O dia dentro da noite

(Imagem: Misantropia Crônica)

A vida dói por todos os cantos. Nas esquinas, na pele e nos ossos. A vida dói por dentro, por fora, por todos os lados e em todos os corações. As vezes pensamos que sim, mas a intensidade não importa: viver dói. E nos dilacera lentamente dia após dia, sem saída, fuga ou anestesia. Dói sem vaselina, sem desculpa ou açúcar pra adoçar. Dói, mas passa. E dói de novo, assim, sem nem notar, porque dor a gente não corta. Até tenta diminuir, arrancar, mas não corta. Feito ácido ela corrói as alegrias devagarzinho e, quando a gente vê, já foi. Doeu na presença e doerá ainda mais durante a ausência. E ainda assim, abraçada ao desgosto, dor só dói menos quando dividida. Aí não mata. Desaba em ombros dispostos e, aliviada, cabe melhor. Esperançosa, aconchega-se no colo feito criança cheia de sono: entregando-se aos sonhos, revelando-se aos dias com a certeza de que dor mesmo a gente não carece nem de matar, porque uma hora passa.

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