Saio do elevador, viro à direita. Da porta do primeiro apartamento do corredor é exalado um cheiro adocicado e delicioso de lustra móveis que me acalma o coração apressado. Ando devagar para sentir o perfume por mais tempo… Giro a chave na fechadura e entro em casa dando uma última exalada no aroma encantador.

Essa cena não é rara, muitas são as surpresas que vêm daquela porta: tem dia que tem cheiro de bife acebolado frito na hora, quando chego faminta do trabalho. Às vezes, chegando tarde da academia, é carne assada, molho de tomate, batata frita, sempre à noite, quando estou mais cansada. De manhã cedo, tem cheiro de pão e café. Tem tarde de Sábado cheirando a bolo de vó, açúcar queimado, bolinho de chuva e vela de aniversário. De Domingo, são várias vozes misturadas que se ouvem, conversando sobre alguma coisa animadamente. Ouço o coro do Parabéns a Você e imagino a quem será a homenagem… Dia de clássico no futebol também é dia de bagunça, cheiro de pipoca e conversa. Além disso, tem voz e risada de criança todo dia, em alguns, mais de uma, aquelas vozinhas finas que fazem a gente sorrir por nada e pescar na distância alguma pérola da sabedoria infantil como um “mas não dá pra jogar dominó sozinho” em tom de indignação.

Aquela porta é uma janela pra um lugar cheio de vida e me faz querer coisas absurdas, como morar na casa dos vizinhos.

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