O amor seria o ridículo da vida [18.11.06]

Antes do sol levantar ela já está acordada, não levantou ainda, só está acordada, pensando nas milhões de coisas que passam na cabeça de uma menina. Só levanta quando ouve um sino, é o sinal que a faz o dia começar de verdade. A avó Antonieta já está de pé preparando o café e esperando o leite. E era o leite o sino pra Nice levantar cedinho. A primeira tarefa do dia era buscar o leite fresco e engarrafado na portão da casa, ela saia do mesmo jeito que acordava, sem se preocupar se tinha vizinho reparando na sua camisola furada, e esse era o maior motivo pelo qual ela adorava aquele bairro.

Era um pouco distante, Sol parecia levantar mais cedo do que nos outros lugares, refletia no mar de um jeito que quem olhasse careta iria fazer, da intensidade do brilho. Mas Nice nunca reclamou, era numa daquelas casas estreitas na largura e longas nos corredores que morava Berenice, e como todas as mulheres desse brasil ela tinha um pouco de Maria. Maria, Maria Berenice.

Menina não mais, mulher não ainda. Tinha 15 anos, ela estava na confluência. A moça tinha e não tinha rotina, ajudava a avó em casa e fazia alguns serviços na vizinhança, — lavar, passar arrumar a casa, cuidava de criança quando os pais saiam — a vida corrida, até diria sofrida, mas ela tinha uma graciosidade e conseguia levar tudo numa boa. Maria Berenice não estudava, o pai tinha ido embora e a mãe doente não aguentou, não tinha irmãos, primos que não conhecia, só tinha a avó que sempre esteve com ela.

Todos os vizinhos a adoravam, moça bonita, na flor da idade, alimentando seus sonhos com sorrisos, ela nunca se cansava de cumprir com aquilo que era sua obrigação. Mas não era do trabalho rotineiro que ela gostava realmente de fazer. Apesar de não ir pra escola, ela tinha aprendido a ler e desde aquele dia, Nice passava o tempo livre que tinha pra fazer a coisa mais gostosa do dia, não tinha livros, nem dinheiro, alguns vizinhos davam pra ela ou emprestavam, certos de que ela devolveria sempre em bom estado.

Poesias de preferência, quanto mais linda e cheia de rimas de amor mais a menina suspirava. Fantasiava todo dia, e se pudesse o dia todo. Berenice não conhecia muitos meninos, e nem estava interessada, não saia de dentro de casa e vivia sempre ocupada. Só conhecia um, aquele que invadia seus sonhos, e fazia companhia nas madrugadas. Não tinha rosto nem identidade, ela não sabia o nome mas era apaixonada, o nome não sabia só sabia que sonhava.

Muito antes do Sol nascer ele já tava em pé, silencioso pra não acordar os pais, descia e pegava sua bicicleta, pra passar na casa do Seu Bira e pegar o leite, pra fazer a entrega pela vizinhança de manhã. Seu Bira ela um velho mesquinho e arrogante, “nem uma gota de leite derramada, cê ta ouvindo? Me dê prejuízo que eu desconto no teu dinheiro!” berrava todo dia antes de Frederico sair. No fundo ele confiava, Fred era um menino aplicado, vivia juntando dinheiro e ninguém sabia pra que.

Era um bairro um pouco distante, onde o sol parecia levantar mais cedo, de um lado a calçada das casinhas antigas e estreitas, do outro a calçada que separava a rua do mar. Escolhia pedalar pelo lado do mar, deixando o leite “ só na porta de quem paga em dia” ele não podia esquecer. De manhã entrega, almoçava e voltava a pedalar, de tarde passava pra fazer as cobranças e no final da tarde passava pra prestar o dinheiro pro seu Bira, que demorava pra liberar o menino, pois, fazia a conta três vezes pra conferir se não estava faltando nada, e nunca faltava, na mesma hora calculava os três prorcento — cinco era muito — para o menino.

Passava em casa correndo pra tomar banho, pegar o material e dar o beijo no irmão pequeno. Frederico estudava de noite, adorava ir a escola, literalmente ele adorava a ida, porque passava pela igreja ali perto sempre no mesmo horário, quando o coral cantava aquela música que tinha um solo no refrão. Era a voz mais linda que ele ja escutara, nunca tinha visto o rosto da menina que cantava, as cabeças altas não deixavam ele ver, mas ele se abaixava e conseguia ver que era sempre a mesma menina pelo tornozelo dela. Tinha uma pulseira e com um búzio do lado o qual ele achava um graça.

Todos os dias há dois anos. Não cansava de passar e parar um instante pra ouvir a voz da sereia por quem era apaixonado, ele nunca tinha a visto, é verdade, mas ele tinha certeza de que se ela fosse tão linda quanto a voz que tinha, seira a sereia mais perfeita de todo o mar.

Tarde ele chegava, mais tarde ainda ele ficava acordado só com a abajur acesa, fazendo ninguém sabia o que, a porta ficava sempre trancada. A mãe, nunca conseguiu descobrir, mas não se importava, o pai, morria de raiva da mania do menino, pois tomava o tempo da noite e ele nunca o ajudava a fazer a contabilidade da lojinha da família que ficava no andar de baixo, o pai queria que ele cuidasse da loja quando crescesse, e então tinha que mexer com isso desde cedo, tinha que se interessar, mas o menino insistia em se trancar e não sair de lá.

Depois de pegar o leite, ia pra cozinha tomar café. De manhã ajudava em casa e nas casas que ficavam por perto, lavava a roupa da Dona Sandra na pia de casa e levava quando tivesse seca, passar as roupas da Leide que tinha problema de coluna, deixava o almoço pronto na casa de Carlinhos que era solteiro — que por sinal, vivia paquerando a mocinha — e assim Maria Berenice variava de acordo com o dia da semana. Só não variava na parte da tarde, ela ia pra uma casa cuidar de um menino pequeno enquanto os pais cuidavam da loja da família, ela sabia que tinha um terceiro filho pq tinha uma cama a mais mas nunca o vira dentro de casa, “deve estudar de tarde” pensava ela.

Ela gostava de cuidar daquela casa, tinha um ar de sutiliza e paz e o bebê era uma graça. Quebrando a monotonia da tarde tranquila ela, de repente ouve um barulho, como se alguém tivesse entrando e foi ver quem era, era o pai que parecia procurar alguma coisa. Ele foi até o quarto do filho mais velho e procurava por todas as gavetas, algo que ele mesmo não sabia o que era e resmungava “á que eu heide descobrir o que esse menino anda fazendo toda noite que não quer saber dos negócios da família”. Berro maior foi quando ele achou e gritava pra Leila subir, “mulher! vem cá ver só, eu achei o que aquele muleque anda fazendo”.

Vermelho de raiva, juntou todos aqueles papeis e colocou num saco pra jogar fora. “Ele tem que garantir o nosso futuro, o futuro dele, e o do irmão também! e não ficar escrevendo historinhas!”. Berenice da sala escutava atenta, ficou na vontade de ler as histórias que aquele menino tinha feito, já que tinha tempo que ela não lia um livro, esperou a confusão acabar, a mãe resistia e pedia pra ele deixasse o menino fazer o que gostava, mas não era assim que seu marido Adelsso pensava e enfim jogou tudo fora indo cuidar da loja que ficou sozinha.

Nice não pensou duas vezes quando pegou aquele saco e abriu, leu algum trecho
e se perdeu em pensamentos nas palavras daquele menino. Nunca o tinha visto mas acabara de se apaixonar pelo pequeno escritor, que quase perdia a hora de ir pra igreja que ficava ali perto, sempre no final de tarde e tinha que ta la pra ficar tudo pronto pra missa começar, ela fazia parte do coral e solava no refrão de umas das musicas que mais gostava.

Depois de dois anos que ele trabalhava entregando o leite, e sempre no fim de tarde depois de ter passado no Seu Bira e pegado seu dinheiro, ele ia direto pro quarto guardar o dinheiro sempre na mesma caixinha, a cada dia enchia. Desejava juntar muito mais pra conseguir o que queria, diferente dos meninos da idade dele ele não queria bicicleta nova e nem um som daqueles, ele queria mais, era sua paixão e tinha um futuro em mente, ele queria ser escritor e já tinha suas primeiras idéias anotadas e guardadas no seu quarto, as quais escrevia toda noite.

Deu o beijo no seu irmão, pegou suas coisas e saiu, mais um vez ia pra escola e mais uma vez ia ouvir a voz da sereia, que naquele dia parecia soar a voz mais linda do que qualquer outro dia que ouvira. Lindo calcanhar com o búzio branco do lado, ele parecia um louco agachado na porta tentando ver alguma coisa por entre as pernas das pessoas que enchiam aquela igreja, mas ele não ligava, esse era o jeito de ir pra escola mais feliz e depois escrever mais um capítulo de sua história de amor imaginária, que escrevia desejando ser realidade e estar do lado de sua sereia.

A missa demorou mais do que nos outros dias, ou era apenas impressão que ela teve de tanta ansiedade de chegar em casa pra ler o que tinha começado de tarde. Correu pela rua, falou ligeiro com a avó, subiu pra se trancar no quarto e mergulhar naqueles capítulos lindos que lia incansavelmente. De tanto ler dormiu e sonhou, sonhou com o menino de sempre, que não tinha rosto e não tinha nome, mas agora tinha endereço, o menino que morava perto da igreja e que escrevia as coisas mais lindas que ela já leu, e adormeceu pensando “sorte tem essa sereia que é amada assim”.

De noite o pai foi fechando a loja enquanto ele subia as escadas, comeu alguma coisa e foi pro quarto como sempre, abrindo suas gavetas logo sentiu que sua caixa estava leve demais desde ontem a noite, quando pegara pra escrever, quando abriu, vazia, alguns papeis em branco e mais nada, vazio, foi assim que ele se sentiu quando pensou que nunca mais iria achar o que deu tanto trabalho pra fazer durante dois anos. Imaginou se conseguiria escrever tudo de novo, mas teve logo a certeza que não, sentimentos registrados não seriam os mesmos.

Teve a esperança de que foi a sua mãe que guardou em outro lugar e resolveu perguntar. Pela cara de triste quando ela viu a caixa nas mãos do menino, ele deduziu que ela sabia do que tinha acontecido e não disse nada, foi correndo na loja falar com o pai. Foi a maior discussão que ele tivera, o seu pai queria controlar seu futuro ele não era aquilo que ele queria, queria fazer o que mais gostava e queria viver disso, o pai tinha que entender, mas era tarde, procurou no lixo de casa e no da loja, ficou tarde da noite, quando ele chorando de planos perdidos, dormiu nos fundos da loja do jeito que sentou no chão.

Só acordou no outro dia com o barulho que sua mão fazia ao abrir a loja, depois que percebeu que estava atrasado pra pegar o leite no Seu Bira e resolveu não ir mais, já que seu sonho tinha sido destruído, a raiva fez ter a ideia de desistência e solidão sentia-se sozinho, faltando um pedaço. Seu Bira apareceu mais vermelho do que um pimentão, perguntando onde estava o menino, desesperado. Fred apareceu e disse que não ia mais trabalhar pra ele, “não quero saber, avisasse antes, os clientes já devem estar furiosos, ande, entregue hoje” pra evitar que o dia fosse pior que imaginara que ia ser, ele foi, devagar e desanimado, sem ânimo pra nada.

Já tinha passado a hora do leite chegar mas, Nice já tava de pé esperando e sentada, na cadeira de ferro que tinha na pequena varanda e lendo, segurando aqueles papeis que ela não ia largar por nada, mesmo sabendo que aquilo não era pra ela, ela gostava de ler, viajava e sonhava que seu menino um dia escrevesse assim pra ela. Na mesma rua, lá vinha Fred na bicicleta passando pelas portas e deixando o leite, não lembrava mais quem tinha pago ou não, ele não se importava mais.

Berenice gostava em particular de certos versos, os quais ela fazia questão de ler em voz alta e daquela vez não foi diferente. Recitava aqueles versos que ecoavam pela rua quase vazia e não acabou não escutando o barulho da bicicleta chegando mais perto. Frederico antes disperso, agora estava mais que atento ouvindo as palavras pela aquela voz tão bela, com a mesma rapidez, ele reconheceu aquela voz de algum lugar e reconheceu o verso! Era um dos seus trechos favoritos e, lembrando começou a recitar junto. Pro espanto dela que não parou de ler e deu mais vigor às palavras.

Fred a acompanhando foi andando cada vez mais devagar, a cabeça como um turbilhão “quem será que sabe esse verso?” e ela assustada e ao mesmo tempo gloriosa “será que ele veio aqui atrás de seus papeis, e tá recitando pra mim? É ele! só ele sabe o verso, é ele” os corações palpitavam como bombas-relógio a ponto de explodir, quando que no final no verso de tão devagar que anadava Fred despencou da bicicleta e derrubou todo o leite. O barulho das garrafas quebrando ao chão fez a menina dar um pulo e correr pra ajudar.

de cabeça baixa e zonza quando abriu o olho, mal viu o que tinha acontecido, só avistou na sua frente aquele calcanhar, a pulseira com o buzio branco e de lado era inconfundível! Junto a sua voz suave perguntando “vc se machucou?” era mais inconfundível ainda! Ele mal conseguia pensar “meus Deus! é ela! a musa da minha vida! A sereia que me encanta todos os dias, é ela! É ela”. Levantando ele viu que a moça segurava seus papeis, aqueles que achava que tinha perdido, em pé ele ficou mudo, branco, embasbacado. Peguntou quase sem voz e gaguejando “onde-de conse-se-gui isso?”

Maria, mais lerda que ele não conseguiu responder, ainda depois dele apontar pra pulseira amarada no pé, ela não se movia, ele perguntou se ela cantava no coral da igreja ao anoitecer, a menina endureceu e continuou muda. O mundo parecia ter parado, o leite escorrendo por entre os pés não fizeram distração, eles mal piscavam os olhos, nada mais agora importava. Frederico achou seus papeis nas mãos daquela que lhe trouxe inspiração, e Maria agora desejava um beslicão, parecia ser que estava em um de seus sonhos, mas agora podia ver o rosto do menino.

De alguns minutos parados, a impressão era de que tinha se passado algumas horas. Eles seguiram pro outro lado da rua em direção ao mar e sentados na areia tinham milhões de coisas pra esclarecer, bilhões pra responder e trilhões pra perguntar. O leite derramado não importava mais, a bronca que seu Bira iria dar também não importava mais, nada mais importava, sonhos realizados e um casal que era apaixonado antes mesmo de se conhecer.