O que se pode aprender sobre o luto

(IMAGEM: “Cidade grande. Solidão enorme.” — Por Layla Gabrielle)

Eu sempre achei que o período de luto acontecia logo depois da morte de algum ente querido. Achei, inclusive, que o meu tinha sido exatamente assim, há 10 anos. 
Quando minha mãe morreu, minha infância também morreu. Deixei ela me esvaziar aos poucos, sem me dar conta. Eu tinha 15 anos e fui forte, tão forte que não chorei. Segurei firme e cumpri o papel que outras pessoas disseram que eu deveria cumprir: o de ser forte. Passei, então, a fazer as listas de compras do mês, a comida, assumi a limpeza da casa com meus irmãos, e tudo que minha mãe fazia tão bem. Hoje entendo: sem me dar conta quis substitui-la na tentativa de preencher o vazio tão grande que ela deixou.

Quando precisei ser transferida de colégio com minha turma, lembro de ter cabulado muitas aulas. Não queria mudar, não queria mudanças, já tinham muitas acontecendo. Quando estava finalmente me acostumando com as novidades, em determinada aula o professor fez algum comentário inocente sobre mães e eu simplesmente desabei, deixando todos com um ponto de interrogação estampado na cara. Essa foi a primeira vez que atingi meu limite. Foi extremamente constrangedor ver que os outros alunos me olhavam e comentavam sem entender nada. Eu simplesmente não conseguia parar de chorar e, logo em seguida, me levaram para a diretoria e de lá ligaram para o meu pai. Quando ele chegou, me tirou dali rapidamente. Enquanto saíamos da escola, me disse que eu não poderia explodir assim, precisava aprender a me controlar pra não chorar em público. Talvez eu precisasse mesmo, mas não naquele momento. Ele foi duro, não fez por mal, mas foi. Não soube lidar com a minha dor, porque ainda estava aprendendo a lidar com a dele. Dali em diante, passei a falar menos sobre a morte da minha mãe. Deixei de lado como quem deixa de priorizar as pendências, porque são muito trabalhosas. Fazer isso foi bom por um tempo, chorava apenas em momentos específicos (aniversários, dia da morte, dia das mães etc). Preferia ser alegre a ser triste, então guardei minha dor na caixinha e fui viver.

Há 4 ou 5 anos, fui num Centro Espírita Kardecista chamado Bezerra de Menezes. Apesar de sempre alimentar um interesse por diferentes religiões, doutrinas e rituais, até então, nunca havia tido contato com o Kardecismo. Logo que entrei, me deparei com um ambiente extremamente tranquilo, repleto de cadeiras, uma mesa grande com copinhos de água e, lá na frente, algo semelhante a um púlpito (local onde sentaria o palestrante). O tema naquele dia me coube tão bem que senti como se uma porta se abrisse bem à minha frente. Foi uma reflexão sobre o que é a tristeza e como ela também faz parte de nossas vidas. Finalmente ali entendi: evitei ficar triste por tanto tempo, porque não queria encarar de forma consciente o que me aconteceu. Escapava da dor fazendo qualquer coisa com alguém, pra não precisar ficar sozinha e me deparar com meus próprios conflitos. Temos essa mania de muitas vezes rejeitar nossos sentimentos com medo da infelicidade e, sem perceber, perdemos a oportunidade de aprender com a situação. Engana-se quem pensa que a tristeza não é uma boa professora. É sim, é quase sempre, mas talvez nos falte silêncio para conseguir escutá-la. Nossa bagunça interna é barulhenta demais, nos inquieta e nos cega o tempo todo. Naquele dia, como num flash, revivi todos os momentos que tanto evitei. Eu estava fugindo, mas apesar de ter conseguido finalmente entender, ainda não estava pronta para encarar os meus demônios.

Assisti há pouco tempo um desenho que me impulsionou a escrever sobre isso e a reviver alguns momentos. Em Divertida Mente, os sentimentos têm forma e são representados cada um à sua maneira. A Alegria, por exemplo, sempre tenta impedir qualquer manifestação da Tristeza, parece nunca conseguir enxergar a importância dela. É uma animação muito interessante, que explica porque é necessário entender e dar vasão ao que sentimos, não por fraqueza, nem para incentivar aspectos depressivos, mas unicamente porque somos humanos e é assim que funcionamos. (Recomendo!) 
Decidi, então, que era o momento de me entender melhor. Depois de conversar com uma amiga que fez terapia durante muito tempo, resolvi procurar uma psicóloga. Sempre tive interesse pela área e acabei optando pela escolha de um profissional que seguisse uma abordagem comportamental cognitiva. Por acaso ou por intermédio do universo, me dei bem logo de cara. A terapeuta me posicionou sobre como se pode viver o luto e o quanto é comum adiá-lo. Cada um sofre de um jeito, afinal, se somos diferentes, por que externizaríamos nossas emoções da mesma forma?

Recentemente ouvi duas mulheres no metrô conversando sobre a morte de uma senhora e sobre como foi estranha a reação da filha dela. Elas falavam que a moça ia para a balada todo fim de semana e quando chegava na segunda-feira, chorava. “Muito esquisito ela só ficar triste quando precisa ir trabalhar”, dizia ironicamente uma delas, enquanto a outra concordava. Isso me fez refletir sobre o quanto é injusto que alguém que não vive a nossa dor se considere capaz de determinar como devemos nos sentir, além de estipular até qual é o tempo certo para chorar e se recuperar. Tamanha ignorância pensar que todas as pessoas demonstram e vivem seus sofrimentos com transparência aos olhos do mundo. É de uma insensibilidade injustificável diminuir assim algo que cabe apenas a quem sente, e mais ninguém.

A verdade é que, independentemente de tentarmos fugir da tristeza provocada pelo luto, seremos pegos desprevenidos numa segunda-feira qualquer, no trabalho, durante o banho, ou no meio da rua. Quando percebermos que o perfume da moça desconhecida do nosso lado é o mesmo que o de quem se foi. E não há formato que sirva de referência capaz de definir como devemos nos sentir. O que permanece é a saudade e ela dói, mas hoje entendo: só mata se a gente se deixar morrer. Por mais difícil que seja, ainda há vida após a morte. Ela continua para quem fica, sabe-se lá até quando.

(IMAGEM: “Há dias que amanheço” — Por Layla Gabrielle)
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