É impressionante como a tecnologia tirou a beleza das coisas, o ardor dos contatos, a fluidez dos pensamentos. Antes, no fundo da sala de aula, a gente pensava na pessoa e ía pra ultima página do caderno (ou penúltima, quando a última não tava toda rasgada e rabiscada) e escrevia um bilhete de algumas linhas, ou uma carta, fazia um desenho, depois pensava trinta vezes se entregava ou não, mas em resumo, aquilo era um “tava pensando em você “.

À noite, quando acabava a programação interessante da TV, a gente se pendurava no telefone e ligava pros amigos, pros namoradinhos, cagava todo o fio enrolando ele nos dedos por horas, sentado no chão do corredor atrapalhando a passagem, aproveitando o horário de pulso reduzido.

Quando começou a internet, deixamos as cartas compridas de lado ou mesmo os bilhetes, mas ainda havia um certo esmero por cima dos teclados pra escrever e-mails convincentes e seguros. E dar nome pra essas mensagens? Não sei nem contar quantos e-mails chamados “Oi” mandei até hoje.

Hoje? Ninguém manda mais porra nenhuma. Tá todo mundo ocupado demais, não dá tempo de colar a bunda na cadeira por sete minutos (tempo médio pra escrever um bilhete) e se dedicar a formar uma cadência de frases interligadas com sentido. Ainda mais, as pessoas estão emburrecendo, esquecendo como se escreve, o que é coesão, qual palavra perdeu ou ganhou acento na reforma ortográfica. Escrevem um parágrafo repetindo a palavra você cinco vezes, esquecem as vírgulas, misturam os assuntos. Todo mundo tão acostumado a escrever de forma abreviada no celular que pegar uma caneta é quebrar pedra na cadeia. Tem gente que reclama que escrever dói e cansa a mão. Porque ninguém mais faz isso. Não com o hábito dos anos passados.

Enfim, de volta ao foco, não vejo mais a intensidade e o brilho dos olhos de receber um envelope com o próprio nome, ou de achar uma folha de caderno dobradinha nas nossas coisas. Ninguém encara uma mensagem de texto por horas, como faz com uma carta. Ninguém procura cheiro, borrão de tinta com marca de dedo, erro de grafia por nervoso em SMS. (Puts, pingão de tinta no fim da frase. Será que ele parou pra pensar no que tinha escrito ou não sabia o que escrever depois?).

Hoje, quando a gente lembra de alguém, manda um “saudade” no Whatsapp, ou curte meia dúzia de postagem no Face com o que clássico comentário de que um dia precisamos marcar alguma coisa.

Mas esse dia não vai chegar, e serão bytes e caracteres sem vida, pálidos e ocos a serem trocados, sem que possamos nos sentir realmente.

Em terra de smartphone, quem termina uma Bic é rebelde.

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