toada

Tenho aqui comigo muitos devaneios, muitas prisões, todos os anseios. Enquanto aguardo a fervura da sopa tento entender as notícias do jornal. A jornada é solitária. Não existe outra opção. Todos os nossos quereres são egoístas. Dói a nuca. A caminhada cansa, a solidão exaure as forças, deixa a alma assim meio esquálida. O corpo sente o desânimo. Em determinados períodos a gente finge que descansa e ri. E nessa toada, segue caminhando ora solitária, ora sozinha, como a água do mar que vai e vem, e me pergunto se existe descanso em alguma parte do caminho. E daí me vêm à mente as bifurcações, as rotatórias com várias saídas, uma placa que sinaliza mal. Olho o mapa. Sobe e desce, é circular. Alto, embaixo. Tantos caminhos. Trajetos tão distintos mas com tantas similaridades. Procuro as interseções. Começo a planejar a rota, a reajustar o cronograma. Calculo; a unidade são respiradas. Respirada um. Respirada dois. Daí me entrego e choro. Desabo. Tenho que escolher onde pousar. Não tem ar, tem mar. E o verbo do mar é afogar, não é pousar. Não sei se a vista fica embaçada ou se o mapa que está borrado. Pra que direção sopra o vento? É hora de aprumar as velas. Fecho os olhos bem apertados pra enxergar melhor. Está lá o meu lugar. Eu vi. Eu vejo. Almejo. Vida aventureira. O verbo vai navegar. Estico a mão e não encontro nada. Insisto e alcanço o leme. A unidade é em respiradas. Respirada um. Respirada dois. Sinto o leme. Inspira, expira. Inspira, expira. O tato é sentido de grande importância nessa experiência. A textura do concreto. Acreditar. Ponte, rio, mar, desaguar. Há opção. Escolher é que é ato solitário. A sopa está quente e tem vinho do Porto pra acompanhar. “Navegar é preciso. Viver não é preciso.”

trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=jc8n76mnyvM

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