Mudei-me.

Hoje foi dia de mudança. Física, emocional, literal. Eu, que pensava não ter nada, enchi caixas e mais caixas com objetos reconhecidos, mas que eu nem lembrava que tinha. Quanta matéria, quanto espaço, quanta falta.

Chegando no novo lugar, aquele acúmulo de sacolas: quinquilharia, coisa de cozinha na sala, coisa da sala no quarto, coisas do quarto no coração. Ainda.

Mesmo nesse infinito (e inferno) particular, coisas me faltavam. Como eu abriria uma lata? Com o que varreria a poeira do tempo? Como preencher o vazio dos cômodos com as funcionalidades que a alma não foi feita pra ter? Parti pra buscar respostas no comércio local.

Encontrei uma mesa de madeira que parecia com a sua, escolhi dois ou três itens para a cozinha que você jamais admitiria, fiquei na dúvida entre os talheres nos estilos português ou italiano e tentei imaginar que, se fossem nossos, você provavelmente diria pra deixá-los pra lá, pois não seria o tamanho dos dentes (dos garfos ou facas) que nos trariam a felicidade. Pra mim, sempre foi.

Se você estivesse aqui, seríamos nós a decidir a cor do sofá e a disposição dos quadros. Eu teria muitas concessões a fazer e você, bastaria conceder-me o coração. Eu mudaria o lado de dormir, jogaria coisas fora, ocuparia só metade dos armários. Mas, hoje, todos eles, com todas as gavetas, as prateleiras, os sonhos, são todos meus para eu esparramar o tanto de nada que sobrou.

Todos os livros da cabeceira são os que eu mesma enfileirei, por ordem de tema e gosto. Esse gosto que compartilhamos vez ou outra, durante a vida em que habitou em mim, esse gosto que não sai da boca, esse sabor de recordação e de angústia pelo rompimento brusco da partida, de vinho, salgado de tristeza.

Grito desse novo lado do mundo, esperando que daí, você ouça a minha voz, mais exprimindo saudades que pedindo conforto. As caixas não acabam, nem os dias. Moro sozinha agora. Moramos, eu e a sua ausência.