Gardenal

Quando eu passei na faculdade e finalmente saí da minúscula e interiorana (embora muito influente) Itajubá, eu gostava de andar de ônibus. Naquela época (míseros e enormes quatro anos atrás) ainda não tinha uma via direta da minha cidade natal pra Campinas. Assim, ao invés de ficar sentada no Gardênia durante as 4h10 da linha expressa (abençoado seja o busão das 17h30), eu tinha que enfrentar, no mínimo, 5h30 de viagem. Digo ‘no mínimo’ porque não foram poucas as vezes em que o ônibus quebrou e a gente teve que esperar tempos infinitos na beira da estrada.

obg moisés magno

Perrengues à parte, eu gostava de andar nos veículos da Gardênia, carinhosamente chamada de Gardenal entre os íntimos (já dá pra sacar o naipe). Cada partida era uma nova emoção, uma nova história. Às vezes eu sentava do lado de pessoas interessantes, e íamos conversando durante o percurso. Eu podia me atualizar nas novas músicas, ler livros, ver a paisagem passando poeticamente pela janela, pensar na morte da bezerra.

Quatro anos depois, as circunstâncias mudaram um pouco. A passagem aumentou bastante, mas a qualidade continua a mesma (uso aqui “qualidade” me referindo não ao atributo louvável de algo ou alguém, e sim ao caráter da coisa). Antes eu não ligava de ficar eternamente sentada na poltrona matutando; agora eu só quero chegar logo. 5h30 não pareciam tomar meu dia inteiro, mas agora tomam. Eu passo mal de ler na estrada, as músicas depois de um tempo me cansam, pensar na vida só dá bad e a bezerra tá morta e enterrada. É bem Gardenal mesmo.

Acho que eu fiquei com mais pressa. O tempo continua o mesmo, mas eu tenho menos dele pra perder — não que isso signifique muita coisa na prática, já que eu to revendo tudo de Friends pela sexta vez. São dez temporadas de 23 episódios cada, só pra constar. O que era novidade virou rotina chata; o que era tempo pra mim virou tempo pra não usar bem o tempo. Antes era bem independência, eu sendo a dona do mundo. Agora voltar pra Campinas é bem não saber dos rumos do futuro e ter que lavar a louça acumulada que eu esqueci no final de semana.

Mesmo assim, com toda essa chatice de busão, ainda tem umas partes que valem a pena. Matar a saudade de casa e comer feijão fresquinho é uma delas. Outra é que agora eu tenho uma companhia fixa que vai sempre que dá no mesmo Gardenal pra Itajubá, e é bom enfrentar essas loucuras com alguém do lado. Além do que a galera da minha república é ótima, e o meu 1/4 de cachorro (os outros 3/4 são das outras três meninas da casa) é fofo quando não tá mordendo tudo que tem pela frente. E às vezes eu vejo uns vaga-lumes na estrada.

Agora eu tenho que parar de escrever pra comprar a passagem do final de semana. Vou acumular várias noites mal dormidas pensando na monografia pra dormir bem no busão. Amor e ódio por você, Gardênia.

Mas mais ódio mesmo.

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