Sentido da vida

A vida seria tipo uma correia transportadora, dessas que carrega minério. Você fica de frente pra correia e ela não para. Às vezes anda rápido pra cacete e às vezes lento de irritar, mas parar, ela não para. E aí vááárias coisas são jogadas na correia e a princípio você fica só olhando, porque ninguém te explicou o que você precisava fazer. Aliás, não tem ninguém por perto, é só você e a correia transportadora.

Vendo várias coisas passarem, você pensa “acho que preciso fazer alguma coisa. Talvez eu pegue algumas coisas dessa correia e coloque aqui do meu lado”. E você coloca. Ninguém reclama, ok esteira que segue. Você tenta achar um sentido para as coisas que estão sendo colocadas na sua esteira pra ver se a ideia era que você montasse um quebra-cabeça, sei lá. Mas tem de tudo sabe? Tem gente na esteira, tem objetos, têm coisas amorfas tipo sentimentos.

Você não vê nem o começo nem o fim da esteira, você não sabe de onde estão vindo e nem pra onde estão indo todas as coisas que você viu passar (e nem quem as está colocando ali, pra início de conversa). Você só sabe que elas passam. E digo mais, com um pouco mais de tempo você percebe que tem coisas que resistem a sair da esteira, brigam pra ir embora. Você tenta tirar a coisa da esteira pra colocar do seu lado, mas ela não quer sair. Talvez ela tenha sido feita só pra observar. E tem coisas que você tinha certeza que tinha colocado ali do seu lado, mas quando você se vira pra tirar outra coisa da esteira, o que você tinha garantido sumiu. Do nada, sumiu. E você fica se questionando se aquelas peças que não quiseram ficar ou sumiram eram justamente aquilo que daria sentido a tudo, que com aquela peça você entenderia o porquê de tudo.

Passando um tempo maior com as coisas que você tirou da esteira, pode ser que você esteja apenas tão familiarizado com elas que você começa a ver uma semelhança entre elas. As coisas até conversam entre si de vez em quando. E não só as pessoas com as pessoas, mas às vezes as coisas com as coisas, as pessoas com as coisas, as coisas com os sentimentos e os sentimentos com as pessoas. Eu selecionei as coisas na esteira ou a esteira me condicionou? Era pra eu ter tirado as coisas da esteira mesmo? Se eu tivesse outra esteira como seriam as coisas que eu selecionei?

De vez em quando você até tenta juntar tudo tudo mesmo e fazer um quebra-cabeça. Tipo: isso combina com isso, e isso me fez lembrar daquilo e por isso que tirei aquilo-outro da correia. Aquele ali era pra combinar com aquela coisa que sumiu, e isso aqui nem serve mais porque era pra dar de presente pra aquele que quis ir embora ao fluxo da correia. E ai você dá uns três passos pra trás, olha sua tentativa de montagem do quebra-cabeça e pensa: tá bom, tá ótimo, tá convincente. Achei o sentido da esteira!

Pra sua surpresa não cai do céu um grande avaliador-big-brother, que vai terminar aquele experimento social, do qual você muito sabiamente encontrou a resposta, para dar sua medalha de honra. Você ainda assim acha que seu quebra-cabeça está muito bonito e original, ainda que ninguém tenha te garantido que as coisas eram realmente peças de um quebra-cabeça. Mas pra você aquilo é uma obra de arte, mesmo que a esteira não tenha sentido nenhum a não ser o sentido de lá pra cá.

A esteira continua.