Domesticação do Mito

O Senhor Administrador estalou a língua três vezes para pontuar devidamente o silêncio que se gerara em torno do consenso, ou o consenso que se gerara em torno do silêncio. Disse, por fim, com os olhos azuis reluzindo que nem dois charcos à luz de uma manhã quente:

-A saudade…

-De facto, a saudade.- prontamente confirmou o Senhor Consultor, solícito como sempre o fora, debitando essas palavras num admirável exercício de avaliação e articulação de conceitos, potencialmente perigosos, escorregassem eles de outra língua menos cuidadosa, mais demagógica.

O Auditório, na humilde e prestável condição que dele se espera, soltou um longo e uníssono suspiro. Daqui não lhes vejo as caras, mas sei para onde olham: grande parte pousa a vista no chão, os restantes fitam um indefinido horizonte que lhes cala as lágrimas e lhes ergue a cabeça acima de um corpo precário e esculpido rente ao osso pelas mãos da fome. O Senhor Administrador prossegue:

-A saudade, como é do conhecimento geral, trata-se de um fenómeno psíquico e cultural que consiste na experiência subjetiva de um paradoxo físico: percecionar um intervalo temporal como se tratasse de uma larga distância espacial, considerar que o que foi está longe de o que é, criando-se um falso correspondente tangível para o que é o mero desdobrar de uma recordação, ignorando-se, neste inútil e prejudicial processo, quer a relatividade do tempo sustentada pelos modelos teóricos, quer a interdependência entre as várias posições ocupadas por um mesmo objeto durante o seu deslocamento.

O Auditório aplaudiu, mas o Orador mostrou-se algo incomodado, talvez até indignado, com essa reação. Aquilo mais não era que uma definição, não havia nada ali digno de aplausos ou apupos, não berra “Vitória!” quem abre um dicionário.

-É, por isso, imperioso que abandonem definitivamente esta enfermidade disfarçada de sentimento nacional, de coisa muito nossa que resiste ao lápis universal de um tradutor estrangeiro.

-Como podemos nós sentir saudades de… de D. Sebastião, se nunca o conhecemos?- alguém perguntou, de entre o Auditório. Parece que o reconheço, é um reputado Sub-Gestor, começou por colar cartazes de apelo ao Voto Sábio, falámos pela primeira vez quando tentou colar um no muro da minha casa, desculpou-se, ao princípio, mas eu acabei por ceder, ficámos bons amigos e, eventualmente, fomos os dois tatuar bandeiras do Partido nas testas, não doeu muito e até bebemos uns copos depois disso, mas ainda hoje me olhei ao espelho e notei que o desenho da minha ficou um pouco menos simétrico que o da dele, desleixaram-se, a ver se lá volto quando tiver tempo, é certo que voltarei, não me resta senão tempo.

O Senhor Administrador concluiu:

-É dever nacional extinguir a saudade como os nossos corajosos Bombeiros extinguem as chamas, todos os verões. Não se comovam com os Migrantes, porque o tempo da sua ausência e o tempo da sua presença são o mesmo, nós, os que ficamos, é que estamos limitados na nossa apreensão da realidade, pois que tudo decorre em simultâneo debaixo de uma só abóbada do mundo. Afinal, não houve já idealistas alemães suficientes para vos demonstrar até que ponto a nossa vivência temporal é impossível, inacabada e, pior, imoral? A minha mãe faleceu recentemente. E pensam que fiquei com saudades dela (que Deus a tenha!)? É claro que não me deixo embalar pelas mistificações do baixo povo, é claro que compreendo a ilusória cortina de minutos que se baixou entre nós os dois, é claro que sei que ela ainda está aqui, viva e velha, tal como está aqui criança, tal como está aqui por nascer. Não há ampulhetas, Cidadãos, e se as houvesse, estariam deitadas, nunca de pé.