O peixe Garry
Cidades com rios são poéticas. Num acesso de cólera, você pode querer atirar alguém no rio. Num acesso de tristeza, você pode querer atirar a si mesmo (por favor, não o façam). Depois de uma briga de casal, você pode falar que vai jogar toda s as roupas da pessoa na água. Se você tem um segredo material, é só descartar no córrego que ele leva embora. A minha cidade nasceu por causa de um rio. Parece que dia desses um padre tava passeando pelas montanhas de Minas Gerais e decidiu que ali, às margens do Sapucaí, era o local perfeito para fundar a sua igreja. E assim o fez. Hoje, o rio diminuiu um pouco. Algumas partes suas foram soterradas pra dar lugar a estacionamentos — a cidade cresceu mais rápido que o espaço disponível. Mas ainda corre um trechinho seu no meu bairro, e a avenida principal se formou em volta dele. Muitas poesias já devem ter passado por ali.
Me lembro bem de quando, numas férias, pesquei um peixe na fazenda do meu avô. O hábito era pescar e dar pra alguém matar pra gente comer depois, mas eu não quis. Fiquei com dó, era tão pequenininho. Chamei ele de Garry e levei embora pra casa dos avós dentro de um copo. Ele foi ficando maior e o copo virou um balde. Depois, ficou do tamanho de peixe que vende no supermercado. E daí meu avô me falou que era hora de libertá-lo.
Saímos, eu e ele, mãos dadas, em direção ao rio. Passa logo abaixo de sua casa. De cima da ponte, olhei lá pra baixo. Senti um aperto no peito pelo Garry, mas tive certeza que ele encontraria uma família. Trocamos olhares e meu avô virou o balde lá pra baixo. Caiu uma torrente de água que bateu forte de encontro ao rio. Achei linda aquela cena de liberdade pura, do selvagem voltando ao seu estado natural. Parecia cena de filme. Mas aí uma dúvida.
Perguntei cadê o Garry. Meu avô apontou algo na água e falou “alá! Tá nadando lá pro fim do rio já!”. Fiquei um pouco chateada porque achei que ele ia ficar olhando pra cima pra se despedir da gente, mas aceitei feliz o destino dos libertos. Mesmo assim, dei tchau pro peixe e fomos embora, com uma grande sensação de dever cumprido.
Hoje penso que a queda foi muito alta e o Garry provavelmente bateu com força na água e ficou boiando, morto, e meu avô me distraiu com um reflexo qualquer.
Às vezes rios não são tão poéticos.