“O que eu penso de Mallu e Marcelo” ou “Desde o século XVI, as novinha tão sensacional”

Por Raquel de Freitas Banuth


Reacendeu-se na Internet a discussão sobre o casal Mallu Magalhães, 22, e Marcelo Camelo, 37. Começaram a namorar quando ela tinha 16, e o que é discutido é a diferença de 15 anos entre eles. Há quem defenda o casal, dizendo que não é porque ela é mais nova que o relacionamento é necessariamente abusivo. Outros vão na contramão e dizem que o fato de uma menina mais nova ter uma vida conjugal com um homem mais velho não pode ser outra coisa que não uma relação de dominação. O que está na berlinda é qual é a real autonomia e poder de escolha de Mallu nessa relação.

Eu tenho pensado no outro lado, no lado do Marcelo. Me questiono o que leva um homem de 31 anos a iniciar um relacionamento com uma menina de 16.

Claro que não se pode enumerar quais são os motivos que levam alguém a iniciar um relacionamento com outra pessoa. Os motivos são múltiplos e de natureza variada, atrevo-me a psicologizar a discussão e dizer que motivos inconscientes também estão atuando o tempo todo na escolha de um parceiro amoroso. Qualquer tentativa de elencar quais fatores atuaram na relação Marcelo e Mallu para que culminasse em um namoro seria mal sucedida.

É impossível, como fizeram alguns, avaliar a dinâmica do relacionamento dos dois a partir de trechos de músicas dela ou de uma foto dos dois na praia. É infrutífero discutir se o namoro dos dois é “certo” ou “errado” porque isso envolve aspectos da vida privada aos quais só eles tem acesso. Não se trata de jogar pedras na Geni e tentar atribuir juízo de valor à vida privada do casal. No entanto, também não se pode dizer que vida privada e pública são esferas separadas e que essa é uma questão que só pode ser resolvida entre quatro paredes. A vida privada tem consequências políticas e sociais, e a individualidade é fortemente construída pela ideologia pública. Portanto, o que pode e deve ser debatido é qual o ideal de mulher é valorizado na mídia e nas relações sociais, e porque é valorizada a mulher ingênua e jovial. Ao invés de analisar condutas individuais do Marcello e Malu, deve-se questionar que consequências políticas tem a aparição na mídia de um casal cuja diferença de idade entre os dois é de 15 anos.

Encontro uma variável em comum entre o namoro deles e o casamento de Henrique VIII com Ana Bolena e depois com Jane Seymour, fato histórico ocorrido no século 16; e Tom Jobim e Vinícius de Moraes compondo Garota de Ipanema a uma Helô Pinheiro de 17 anos de idade; e se a situação me permite puxar exemplos da ficção, os filmes “Lolita” e “Beleza Americana”, o casal Maria Isis e José Alfredo da novela “Império”, as letras de funk que tanto invocam a figura da “novinha”: em todas essas situações, é exaltada a figura da mulher jovem.

Mulheres jovens também possuem atributos de beleza considerados ideais para a beleza feminina: pele lisa, peitos e bunda firmes e empinados, lábios grossos. E à pouca idade estão também associadas características de personalidade. À mulher jovem atribui-se pouca experiência, pureza, inocência. Por isso, mulheres jovens são mais facilmente maleáveis e estão mais sugestionáveis, consequentemente, mais suscetíveis a abusos, sejam eles psicológicos, físicos ou sexuais. Em uma sociedade patriarcal e machista, não surpreende que o ideal de feminilidade seja e de uma mulher fácil de ser enganada e convencida. Amor, sexo e casamento também são questões políticas, e o casal Marcelo e Mallu não é isento de significado político.