Odradek

As parábolas de Kafka nunca se deixaram amansar, mesmo quando os cafés europeus ficaram apinhados de estruturalistas, positivistas, gente cheia de esperanças. E não será por acaso que resistem à explicação: o fenómeno que descrevem é necessariamente inominável. Convencionou-se apelidá-lo de “abandono divino”, mas, mais que redutora, esta designação parece-me, hoje, paradoxal: é inegável que há um Deus a parasitar todos estes escritos. Não sei se as suas parábolas delimitam verdadeiramente uma “teologia negativa” (como Harold Bloom a chama), se são os ecos impossíveis de uma cabala muda; sei, todavia, reconhecer a sátira que elas constituem: uma fabulosa subversão da tradicional construção axial que herdámos do Novo Testamento, centrada na monossemia enquanto mediação entre o Verbo e os que estivessem dispostos a ouvi-Lo. A Kafka pouco interessaria este equilíbrio, daí que se remova a moralidade e o leitor comece em desvantagem. A parábola torna-se, então, num labirinto edificado sobre o texto, que tem por onde entrar mas não tem por onde sair. A interpretação é o caminho que escolhemos para o percorrer; como não existe saída possível, não tem fim a significação.

Depois desta introdução, é, talvez, contraditório apresentar um sentido para uma parábola kafkiana; pois bem, isso mesmo farei, mas não com a intenção de a tornar objetiva: quero apenas deixar aqui um registo dos meus passos, um desenho, que dirá: é este o meu caminho.

A preocupação de um pai de família, parábola à qual acedi graças à tradução de João Barrento, é um dos mais aterradores pesadelos em prosa que já li. Sobre a maioria dos textos de Kafka paira a sacra redenção (mais metafísica que rilkeana ou religiosa), da qual o peso da nossa culpa, o pecado da nossa modernidade, nos afastou. Muitos autores aqui encontram (ou insistem em procurar por) motifs tipicamente judaico-cristãos, e, de certo modo, concordo que toda a parábola kafkiana condensa o sofrimento fundamental de Jesus morrendo órfão na cruz, olhando sem ser olhado, perguntando sem obter resposta, ausentando-se de um nada que talvez a ninguém pertença. Penso, porém, que A preocupação de um pai de família nos dá a conhecer uma outra tristeza que é, sobretudo, um medo.

O narrador desta parábola começa por falar de uma palavra, Odradek, que depois se irá encarnar. A origem deste vocábulo é desconhecida, e o seu significado também, embora seja usado para designar uma estranha criatura que ocasionalmente surge em casa do protagonista, que é, como o título indicia, um pai de família:

Há quem diga que a palavra Odradek é de origem eslava, e procura-se então, com base nisso, demonstrar a formação da palavra. Outros, porém, acham que ela vem do alemão, e que o elemento eslavo é apenas uma influência. Mas é evidente que a insegurança das duas explicações nos permite concluir que nenhuma delas é correcta, até porque nenhuma permite encontrar o sentido da palavra.
Naturalmente que ninguém ia perder o seu tempo com tais estudos, se não existisse realmente um ser com o nome de Odradek. À primeira vista, parece uma bobina sem fio, chata e em forma de estrela, e de facto há uma espécie de fios que o cobrem; certamente pedaços de fios de vários tipos e cores, esgarçados, velhos, atados e também enleados uns aos outros. Mas não se trata apenas de uma bobina, porque do meio da estrela sai um pauzinho transversal, ao qual se junta outro, em ângulo recto. Com a ajuda deste último pauzinho e de uma das pontas de estrela, a coisa é capaz de se pôr de pé, como se tivesse duas pernas.
(…) Anda pelo sotão ou pelas escadas, pelos corredores, no vestíbulo. (…)

“Como é que te chamas?”, perguntamos-lhe. “Odradek”, responde ele. “E onde é que moras?” “Domicílio incerto”, diz, rindo; mas é apenas um riso como de alguém que não tivesse pulmões. (…) Muitas vezes fica durante muito tempo calado, como a madeira de que parece ser feito.

A meu ver, esta entidade que nos é descrita não é coisa alguma mas pode parecer-se com qualquer coisa; resulta da aglomeração de diferentes artefactos, não existe na natureza e é composta por matéria sem vida; contudo, assim que estes objetos (a bobina, os fios…) se reúnem, o ente é promovido a ser. O narrador diz que Odradek aparenta ser desprovido de propósito e dotado de uma sinistra intemporalidade:

É em vão que me pergunto a mim mesmo qual será o seu destino. Será que pode morrer?

Julgo que Odradek poderá representar os acrescentos antropogénicos ao mundo natural, personificando, assim, essa vertigem da produção e da transformação que nos terá despistado ao longo da ascensão para a Verdade platónica. Não creio que aqui resida apenas a cansada desvalorização da techné, critica-se o próprio ato criativo, não somente a criação. O Odradek é uma criatura feita de tudo aquilo que os homens usaram e depois esqueceram, é a soma das inutilidades, o não-ser que regressa para interrogar com a sua presença os seres que o inventaram.

Se muitas das parábolas de Kafka parecem tratar o sentimento de abandono do Homem, que, angustiado, questiona uma divindade insondável, em A preocupação de um pai de família julgo que estamos perante uma inferiorização deste mesmo contraste: aqui Deus é o Homem, e o seu filho abandonado é toda a materialização do que outrora pensou, todos os produtos por ele idealizados e concretizados. O sofrimento é semelhante, mas aqui não somos os esquecidos: somos quem esquece. E este nosso tenebroso descendente tem uma virtude que nos foi vedada: a imortalidade. As tradições antiquadas, as velhas civilizações derrotadas, os metais, o plástico, as ruínas, o lixo: tudo isto já foi humano, já teve um sentido; hoje continua presente, mas como espectro do que foi, ontologicamente anulado, existencialmente esvaziado. E enquanto nós, humanos, nos dispersamos em busca de uma finalidade, de uma essência, o Odradek perdura na mais absurda unidade: a sua mera existência é suficiente para que o Homem se confronte com a morte. O Odradek é, portanto, um signo do nada que tanto tememos.

Depois deste breve resumo da minha interpretação, percebem onde foi que fiquei neste imenso labirinto.

Será que ele um dia ainda vai rebolar escada abaixo com aqueles fios atrás de si, até aos pés dos meus filhos e netos? É óbvio que não faz mal a ninguém; mas a simples ideia de que ele possa sobreviver-me é para mim quase dolorosa.

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