A história de um homem viajante

Fernando é artesão. Vende pedras, objetos místicos, colares e pulseiras, os últimos feitos à mão. Pelo menos 70% do material que ele vende é artesanal. Seu ponto de venda habitual é a Praça da Alfândega, em Porto Alegre. As peças são simples e variam de R$10 a R$35. Ele é ateu, mas acredita na força da natureza, no universo e que os materiais carregam consigo energias diferentes, que nos influenciam no dia a dia. Na praça, Fernando divide espaço com outros vendedores. Muitas vezes eles trocam materiais e dividem a máquina de passar cartão, equipamento que Fernando não possui.

No mês de novembro de 2018, Porto Alegre realiza a 64ª Feira do Livro municipal, que é sediada, justamente, na Praça da Alfândega. Quando entrevistamos Fernando, no final de outubro, a estrutura da Feira já estava montada e os organizadores circulavam pelo local, ajustando os detalhes para a abertura do evento, no dia 1º. Fernando e os outros artesãos estavam animados para a inauguração da Feira, que movimenta o turismo na cidade e impacta diretamente a venda dos artesãos de rua.

O trabalho manual é herança da mãe, que é costureira na cidade de Monte Belo do Sul, na região do Vale do Taquari, na serra gaúcha. O pai abandonou a família quando Fernando ainda era criança. Com ascendência italiana,

Fernando apresenta um tipo europeu, olhos verdes, cabelo loiro escuro, que mantém comprido até os ombros e barba, também comprida. Ele conta que tem origem humilde e que a mãe trabalha como costureira e crocheteira desde os 12 anos.

Fernando tem 42 anos e prefere que não divulguemos seu sobrenome. Não explica exatamente o motivo, mas fala em possíveis perseguições políticas. Além disso, ele crê na existência de uma conspiração norte-americana, bastante organizada, contra os movimentos sociais latino-americanos. Relata, inclusive, que participa dos Fóruns Sociais Mundiais desde o início e que, em 2006, quando o Fórum foi realizado em Caracas, na Venezuela, os Rolling Stones — segundo ele, alinhados aos interesses norte-americanos — ofereceram um show gratuito na praia, no Rio de Janeiro, o que se configurou em um boicote ao Fórum Social Mundial naquele ano.

Os Fóruns Sociais Mundiais ganharam relevância nos anos 2000 como um ponto de encontro de movimentos sociais e acabaram se tornando grandes eventos culturais e contra-hegemônicos. O número de participantes tem crescido nas sucessivas edições do Fórum: de 10.000 a 15.000 no primeiro fórum, em 2001, a cerca de 120.000 em 2009, com predominância de europeus, norte-americanos e latino-americanos. Podemos dizer que ele foi importante para o Brasil e o Mundo.

Em off, Fernando mostra trabalhos antigos, de panfletagem, que ele realizou nas ruas de Porto Alegre, alertando para uma conspiração do governo americano e da maçonaria contra os interesses nacionais.

Ele carrega esses papéis, dobrados e amassados, com mensagens de alerta digitadas no word, dentro da mochila. Mas todas as revelações conspiratórias são feitas informalmente. Assim que ligamos o gravador, Fernando prefere voltar a falar do artesanato, e, também, aocenário político brasileiro atual, com o segundo turno, que, até então, estava indefinido entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro.

A campanha #EleNão, que tentava alertar para as tendências fascistas do então candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, vinha ganhando força nas semanas que antecederam a decisão do segundo turno. Fernando estava mobilizado, junto com colegas e outros manifestantes, participando de reuniões e debates públicos nas ruas de Porto Alegre. Quando o entrevistamos, ele nos ofereceu adesivos com a hashtag anti-fascista. Em nossa primeira conversa, ele explicou “vou votar no professor (candidato Fernando Haddad), porque acredito que esse é o caminho mais adequado para o Brasil”.

A virada progressista esperada por Fernando não aconteceu. Hoje, o ex-militar Jair Bolsonaro é presidente. Cortes de investimentos na área de educação e cultura são o temor de quem trabalha neste setor, visto que o presidente já havia defendido em ocasiões anteriores o corte de recursos e até mesmo a extinção do Ministério da Cultura.

Na ocasião de nossa entrevista com Fernando, ele admitiu que estava esperando os resultados da eleição para decidir quais rumos iria tomar na vida.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha feita no mês de maio de 2018 já havia apontado que 70 milhões de brasileiros, com mais de 16 anos, iriam para o exterior se tivessem oportunidade. O estudo aponta que 43% da população adulta tem o desejo de se mudar. Na faixa-etária de 16 a 24 anos, a porcentagem é ainda maior, chegando a 62%. São 19 milhões de jovens que deixariam o Brasil, o número equivale a toda a população de Minas Gerais. Fernando se apresenta como um indivíduo “nômade” e não teria medo de partir do Brasil caso os ventos soprassem neste sentido.

Fernando conta que sua iniciação no artesanato foi na adolescência, quando tinha 17 anos, ainda no interior gaúcho.

Ele tinha um amigo índio, que certa vez chegou com a proposta de os dois saírem juntos para viajar, vivendo da venda de artesanato. Fernando topou o desafio, aprendeu as técnicas de artesanato com o amigo e partiu em viagem pela América do Sul.

Ele não cita, exatamente, todos os países pelos quais já passou, mas viajou bastante pelo Brasil, conheceu o Pantanal, a Bahia e o Sudeste. Viajou para Uruguai Bolívia, Chile e Paraguai, pelo menos. Ele conta que fala castelhano e um pouco de italiano.

Tem uma alma nômade e está há pouco tempo residindo em Porto Alegre. Sua primeira passagem pela capital foi em 1996. Depois, teve mais uma estadia rápida aqui na cidade, entre 2002 e o início do ano de 2005. Foi aí que iniciaram as viagens pela América do Sul, quando chegou a ficar dois anos longe do Brasil. Quando voltou, foi morar em Florianópolis, lugar em que permaneceu por um tempo. Agora, está de volta ao Rio Grande do Sul. Fixou-se em um pequeno apartamento, no centro histórico de Porto Alegre.

Atualmente, Fernando está vivendo um momento “mais família”. Casou-se e tem três filhos, dois são pequenos. A mulher dele é mais jovem, negra, e estuda Ciências Sociais na UFRGS. Pelo menos uma vez no mês, ele volta a Monte Belo do Sul para visitar a mãe, que tem 73 anos de idade. O resultado do trabalho com o artesanato é direcionado para sustentar a família. Mas ele já planeja a próxima viagem, que será para o litoral, na alta temporada de verão, período em que aproveita para impulsionar a venda dos artesanatos. Para sobreviver, ele teve que dominar várias atividades, já passou pelas profissões de marceneiro, carpinteiro, metalúrgico e construtor. Hoje, ele prefere o artesanato, pois “oferece a possibilidade dessa vida mais aberta”.

Durante a entrevista Fernando deixa claro que o trabalho que faz na Praça da Alfândega não é ilegal e que possui credenciamento na secretaria Estadual e Federal. No final de 2015, aconteceu a regulamentação da lei que reconheceu o artesão como profissional das artes feitas manualmente. A categoria reúne mais de 10 milhões de profissionais. Com a norma, esses trabalhadores têm acesso à benefícios sociais, como a aposentadoria, por meio da carteira do artesão.

A lei definiu como artesão o profissional que exerce atividades predominantemente manuais, que pode contar com o auxílio de ferramentas e outros equipamentos, desde que visem assegurar qualidade, segurança e, quando couber, observância às normas oficiais aplicáveis ao produto. No Rio Grande do Sul, o trabalho produzido por Fernando, é incentivado pelo Programa Gaúcho do Artesanato (PGA) , que busca incentivar a profissionalização dos trabalhadores que produzem artesanato e fomentar a atividade artesanal.

No início desse ano, o PGA contabilizou a comercialização de 3.228.371 de peças no Rio Grande do Sul. Desse total, 194.621 peças foram vendidas apenas em Porto Alegre. Ao todo, o programa conta com um cadastro de 52.202 artesãos ativos. Com o cadastramento, é possível contribuir para a Previdência Social, emitir nota fiscal de venda, ter isenção do ICMS, obter declaração de rendimentos, participar de exposições, feiras e eventos no Brasil e no exterior.

Fernando conta que das várias artes que existem, essa é uma das mais importantes para ele, pois consiste em um trabalho que as máquinas não conseguem reproduzir. Ele explica que as peças dele precisam ter preços mais altos, pois ele não conta com as vantagens tributárias e técnico-produtivas da indústrias.

“Pago impostos como qualquer outro cidadão”, ressalta. Ao longo da entrevista, ele se apressa em não aparentar ser um sujeito “louco, alienado ou drogadito, como a sociedade costuma enxergar os artesãos”.

Algum bloqueio se estabelece entre nós entrevistadoras e ele, entrevistado, na medida em que Fernando não aceita qualquer subestimação. Um discurso mais elaborado, com tom político e teor de defesa da classe trabalhadora, mais especificamente dos artesãos, se torna mais confortável para ele. Não conseguimos voltar às histórias pessoais e não houve uma grande abertura, mais emocional, da parte dele. Não escutamos histórias tristes. Vimos em Fernando uma personalidade que se confunde entre o trabalhador formal, pai de família, e o viajante, que acredita na força do cosmos, na conspiração das forças capitalistas e preza por um estilo de vida alternativo.

Quando questionado sobre como a sociedade enxerga o trabalho do artista de rua, ele prefere não falar em preconceito, pois considera que essa narrativa subjuga os artesãos e os relega a uma categoria marginalizada, discriminada pelos “cidadãos comuns” e trabalhadores formais. Para Fernando, ele e outros vendedores que tem a rua como estabelecimento são cidadãos e exercem uma profissão regulamentada, como qualquer outra. Para ele, não há mistérios nisso.

O interesse de Fernando pelas atividades manuais começou desde cedo. Quando menino acompanhava de perto as tarefas da mãe. Ela tinha diferentes habilidades como costura, tricô e crochê.

“Quando eu era criança, vivia com as mãos machucadas porque sempre tava mexendo com um martelo, uma faca, ou qualquer outra coisa. Eu tinha uma curiosidade enorme de pegar essas matérias primas e transformar em arte. Além disso é uma atividade terapêutica e relaxante”.

Ele ainda diz que os materiais que mais gosta de trabalhar é o cordão e o metal, mas se pudesse escolher um, seria o metal.

No artesanato, considera-se matéria-prima toda substância principal, de origem vegetal, animal ou mineral, utilizada na produção artesanal, que sofre tratamento e/ou transformação de natureza física ou química, resultando em bem de consumo. Ela pode ser utilizada em estado natural, depois de processadas artesanalmente/ industrialmente ou serem decorrentes de processo de reciclagem/reutilização.

Entre os metais mais utilizados na produção artesanal encontram-se chapas de ferro galvanizado, folhas de zinco, folha de flandres, alumínio, estanho, bronze, cobre e prata.

Fernando também destaca que cada artesão desenvolve uma técnica diferente, nenhum produz igual ao outro. O estilo do artesão empresta originalidade a seus objetos, como que a marca pessoal.

Segundo o Portal São Francisco, cada um opta por um estilo, mas não deixa de ser influenciado pelo ambiente (a natureza) em que vive e pelos modos de vida própria da área cultural que pertence. A escolha do campo de trabalho artesanal do ofício ou especialidade é ditada pelo material adequado a transformação e abundante no lugar. Isso ocorre dos recursos naturais.

Fernanda explica que quando expõe os artesanatos sob um pano no chão, está reproduzindo a forma como os ancestrais apresentavam seus trabalhos.

“Nós resgatamos não só uma, mas várias culturas. A gente tem trabalho aqui das civilizações incas, peruanas, mandalas indianas, tem também os alargadores que vem da cultura aborígene”, narra enquanto aponta para os objetos expostos.

Já é quase 12h quando me despeço de Fernando. Ele volta a trabalhar, agora ao lado da esposa e do filho ainda bebê. Encerrar a conversa é uma sensação estranha. É como se estivéssemos saindo, de volta, para um mundo completamente diferente.

É incrível como um pedacinho de pano e algumas pedras têm tanta história pra contar.