei que não pedi a opinião. Que estava feliz. Minha mãe falou que estava preocupada com a minha saúde. Mas eu nunca mais fiquei doente. Emprestei meu nebulizador dia desses, não uso mais. Faz anos que não uso. Estou super bem. Até enfrentei a minha mãe. Ela se calou.

Mas semana passada, e essa, eu não comi. Belisquei uma coisa ou outra. Mas não comi.

Será que um dia isso vai ter volta? Será que um dia eu vou: 1. Parar de querer comer ou 2. Parar de me importar em ser oficialmente classificada como gorda?

Não sei.

Estou tentando comer. Juro. Mas é difícil quando se sente mal consigo mesmo. É difícil ser desconstruída quando chegam na tua cara e te chamam pelos teus medos. Tem dias que é mais fácil. Tem dias que é mais difícil.

Queria terminar o texto com uma mensagem positiva, então fica uma foto de um momento que eu estava me amando. A gente tem que se amar antes de tudo. Porque os outros não vão fazer isso pela gente.