Hoje eu me apaixonei por um moço no metrô. Voltava de uma consulta médica no (meu) horário do almoço em um consultório que ficou de herança dos tempos de Copacabana. Peguei o metrô na Cardeal Arcoverde e, em Botafogo, ele entrou. Magro, de calça jeans, camiseta preta e camisa de flanela azul xadrez que tentava esconder a manga de tatuagem colorida no braço esquerdo. No outro pulso, tatuada em traço grosso, uma estrela de Davi. Rosto fino, olhos fundos por trás dos óculos de armação quadrada, nariz grande, barba preta, uma marca de corte no supercílio esquerdo com três pontos denunciava alguma peripécia da infância (talvez). O vagão estava abarrotado de gente e, de tempos em tempos, nas frenagens bruscas, ele me olhava e fazia cara de resignação. Eu respondia com expressão sorridente de “pois é”. No Catete, puxou da mochila preta um livro de autoajuda qualquer (algo como “Trabalhe pouco e ganhe muito”) e começou uma leitura pouco atenta. Suas mãos tinham dedos compridos, unhas limpíssimas e excessivamente bem cortadas que, na Cinelândia, pentearam displicentemente os cabelos escuros para o lado. Os cabelos eram pouco mais claros que a barba e mais compridos que os meus. Ao fechar das portas naquela estação, avançamos com a composição de forma brusca, fazendo reclamação em uníssono. Ele, por sua vez, me sorriu um sorriso de dentes pequenos e tímidos. Ergui as sobrancelhas e, em pouco tempo, estávamos na Carioca. Desci ao vê-lo acenar a cabeça em despedida. Fui pro trabalho e o metrô levou o moço e minha paixão com ele, sentido Uruguai.

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