Nem demais, nem de menos.

Em meio ao ruído incessante do transito paulistano eu aguardava um taxi e observava duas adolescentes conversando, sentadas na escadaria de uma igreja. Entre uma fala e outra, faziam caras e principalmente bocas (ou melhor, biquinhos) e disparavam muitas selfs. Continuei observando quando ouvi uma dizer para outra: — Queria ser como ela. Ela é demais!

Vivemos em um tempo em que ser ou estar entre os “very importante person” tem sido uma obsessão para muitas pessoas. Ainda assim, cá entre nós, o que afinal este tal “demais” expressado por aquelas garotas pode significar para causar o desejo de serem iguais “à ela”? O que poderia ser melhor do que o “demais” presente no tempo disponível e na possibilidade de alegria facilitada pelos hormônios inerentes à juventude daquelas duas lindas adolescentes?

Penso, penso e parece-me que este “demais” esta associado à altos níveis de expectativa. As pessoas em geral esperam muito de tudo. Esperam que as festas sejam sempre divertidas. Que todos os amigos sejam leais. Que o trabalho seja agradável o tempo todo. Que os casamentos e romances durem até que a morte os separe. Que os filhos sejam incríveis demais. Que a sua aparência física seja do tipo “Fit” (não me pergunte sobre isso!). Em outras palavras, que a vida seja perfeita demais em tudo.

Continuo pensando e pergunto-me então se essa expectativa toda não seria algo que esta fora da medida, fora do equilíbrio. Dia desses cheguei no apartamento de uma amiga e ao mesmo tempo em que ela me convidou para entrar disparou a frase: — Não repare na bagunça e na poeira, não tive tempo de organizar. Dito isso, seguimos nosso bate papo. Confesso que passei a tarde com ela tentando encontrar alguns vestígios de poeira e bagunça, e sinceramente não os encontrei. Não estavam à vista. Fiquei intrigada e antes de ir embora não resisti e perguntei por que ela havia me dito para não reparar, quando na verdade o que eu avistara era um ambiente aconchegante, limpo e arrumado. Ela imediatamente começou a apontar tudo o que podia para me provar o contrário e foi citando espontaneamente: — Vês aquele casaco sobre a mesa? E aquele copo sobre a escrivaninha? Também têm aquelas xícaras na pia. Mas o pior é minha cama que não arrumo desde ontem!

Por alguns instantes fiquei parada, quietinha, ouvindo-a e pensando sobre o que poderia estar passando dentro da sua cacholinha e que lhe causava tamanho tormento. Porque cá entre nós, vamos assumir que limpeza e organização demais não combinam com bem estar. Tão pouco sujeira e bagunça, é claro. Senti muita vontade de dizer para ela que a louça não foge da pia. Assim como os problemas não fogem pela porta dos fundos. E que eu prefiro pensar que o copo deixado sobre a escrivaninha não é vestígio de desordem e sim uma pista de que alguém esteve por ali, quem sabe escrevendo uma carta de amor ou, numa perspectiva mais realista, calculando o orçamento do mês (agora senti falta de um “emoticon” para incluir nessa fala, um daqueles que traz a expressão de susto).

Sabe amiga, copos que não saem das cristaleiras é que me preocupam. E fique sabendo minha querida, que algumas pessoas preferem o aconchego das camas desarrumadas.

De qualquer forma, encaremos os fatos de que dentro de perspectivas mais realistas, teremos festas menos divertidas que outras, amigos mais leais e outros menos, nosso trabalho terá fases entediantes ou estressantes. Também os casamentos e romances nos farão amar e chorar e os nossos filhos invariavelmente serão humanos, o que os torna incríveis!

Sinto a vida como um movimento magnifico justamente por conter todos os seus altos e baixos. Afinal, o que seria da arte, da poesia, da literatura e de tudo o mais que exige a presença da exclusiva sensibilidade humana se vivêssemos em um excedente e constante contentamento, tão ofuscante quanto as nossas ilusões?

Certamente é necessário que a tristeza e a dor, assim como as outras faltas, ou melhor, o “de menos” estejam presente hora aqui, hora ali, para que se realize a perfeição estética das emoções.

Não tenho nada contra esperarmos o melhor de tudo, mas temo que quando essa expectativa entra em crise com o que a vida por regra pode nos entregar, acabe em antidepressivos demais. Eu particularmente espero que a vida me sirva um pouquinho de cada, nem de mais, nem de menos.

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