Pickup artist: sujeito homem e mulher objeto

Por Raquel de Freitas Banuth


Têm pipocado na internet vídeos dos chamados PUA (Pickup Artists). São vídeos de homens que ensinam outros homens a, como eles dizem, “pegar” mulheres. Os formatos de vídeos são variados. Tive acesso a vídeos em que havia um rapaz conversando com quem está assistindo e dando orientações diretas a eles, e vídeos que mostram rapazes abordando mulheres em lugares públicos, como o metrô, baladas etc. e as beijando depois. Esses vídeos tem muitos problemas sérios, mas vou me ater a apenas um deles.

As frases que são ditas nos vídeos são do tipo: “Conquiste a mulher dos seus sonhos!” “Descubra em cinco passos o que você está errando!” “Aprenda abordagens incríveis e tenha sucesso!”

A objetificação da mulher nesses vídeos é explícita. Explico.

Primeiro, porque transformam a mulher em uma categoria única e uniforme. Uma amiga disse que esses vídeos “reduzem o universo que há em outra pessoa”, e eu não poderia concordar mais: a multiplicidade de sujeitos mulheres é reduzida a uma massa homogênea e simplista. Judith Butler, filósofa e teórica de gênero, diz que a mulher deve ser definida em sua incompletude essencial. O que ela quer dizer, e o faz lindamente, é que não há uma definição do sujeito mulher porque não existe uma categoria mulher única, completa, fechada. Não existe uma essência feminina. Existem mulheres diversas, que completam a si mesmas com suas próprias histórias de vida, interesses, reivindicações. Se não existe uma definição única do que é ser mulher, é absurdo pensar que existe uma fórmula que se aplique a todas infalivelmente.

O que leva ao segundo ponto. Note que o que é dito nas entrelinhas dos vídeos dos PUA é que se a mulher não está interessada em você, é porque você, homem dominador e sabedor, está errando alguma coisa, mas você, homem dominador e sabedor, ainda assim tem em você o potencial para faze-la ficar com você independente da reação dela, seja de desinteresse ou recusa.

Dá pra perceber aonde eu quero chegar? Sem fazer muito esforço, o que é que vem à mente quando se pensa em um homem que ignora a recusa de uma mulher e insiste em se relacionar com ela? Abuso sexual. A meu ver, o maior problema desses vídeos é o fortalecimento da cultura do estupro.

A cultura do estupro é um ambiente onde o estupro e a violência contra a mulher são naturalizados. Entre os fatores perpetuadores, estão a objetificação da mulher e a glamourização da violência e do assédio sexual. Alguma semelhança com vídeos que mostram a mulher como um prêmio a ser conquistado, a partir de técnicas que ignoram o consentimento da mulher e se ela está bem com isso? Não só vejo semelhanças como vejo a própria personalização da definição de cultura do estupro. O assédio é não só naturalizado como incentivado, e a capacidade de agência da mulher é ignorada em nome do fortalecimento da passividade da mulher objeto, que pode ser manipulado e conquistado.

O pensamento que sustenta uma cantada de rua e um estupro é o mesmo. Não que eu ache que as experiências são parecidas (embora ambas sejam violentas, as mulheres estão sujeitas diariamente às cantadas de rua e aprenderam a suportá-las) em termos de sofrimento e consequências para a saúde mental da mulher. Sustento que o pensamento que as permeia é um pensamento misógino, que mantém a visão do homem dominador e racional e a objetificação da mulher, que sofre violência por ter sua autonomia ignorada e ser concebida como submissa e passiva.

Vídeos que ignoram, de forma tão descarada, a autonomia da mulher me escandalizam. Que transformem a mulher em um objeto a ser conquistado a partir de um método pré-definido. Fico preocupada que crianças e adolescentes vejam esse vídeo e aprendam que mulheres são manipuláveis, e que um “não” vindo delas não é um impedimento, mas apenas um obstáculo a ser contornado com insistência e pressão. Isso me faz ver o quanto estamos longe, no discurso e na prática, da valorização da mulher enquanto sujeito de direitos, e muito mais lamentavelmente próximos da sua depreciação e coisificação.