Criancice

Raquel Chaves
Jul 30, 2017 · 3 min read

Estava no auge dos meus 10 anos de idade. Sempre tive um espírito maduro, meus pais me deram uma educação refinada que influenciou muito em minhas atitudes e influencia até hoje.
Acontece que todo ser humano tem seu ponto fraco. O meu era a casa mais vigiada do Brasil, nunca consegui perder um capítulo sequer.
Era a edição sete, do ano de dois mil e sete, exatamente há dez anos. O Alemão era o protagonista do reality show e dono do coração de todas as meninas da escola, inclusive do meu, claro. Certo dia, devido à escolha do público e à escolha da casa, o oitavo paredão dessa edição foi composto por Íris, namoradinha de Alemão, e o querido Alemão.
A marmelada estava estampada. Só bobo não viu.
Em um conflito interno, após uma série de discussões com meus colegas, decidi contribuir com um voto. A internet de casa era discada, ou seja, só poderia votar pelo site aos finais de semana, mas o paredão era logo na terça, e aquele dia já era segunda, então não pensei duas vezes: 0800–2007–35.
Liguei como se tivesse ligando na casa de alguém conhecido, como se fosse uma ligação comum. Barata. Do plano.
Com a intenção certeira de eliminar a pobre sortuda da menina Íris, aguardei cerca de vinte segundos alguém me atender e quando atenderam:
- Alô! É do Big Brother?
- É pra votação?
- É.
- Então liga nesse número aqui.
A mulher me passou o número, anotei e lá fui eu, mais uma vez, tentar eliminar a Íris por telefone.
Deu certo.
A ligação caiu direto na casa. Eu escutava a voz dos participantes, escutava a voz do Alemão, da Íris, da Fani, muitas risadas, palavrões, uma gritaria que só (mas não tenho certeza até hoje se disquei para o lugar certo, só sabia que todo aquele processo não foi simples, então a probabilidade de ser o lugar certo era tão grande quanto a de ser o errado). Estava parcialmente emocionada, me senti fazendo algo adulto que exigia grande responsabilidade. Tentei manter um diálogo sério e dizer umas três vezes de formas diferentes em quem eu queria votar, mas aquela ligação estava virando uma zorra, então desisti de contribuir com um voto e desliguei o telefone sem me despedir da pessoa que estava do outro lado da linha. Acredito que fiquei pendurada no telefone cerca de quinze minutos passando um alto nervoso.
Assim que coloquei o telefone no gancho, corri para lavar a louça antes que minha mãe chegasse do trabalho e visse que não fiz nada. Ela chegou, me deu aquele doce beijinho, perguntou o que eu fiz e como foi a escola. Quase contei sobre a ligação, mas, por algum motivo, meu inconsciente não deixou que eu abrisse a boca sobre.
Segui com as atividades, fiz a lição e fui para a cama pensativa, não conseguia fazer um intermédio entre o meu receio de contar meu segredo e porquê diabos aquilo tinha que ser um segredo se aquela ligação foi feita com as melhores das intenções possíveis, apesar de não ter conseguido realizar o objetivo.
O mês virou e as cobranças chegaram.
Era por volta de 17h40min. de uma sexta-feira, o ônibus escolar havia acabado de me deixar em casa e eu estava serelepe, ansiosa para brincar com os meus vizinhos na rua até dar a hora do BBB, como de costume às sextas.
Só que não.
Naquela sexta foi o dia em que comi o fruto do conhecimento. Meus pais me esperavam sentados em torno da mesa da copa com um papel cujas costas estava escrito Telefônica. Telefone. Ligação. Paredão. Ferrou. Sabia que era errado. Cumprimentei meus pais com um beijinho na bochecha, fingi que não era comigo, corri para a geladeira para pegar o leite e disparei em um assunto aleatório para eles não falarem sobre o que eu já sabia que eles iam falar, mas não tive como fugir. Eis que surge a pergunta:
- Raquel, você assiste sempre ao BBB?
Essa era a brecha para eu dar a volta por cima e me livrar do encargo de consciência, então disse que não, com total cara de pau, feito uma atriz.
Lembro de muito choro e ranger de dentes, de palavras como ‘interurbano’, ‘absurdo de caro’, ‘cortar a rede’, ‘acabou o Voltaren?’ e me lembro de ter parado de assistir ao programa por alguns dias. Chorei até desidratar. Aquelas palavras me assustaram muito, soavam muito adultas e de um mundo que não parecia me pertencer ainda, principalmente pelo fato de eu não saber o significado de nenhuma delas.
Tirei duas lições daquele dia; a primeira é a mais tradicional: mentir é feio. E a segunda contraria o que a maioria das crianças querem: não quero ser adulta nunca. Nunquinha.

Raquel Chaves

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Participo sendo o mistério do planeta. | Editora-geral da Fazia Poesia

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