De reis dos escombros a reis do spotify

Do mundo para cá: Documentário do Netflix Rubble Kings

De cá para o mundo: Hip hop é um gênero eminentemente pop, se você der uma olhada nas paradas de sucesso e nas celebridades musicais de hoje. Clipes esteticamente impecáveis e hiper realistas, refrões repetidos pelos millenials e geração Z e claro, muuuito dinheiro rolando ali no mainstream. Quem curte hip hop hoje mal pode imaginar de onde surgiu tanta atitude — acredite, é uma história surpreendente. Aliás, que ciência linda, a história, nos mostrando que nada é exatamente que parece ser se olharmos um pouco mais demoradamente.

A real é que os fundadores / inventores / precursores do hip hop lá nos idos de 70 eram o que se chamaria de barra pesada. Cotidiano muito difícil, como cantam os Racionais. Nenhuma esperança, nenhuma assistência, nenhuma compaixão e muita briga de gangues. A cidade de Nova York e em especial o Bronx nos anos 60 e 70 também seriam irreconhecíveis para nós e para os fãs de Kanye West e Drake.

Uma mistura desesperadora de inércia econômica e desemprego, desamparo social, drogas, preconceitos raciais e outros fatores desumanos contribuíram para o fenômeno das gangues de rua, que deixavam tudo bem gráfico (leia-se sangrento) com suas brigas e assassinatos completamente banalizados. O mesmo princípio das guerras: nós versus eles e foda-se tudo. Tiveram que chegar ao fundo do poço para ouvirem o apelo de alguns que se mantinham capazes de enxergar the bigger picture: gangue por gangue, somos todos excluídos, somos contracultura, então faz mais sentido nos unirmos para lutar contra o inimigo comum — “o sistema” — e não contra nós mesmos.

Aí entra o poder arrebatador da música: tem coisa mais tipicamente cultural e ao mesmo tempo universal que ritmo e melodia? O apelo da união da contracultura e a consequente dissolução dos territórios das gangues permitiu a realização de grandes festas abertas. Neste contexto de conexão e construção de um novo movimento, a música obviamente assumiu um papel de destaque, representada pelo trabalho de garimpo e mixagem do DJ, mas o conjunto se completa com a figura dos b-boys e MCs e sua dança, atitude e ativismo. Quem diria nos anos 80 que hoje em dia o hip hop se tornaria um movimento cultural de alcance global?

Moral da fábula: à parte os questionamentos ideológicos, nada é tão intelectualmente prazeroso quando conhecer a história das coisas e pessoas e os inúmeros caminhos que fazem uma pessoa, um grupo ou mesmo um país serem quem são hoje. O futuro é imaginado, o passado é infindo e o presente uma piscadinha de olho.

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