um guarda-roupa abarrotado de máscaras

R. F.
R. F.
Aug 29, 2017 · 3 min read
(Ensaio fotográfico My Axious Heart de Katie Joy Crawford)

sei que eu tenho todas essas cicatrizes estranhas. falo e penso demais. fui modelada com uma intensidade exaustiva que nem sempre agrada… e pode até ser que você não me entenda, mas torço muito pra que ao menos tente. frequentemente me vejo presa num lugar estranho onde abriguei meus hematomas acumulados por anos. estou em silêncio, sentada num banco em plena terça-feira, revivendo todos eles sem conseguir desviar os olhos. uma parte de mim já decidiu: não pode evitar olhar porque já não quer mais ficar aqui, precisa sair nem que seja pra mergulhar de vez. mas por enquanto permaneço distante tempo suficiente pra pegar impulso e conseguir nadar até a superfície.
não é fácil lidar com as minhas ausências. demoro pra voltar, sumo sem explicações e reapareço como se nada tivesse acontecido. queria mesmo que você entendesse que nesse momento escolhi encarar a pessoa que me tornei, mas ainda não estou pronta pra falar sobre ela. desenvolvi bem essa habilidade de viver usando uma máscara diferente todo santo dia, e já fazem três que tenho usado a mesma. veja só, eu ando armada e carregada de realidade até o talo, e continuo sentada aqui, nesse mesmo lugar estranho, esperando a vontade de atirar passar.
pode ser que o sol nasça bonito pra você, mas gostaria que você entendesse: não tenho mais fechado os olhos pra sentir essa quietude como eu costumava fazer. meu prazer em existir tem diminuído e eu lamento todos os dias por isso. viver no presente tem sido uma tentativa frustrada e distante, porque os caminhos sinuosos que tenho andado me levam sempre ao passado e ao futuro, sem me deixar descansar. olha, sei que te ensinaram isso, me ensinaram também, mas por favor, acredite: não é uma escolha. hoje, quando acordei, me dei conta de que talvez seja a hora de aceitar que todos somos rotulados e, logo eu que sempre detestei rótulos, encaro há um bom tempo quatro palavras como parte de quem sou. transtorno da ansiedade generalizada. até assusta, né? eu sei. sinto vontade de correr. consegue imaginar o quanto me encontro assustada sentada aqui, me revirando do avesso pra sair de cada crise? toda essa inquietação que mora no meu peito tem nome, mas eu preciso que você saiba que isso não me define. não posso deixar me definir, você também não. tenho que tentar ver além do que estou vivendo aqui e agora, e me esforço pra enxergar aqueles dias bonitos bem longe dessas cicatrizes. assim, quando me ver de partida, navegando por entre a necessidade de manter os pés no chão e o desejo imenso de desistir, vou saber que não é a hora de me deixar afundar. eu não sou minha ansiedade. torço pra que você consiga enxergar além e também entenda. eu não sou minha ansiedade. ela me devasta as vezes, é angustiante pra caralho, mas ela não é tudo que eu sou.

)

"Minha alma tem mais fome do que mágoa."

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