Partir e ficar partido

Aos sete anos ela, minha primogênita, estava partindo pela primeira vez para uma viagem de estudos com seus colegas de aula. Feliz, ansiosa para acessar as novas descobertas que estavam por vir em um mundo para ela ainda não experimentado, preparou-se para uma viagem de ônibus na companhia dos amiguinhos. Levava com ela uma mochila recheada de lanches e guloseimas e o melhor, uma generosa porção de liberdade que a permitiria respirar por algumas horas longe do amoroso olhar da mamãe e do papai. Sim, o destino era bacana, mas certamente qualquer destino teria sido igualmente festejado e esperado. Partir era o objetivo maior. Eu estava radiante, orgulhosa e tão ansiosa quanto ela. Foram entrando no ônibus um a um dos viajantes. Na intenção de abanar para ela quando partissem, corri ao lado do ônibus ainda parado para ver se encontrava o acento onde ela estaria. Avistei-a e quando vi aquela mãozinha linda acenando um tchau para mim em um movimento delicado e faceiro, sacudindo aqueles dedinhos de um lado para o outro, foi o momento em que tive o insight de que há partidas que nos deixam felizes e outras que nos partem em pedaços.

No dia anterior esse mesmo gesto de aceno meigo e carinhoso havia sido feito por ela ao despedir-se da sua bisavó. Mesmo com todas as falas do tipo “ela viveu uma vida plena e longa” despedir-se de alguém que amamos quando essa partida é inesperada, quando nosso olhar não poderá mais alcançar o olhar do ser que parte, quando a memoria terá que dar conta do recado, francamente, é o tipo de partida que nos parte em muitos pedaços.

O que dizer então daquelas partidas misteriosas, onde a pessoa que partiu permanece ao nosso lado fisicamente porem não nos informa o destino para o qual mandou sua alma? Há dezenas de relacionamentos que conheço e que são assim. Casais que moram juntos e mantém uma vida partida, porque em algum momento, um ou mesmo os dois, embarcou para um destino traduzido em desejos, esperanças e objetivos bem opostos. Mas sejamos mais positivos não esquecendo que há também aqueles casais que partem unidos. Sim, partem para uma vida cheia de sonhos e desejos compartilhados. Partem para a primeira, segunda, terceira lua de mel. Delicia. Nestes casos é só felicidade!

Partidas existem aos montes e em vários formatos: há filhos que saem de casa porque passaram no vestibular; viagem de férias; mudança de domicilio; partir para outro emprego; partir para outro amor; embarcar em uma aventura; partir para um intercambio… As vezes são partidas com volta. Outras sem. Mas a verdade é que sempre nos causam emoções.

Bem, e eu parto (inteira!) desta nossa conversa me valendo das palavras da canção do Milton Nascimento… ” Coisa que gosto é poder partir sem ter planos, melhor ainda é poder voltar quando quero…”

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