Ansiar, carregar

As sombras das florestas espalham-se em redor,/Onde também o ribeiro desliza longe e com palor,/E avista-se a certas horas a imagem da distância,/Quando o homem a tal sentido aplica a sua ânsia.

assim o canta Friedrich Hölderlin, em “O Verão”

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1- Era uma vez um botão mágico que sempre trazes contigo. Desconheces a sua origem, e não parece ser teu; na verdade, pareces ser tu. Estou inteiramente certo de que ainda não carregaste nele. Qualquer botão é o nome comum concretizado da urgência de decidir. Os botões preludiam as ações, e pode revelar-se doloroso lançar-lhes um olhar para depois sentir que a nossa vista não regressa apenas com as cores e as formas do embate, mas também com a escolha contida nos olhados. Carregamos connosco uma angústia que pesa esmagadora: a de poder carregar. Esse botão de que te falo produz um extraordinário efeito quando pressionado: pontua definitivamente a tua existência. Ou seja, caso nele carregues, não serás mais. Abandonarás todo o tudo. Alguém se encarregará de te compor uma elegia. E decerto terás um cobertor de terra.

2- Não sejas crédulo ao ponto de pensar que só contigo isto se sucede: é um segredo que ninguém conta mas que todos sabem. Botões como esse sempre serão enquanto sempre houver homens e mulheres. A cada cabeça as suas ideias, mas sobre todas um só céu. E se é indiscutível que vivemos contra as nossas mortes como que escrevendo contra o tampo de uma mesa, é também inegável que cada um de nós teoriza e pratica um modo diferente de gerir os seus botões. Podes esquecer-te do teu ocupando o espaço em redor, para que te fuja do olhar. É o que muitos fazem: estão mobilados por dentro, decoraram os seus interiores com memórias, sentimentos, ocupações. Assim, torna-se natural a distração. Institui-se a desatenção como o mais prezado dos instrumentos para a sobrevivência. O botão continua lá, mas já não reparas.

3- E há quem toda uma vida se deixa encurralar por vozes outras. Tem o botão nas mãos, e, num momento que aparenta ser o derradeiro, não sabe se deve ou não carregar. Como se esse gesto tivesse algum dever a ele implícito. E pergunta aos demais: carrego ou não? E eles ficam muito preocupados e abanam a cabeça em jeito de negação, porque os humanos se amam demasiado uns aos outros, e é profundamente humano amarem-se demasiado uns aos outros. A pessoa que perguntou cede, larga o botão. Se conseguir, escondê-lo-á. E eles aplaudirão, dirão que ela agiu como deve ser. A mim não me cabe julgar se estão certos ou errados. E, todavia, ninguém vem viver por nós, deixaram-nos a sós com quem somos.

4- Outros há que aqui acham não um dever, mas uma coragem. Porém, por se considerarem cobardes, nunca carregam; ou por nunca carregarem, consideram-se cobardes. Enredadas nas suas explicações, estas almas opõem ao fim a razão, e, para elas, o fim nunca tem razão. Por isso, meditam, pensam cofres cada vez mais impenetráveis onde guardar estes botões. O problema reside na constatação de que um homem dotado da racionalidade que lhe permite selar o seu botão longe de si tem, consequentemente, a capacidade simétrica: a de, com um só pensamento, destrancar tudo; novamente terá o maldito botão na mão. Este tipo de pessoa existe em valsa perpétua, toda a vida equilibrando a sua tendência para escurecer com a sua consciência de esclarecer. Um eterno carrego ou não? Para esta espécie de gente que tudo intelectualiza, a própria relutância em carregar torna-se num segundo botão, e sobre este paira a mesma indecisão, e por aí adiante, até que a sucessão chegue ao lado de lá do infinito. É isso que os salva.

5- Por fim, há os que carregam. Estes talvez sejam os únicos que não decidem coisa nenhuma. Por desespero ou cansaço, as suas mãos perdem a força e pousam, tristemente, em cima do botão. Sobre eles, resta dizer-se todo o silêncio