1 semana (e meia) em SP

Rapuso
Rapuso
Sep 4, 2018 · 7 min read

“Todo muy loco”, assim Arlequim respondeu à sua mãe que indagava sobre o seu bem estar. Ele e Papageno chegaram no fim da primeira semana.

O período de uma gigante (em tamanho, brilho e maravilha) lua minguante passou da metade, assim como passou da metade a segunda semana em São Paulo, e a tensão e o alívio orgástico disputam o meu equilíbrio mental. É intenso e afirmativo, como as repetições das trocas rápidas entre dominante e tônica no Período Clássico.

Todo dia cantar e tocar ukelele e gaita no trem, teclado em uns rolês… fui convidado pra acompanhar a Malu Maria no show de lançamento do seu primeiro álbum. Nessa cena com Juliano Gauche e Tatá Aeroplano eu tô sacando bastante uma atmosfera eletrônica num pop rock, e explorando mais timbres e possibilidades do sintetizador.

Hoje a gente foi a pé até a estação Corinthians-Itaquera. Uns 50 minutos de caminhada. Que nem ontem. Mas ontem era sábado e as ruas lotadas de cerveja, música, gente festejando e… olha! Tantan, pandeiro, ganzá e vozes. Papageno chegou com o cavaco e a pausa no trajeto deve ter passado de 1 hora: curtindo um sambão, ganhando batidas de morango, maracujá, abacaxi, ouvindo histórias, rindo dos comentários de que a gente parece gringo (todo mundo olha quando a gente passa) e que eles não têm preconceito com barba (só eu que não tenho, ainda talvez, ou não). A gente caminha na rua tocando, e as rodas iam pedindo pra gente mandar um som. Outro moço que nos abordou no trajeto deu um show no cavaco, disse que era parente de alguém dos Demônios da Garoa. A galera entende bem de samba aqui. Eu já tô pensando em voltar a me dedicar à gaita cromática pra participar dessas rodas. Aproveitar e aprender com a musicalidade de cada região é muito massa (diria “tesão” mas isso só não é estranho em Curitiba).

Domingo já tava mais silêncio, menos gente. Fui comprar uma cerveja porque eu tava muito pilhado e precisava relaxar pra encarar tocar no trem. Entrou também na loja de conveniência um moço pra manguear umas brejas (sempre peço bera e esqueço que é gíria curitibana). Começou amigável e quando me espertei o diálogo era quem era o mais loucão (“eu sou muito louco” ouvi bastante aqui com o subtexto “tenha medo de mim”: estratégia maquiavélica de príncipe, o rei não precisa ser amado, mas temido. O moço tava contando pro outro do caixa que é da favela, que a loja ta protegida porque quem mexer lá ele manda matar. Nosso anfitrião disse que aqui é proibido roubar, que quando roubaram uma moto os caras do PCC foram atrás e fizeram comprar outra. O moço do caixa que no começo era intransigente no desconto vendeu mais barato escolhendo as mais geladas.

Ta rolando briga e polícia na rua que agora há pouco tinha criança correndo e gritando de feliz de poder brincar na rua.Todas as realidades existem. Na minha infância brincar na rua era “perigoso”, então a gente não ia. Questiono a segurança como O Rappa: “as grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazer a dúvida se é você que tá nessa prisão”.

Nosso anfitrião cada dia nos dá uma ideia diferente que explode a cabeça de tanto que expande. Aliás essa expressão: “dar ideia”. Tipo você tem uma ideia, um pensamento, uma história, uma experiência, e dá de presente EM alguém. Seria puxar papo mas puxar papo me lembra puxa saco, sei lá, algo com segundas intenções. Isso deve ser só um motivo pessoal pra eu ter gostado da expressão, que eu adoraria saber como foi cunhada por esses falantes que tem pouco e compartilham transbordando. “Eu não podia ser miserável de ouvidos e continuar meu grafite se a senhora que eu precisei ajudar a passar estava querendo ser ouvida” — outra ideia que nos deu o nosso anfitrião. Hoje teve um outro presente que esse cara deu EM nós (acho que essa preposição transborda. Parece que ao invés de receber um presente com o cartão “de”, “para”, a gente é surpreendido por um desabamento de presentes na cabeça): descobrimos que é possível viajar de paraglider (e que ele está treinando pra isso).

Um monte de histórias sobre voos. Não só esse literal (que eu tava desejando muito porque a terra tá bem pesada nesse sentido de sobreviver e materializar sonhos), mas muitas histórias de voos metafóricos. Ele sobrevive em qualquer lugar com um alicate e um pedaço de arame, e as ideias que ele dá — e eu tô percebendo como esse item faz a diferença!

O Abelha, que era o principal porta-voz do grupo nos mangues, foi pra Curitiba passar o fim de semana. Eu, Arlequim e Papageno encaramos a missão de falar além de tocar. O Abelha é gago e isso não o impede de falar MUITO bem. Nós 3 nos embolamos bastante: “é…”, repetições desnecessárias, não saber como terminar um raciocínio, não começar um raciocínio por medo de não saber sustentar e finalizar, travar… e a gente só precisava:

  • se apresentar
  • dizer que se alguém se incomodasse com o barulho era só levantar o dedo que a gente parava (não aconteceu até agora)
  • talvez dizer que estamos viajando e talvez também algum comentário sobre as músicas
  • pedir pra nos seguirem nas redes sociais
  • pedir uma contribuição no chapéu

Pedir. Desde que descobri “A arte de pedir”, um TED da Amanda Palmer, reproduzo de novo e muitas vezes, pra entrar na minha cabeça que não é uma vergonha. Parafraseando Amanda, todo mundo está preocupado em como FAZER as pessoas pagarem por música na era digital. Mas a pergunta não é essa. Você não precisa obrigar ninguém. A pergunta é como a gente pode DEIXAR as pessoas pagarem por música.

No começo é uma resistência gigante, o ego tá gritando não quero, não quero, não quero me expor, não quero incomodar as pessoas, ninguém ta olhando, ta todo mundo de cara feia, ninguém aplaudiu aaaaa

Daí, como se passassem alguns exercícios de teatro, a gente vai se espertando, se soltando, saindo rápido de um vagão pra entrar no outro, mas não tanto pra não chamar a atenção dos fiscais, interrompendo as canções quando chega numa estação pra não sermos pegos, e brincar com o público “uma pausa para os comerciais e já voltamos”, “ativando modo disfarce”.

E, além de tudo isso, mudar aquela atmosfera podre de transporte público para um ambiente acolhedor. Hoje chegamos a um nível de presença que duas pessoas de vagões diferentes choraram (no refrão de “Espanto”: https://soundcloud.com/eurapuso/espanto

). Adultos, porque as crianças paravam de chorar e iam dançar. Comecei a contar sobre as letras, as histórias por trás, algum discurso motivacional na crítica ao sistema. Me lembrou muito minha época de igreja, é como se eu estivesse em missões. Senti um chamado para o mundo quando eu era criança. Adulto, quando decidi viajar, colei um mapa mundi na minha parede e escrevi grande de canetão “Ide por todo o mundo…”. O resto da frase se expandiu. Porque o princípio do evangelho é o “amor”, mas o Amor é algo tão grande que não cabe no evangelho como sistema fechado.

Cantarolei bastante “dê um rolê” (novos baianos) quando me dei conta do que eu tava fazendo. Arlequim, em uma das minhas travadas de medo que me congelam pra não tocar no trem, apenas me perguntou “Você lembra o que a gente tá fazendo?”. Depois das conexões intensas e de vivenciar a atmosfera que a gente transformou, a banda toda fica em êxtase. Só mais uma citação de Arlequim num desses exultantes momentos de “porra que foda o que a gente ta fazendo!”: “a gente é amor da cabeça aos pés, meu!”.

[se você quiser ouvir o som da nossa banda, as Tartarugas Nômades, que era TOTALMENTE IMPROVISADO TODO SHOW, segue o link: https://soundcloud.com/tartaruga-nomade ]