Contra a Interpretação

Algumas situações me inspiraram a escrever esse texto. Uma delas foi a leitura do ácido ensaio Contra a Interpretação, de Susan Sontag, que dá uma lapada na gente ao se mostrar totalmente contrária às interpretações de obras artísticas que mais as distorcem, moldam-as aos desejos pessoais e intelectuais do “crítico”, do que qualquer outra coisa. Não ajudam, só atrapalham.
Um dos exemplos que ela dá é o da interpretação da obra de Kafka (♥!). Para os ligados à psicanálise, ela sempre trará metáforas relacionadas à relação dele com o pai, à castração, à impotência blá blá blá. Já os marxistas enxergam sempre a burocracia, o Estado totalitário… E por aí vai, cada um puxando a sardinha pro seu lado. Mas, e a obra de Kafka por si só, referenciando única e exclusivamente a ela mesma? Susan explica:
A Arte verdadeira tem a capacidade de nos deixar nervosos. Quando reduzimos a obra de arte ao seu conteúdo e depois interpretamos isto, domamos a obra de arte. A interpretação torna a obra de arte maleável, dócil. — Susan Sontag
Não sei vocês, mas eu não vejo a menor graça em arte dócil, calminha e submissa. A arte que me toca incomoda, dói lá fundo, coloca o dedo na ferida que as vezes eu nem sabia que estava lá, grita e me traga pra dentro de outro mundo sem garantia de retorno, sem fiança, sem dó. Pode ser uma música, um filme, um poema, um quadro, uma performance, uma fotografia, um devaneio cotidiano: as experiências estéticas mais interessantes têm essa potência de me atravessar. Por isso que pra mim é tão difícil falar delas.
A interpretação facilita, encaixa, emoldura e cria cerquinhas ao redor dos objetos artísticos que os tornam previsíveis, condensados e silenciosos, enquanto que a verdadeira força da arte mora no imprevisível, no incontrolável. A arte é livre, gigantesca e grita. Está mais para a filosofia do que para a ciência, é mais lisa que estriada, complexificaria Deleuze. É barulhenta. Ser contra a interpretação é também uma postura ética nesse mundo comandado pela palavra, é deixar as imagens falarem por conta própria, é pararmos e ouvirmos o que elas têm a dizer.
Em vez de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte. — Susan Sontag
Ando evitando as leituras das sinopses, tento não mais ler a ficha técnica antes de apreciar o quadro e me arrisco a assistir alguns filmes sem saber nada sobre os diretores e atores envolvidos. São gestos ainda pequenos, tímidos, mas ajuda um bocadinho. =)
Para que não cheguemos a esse ponto:
